Sala de Visitas

Entre e fique à vontade! Este é o cantinho da casa onde esperamos receber com muita alegria alguns novos valores que, como todos os nossos confrades, dedicam-se ao ameno deleite de escrever literatura não-científica em prosa e verso. Convide e indique seus amigos médicos e escritores para juntar-se a nós.



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Rostos vazios

“De sua formosura deixai-me que diga: é uma criança pálida, é uma criança franzina mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.”
João Cabral de Melo Neto


O Boeing da Emirates Airlines taxia na pista do Aeroporto Charles de Gaulle, nesta manhã de abril de 2017. Francesco desaperta o cinto, apanha a mochila sob o banco e se prepara para o desembarque. Paris é a conexão para o Iêmen.

Passadas três horas, vamos encontrá-lo dentro de igual aeronave, indo para Saana. Enquanto reclina a cabeça na poltrona, relê a carta do Coordenador Geral da Organização Médicos Sem Fronteiras no Brasil, na qual ressalta que Medicina Interna foi a primeira especialidade de Firenze, antes de fazer o curso de Médico- Legista e o apresenta para o trabalho médico no devastado país. Como a experiência no Quênia foi de aprendizado ele, de novo, nos MSF,  vai estender as mãos a quem delas necessita. Da capital até a cidade onde atuará, Ibb, são duzentos e quarenta e oito quilômetros, ou seja, cinco horas por estradas  poeirentas, sinuosas e cheias de perigos.

O jipe, com o logotipo do homem de braços abertos dos MSF, o espera à frente do aeroporto e logo parte para o sudoeste do Iêmen, levando um médico cheio de ideais.

Longe dali, Fatima, numa aldeia distante do Centro de Tratamento de Cólera, mantido pelos Médicos Sem Fronteiras em Ibb, atinge o máximo de dias de espera a que se impôs para ver se o filho, o pequeno Ishaq, de dezoito meses de vida, melhore. Ele está passando mal e, por não ter dinheiro para a viagem e sem que nenhum vizinho o tenha também, consegue afinal com um parente a quantia para se deslocar. Vai caminhando até o ponto de onde sai um precário ônibus. Passa por escombros, lixo amontoado e calçadas sujas até que toma lugar no coletivo. Os olhos fundos de Ishaq, sem brilho, fitam o nada.

 Francesco, no jipe que vai engolindo a rodovia sob as rodas, abre o manual da Organização Mundial da Saúde e se atualiza sobre cólera, a epidemia da doença que este mês se alastrou por todo Iêmen. Recorda o professor da cadeira de Doenças Infecciosas e Parasitárias citando, de passagem, que a bactéria responsável por diarréia, vômitos, desidratação e morte tem o nome de  Vibrio cholerae e se transmite por água contaminada. O outro manual que tem em mãos é dos MSF, e fica sabendo, ao abrir-lhe as páginas, que no país em ruínas, quinze milhões de pessoas sem acesso à água potável e saneamento. Fica compadecido ao ler que os médicos dos MSF se referem aos pacientes, principalmente às crianças, serem portadores da doença dos rostos vazios, pois os olhos, profundos, perdem o viço.

Depois de vencer quilômetros em sobressaltos de estrada esburacada, por fim, Fatima e o menino chegam ao Centro. No pátio, que fica atrás do posto de saúde, adultos recebem soro dentro de automóveis. Ela passa por eles, com o pequeno Ishaq nos braços e percorre corredores onde crianças dividem os espaços de macas que se espalham. Ishaq é avaliado e logo fica, com os  soros fisiológico e glicosado caindo em gotas pela veia do pescoço,  em um leito improvisado, pois está em desnutrição aguda. Fatima senta-se ao lado, a orar.

O motor da  viatura dos MSF é desligado diante do alojamento, não muito longe do local onde Francesco passará, nos próximos três meses, a maior parte do tempo. Ele entra,  coloca sobre a cama escolhida a mochila e sai em direção ao  Centro de Tratamento de Cólera. Não sabe o que lhe espera. Com firmeza nos passos ultrapassa a porta principal. Um quadro dantesco vem de encontro à visão: crianças, na maioria, com aquele olhar que lembra a morte a se mirar no espelho, ficam só à espera do vazio, como seus rostos. Num relance, observa que, à medida que um morre, são trocados os lençóis e um ser pequenino está de novo, após uns minutos , no lugar do recém desocupado.

Cabe a Francesco cuidar de Ishac, que chegou, como ele, há pouco.  Um ser tão frágil, com bracinhos que parecem que vão se quebrar ao exame e um olhar sem ver, a pedir ajuda. Francesco toca na pele seca e enrugada do garoto que esboça um quase sorriso, um leve movimento de lábios. Pressiona de leve o ombro de Fatima, como a encorajá-la, e vai ver a pasta de Ishaq. Senta-se ao arremedo de mesa e prescreve sulfa e um suplemento de zinco, bem como  reitera a administração dos soros endovenosos, para reidratação e equilíbrio dos elementos perdidos.
                        
Mal raia o sol, Francesco corre para o Centro para ver Ishaq. O menino parece outro: a pele começa a se distender, os olhos menos encovados a fitá-lo e o sorriso, antes apenas ensaiado, agora é como a Estrela D´alva, a iluminar a manhã de um novo dia...

Livros de Roberto Lúcio


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Décimo dia do segundo mês do quinto ano


Do alto, pela janela, os rios serpenteiam minguantes. Entre as serras, repletas de cobertura verde-escura – ainda restante. Entremeada por descampados de verde-limão. Com alguns pontinhos marrons, de etiologias antrópicas.

Altura que embeleza, outrossim também me assusta. Não relaxo e nem aquieto enquanto não estiver com os pés no chão.

É de se imaginar, por curiosidade – apesar de tanta distância –, o que fazem lá embaixo. Em suas casinhas e ruazinhas diminutas. Enquanto aqui de cima bocejo, leio e escrevo.

Paro de reparar a superfície terrena por obstrução dos imensos aglomerados branco-algodonosos. Não em minha retina, mas sim os dispersos na imensidão do céu. Fico atônito admirando como essas cumulonimbus se transformam em extensas coberturas cinzentas produtoras de trovões.

Meus olhos doem e cerram diante da luminosidade do céu brasileiro. Azul-anil gostoso de enxergar, cheio de belas nuvens que mais parecem um parque de diversões à mente pueril e sonhadora, bastante imaginativa.

Enquanto não tenho asas, passo medo nessa invenção humana.

Ah, Santos Dumont, que vontade de saber voar!

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A linha cruzada

Após um cansativo dia de trabalho na loja de tecidos e um metrô superlotado a caminho do bairro de Vila Madalena tudo que Jandira desejava era uma boa ducha, comer alguma coisa e cair na cama.

Hoje fora um daqueles dias de muita exposição e pouca venda e talvez por isso o abatimento manifesto na face adornada por cabelos tingidos de loiro.

Chegando em casa notou que a lâmpada fluorescente do corredor do seu andar piscava incessantemente, sem conserto desde a semana anterior. Pensando alto disse que era um absurdo pagar tão caro por uma taxa de condomínio e nem a lâmpada era trocada.

Após um banho, decidiu comer alguma coisa antes de dormir e que uma pizza cairia bem. 

Apanhou o telefone e discou para um restaurante.
- Alô! Vocês fazem entrega de pizza?
- Eu posso lhe entregar coisas mais interessantes que uma pizza, respondeu a voz do outro lado. Alguém decidiu passar-lhe um trote imaginou.

A voz rouca e grave fez Jandira tremer de susto. Achou que era a janela ainda aberta e ela de roupão a causa do arrepio que lhe tomou todo o corpo. Pensou em retrucar, mas a voz sussurrava ao seu ouvido e Jandira teve tão somente a reação de dizer que queria uma pizza de sabor calabresa.
- Oferto-lhe todos os sabores que quiser. Chocolate, morango, chantilly. Faço-lhe todas as vontades e fantasias. 

Jandira tentava desvencilhar-se daquela curiosa conversa, mas as coisas ditas pela voz do outro lado do telefone começaram a apimentar a sua imaginação. Suas pernas aos poucos ficaram meio bambas até fazê-la cair no sofá da sala e o mundo foi rodando, rodando e a voz foi sumindo, sumindo.

O som da televisão despertou-a daquele transe em que se encontrara. Tinha se passado mais de uma hora desde que ela se percebeu descendo o corpo, caindo no sofá. Os cabelos já estavam secos, um tanto revoltos e o roupão de banho amarrotado ao lado denunciava um tempo que a consciência não tinha retratado desde aquele telefonema.

Exausta, recostou a cabeça no braço do sofá, estilo retrô, e foi adormecendo suavemente. Tinha na boca um gosto de pizza cujo sabor era, para ela naquela hora, indescritível.

Acordou com o despertador do telefone celular e meia hora depois já estava dentro do ônibus para o trabalho. A mente vagava lentamente com o que ela atribuiu ser um sonho que não conseguia entender. 

Os dias se passaram iguais a tantos outros a que Jandira estava acostumada, com a rotina do casa para o trabalho e dai para casa. No fim de semana porém uma amiga do trabalho a convidou para comer um pastel numa dada pizzaria no bairro do Brás. Lá chegando sentaram-se à mesa e logo um rapaz veio atendê-las. Na face ostentava um sorriso afável e propôs servir-lhes uma pizza que estava no forno à lenha naquele instante o que foi aceita sem reservas.

Mais tarde, porém Jandira queixou-se a amiga de um leve mal-estar tipo enjoo e sensação de tontura passageira e foi aconselhada a cuidar da saúde.

Inexplicavelmente Jandira não voltou ao trabalho nos dias seguintes. Uma semana depois a amiga recebe um telefonema;
- Amiga, estou lhe convidando para meu chá de bebê!
- Chá de bebê? Como assim Jandira? Como assim grávida?
- Estou grávida de um mês amiga.
- Mas, e o pai? Quem é o pai?
- Humm! Não sei. Serve um pizzaiolo do Brás?

A amiga sentou-se na cadeira próxima. O telefone aos poucos lhe caiu das mãos. Do outro lado da linha não se ouvia mais a voz de Jandira. Ouvia-se a voz de alguém que lhe oferecia algo mais que uma pizza de sabor calabresa.

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Quando dormes

Grande amor, não murmures
Tenho dado aos meus pés 
Certos solos que não sabes

Quando dormes, grande amor,
É que corro descalço 
Sobre pedras pequenas
Velhos galhos quebrados
Um asfalto que me queima

Não te turbes!
Há virtudes que meus olhos
Ainda não desvendaram

Enquanto faço vigílias intermináveis 
Nos teus intermináveis sonos,
Não reclames, amor grande

Por andar distante e preocupado
Tenho andado distante e ocupado

Com uma palavra que nos salve
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A impermanência de tudo


Não pensamos muito nisso. Na impermanência de tudo. Em como tudo muda o tempo todo. Em como as mudanças acontecem  às vezes de forma inesperada e nos atropela como se fosse um trem, passando por cima sem dó nem piedade. Mas às vezes nos levando rumo a felicidade, mudando nossa vida de maneira maravilhosa. Fato é que as mudanças às vezes são precedidas de uma insatisfação. Às vezes nossa existência parece perfeita, tudo como tem que ser, e chega a morte e nos leva alguém querido, que amamos, e não conseguimos imaginar nossa existência sem aquela pessoa.             

Quanto à morte nada pode ser feito, ou então nos apaixonamos perdidamente por alguém que vai transformar nossa vida completamente, ou mudamos de cidade, de país. A chegada de um filho, o fim de um relacionamento, um novo emprego... A vida é feita de mudanças, e aquele que não entende isso sofre mais do que aquele que entende que tudo é impermanente. A felicidade e a infelicidade também. Nada dura para sempre da mesma maneira. Só assim para haver evolução. O crescimento interno acontece na medida em que aproveitamos nossas experiências. Temos que ser meio camaleônicos e nos adaptar, ou então, mudar tudo de novo e nos rebelar. Ninguém consegue ficar parado. Mesmo quando fingimos não ver as mudanças chegando ou pedindo passagem, o universo se encarrega de nos fazer enxergar, e de nos fazer agir. Não conseguimos deter a nossa evolução, apenas retardá-la. Quando não deixamos fluir, levamos um susto do universo, que nos faz tomar uma posição e nos faz sair da estagnação.

Estamos sempre nos reinventando. Encerrando ciclos, começando novos ciclos. É importante compreendermos que as mudanças são necessárias, que a impermanência faz parte da nossa existência. Situações desagradáveis não irão durar para sempre e vice versa. Temos o momento presente. Cultivar o desapego  faz parte desse crescimento. Situações e  pessoas são importantes, mas tudo vem e vai. Quando aceitamos o desapego e a impermanência, nos encaminhamos para conseguir a paz tão almejada segundo os budistas. Desenvolvemos-nos através da impermanência. Passamos pela infância, adolescência fase adulta e nos tornamos velhos. As estações mudam. Não temos verão para sempre, nem inverno para sempre, não somos os mesmos sempre, nos recriamos e nos adaptamos, nos renovamos, e isso faz parte do ciclo da vida.  Etapas se findam para que novas comecem.

Ciclos, a vida é feita disso. Encontros, pessoas que fazem parte da nossa história em algum momento, situações que vivenciamos e experimentamos,  boas ou más, para o bem ou para o mal, em algum momento irão fazer parte da nossa existência, nos ajudaram a evoluir, nos transformarão, outras vão nos completar e preencher a nossa existência e não iremos querer que aquilo passe. Mas passa. Superamos e nos transformamos, porque somos assim, impermanentes. Nossas crenças que pareciam ser para sempre, mudam. Estamos sempre nos adaptando, mudando a direção. Devemos encarar essas mudanças como novas oportunidades, como algo natural que faz parte da nossa existência. Virar a página para algumas circunstâncias , situações e pessoas não significa que fomos derrotados, isso é o que parece num primeiro momento, e existe uma inutilidade nesse sentimento que não nos leva a lugar nenhum. Perceber o quanto somos capazes de nos reerguer, de aprender, e de nos reconstruirmos e recriar nossa existência, nossa vida. Basta ter um novo olhar, sermos menos críticos e mais amorosos com a gente. Para alguns  é mais difícil que para outros. Tem pessoas que se comprazem na dor, acostumados que estão a ela. Tem gente que não aceita que nada dura para sempre, e que encara as mudanças como castigo. Nossa vida é passageira, nós também somos, e, fazendo um trocadilho com a palavra passageiros...somos passageiros porque nossa existência é breve, somos passageiros como viajantes dessa nave que se chama planeta terra, então vamos tirar o máximo proveito dessa aventura humana. Nossa alma está aqui ocupando um corpo justamente para progredir e aprender. É na impermanência das coisas que eu tenho oportunidade de crescer.  Não há nada que não mude o tempo todo. Hoje podemos estar apaixonados por alguém e não imaginarmos nossa vida sem essa pessoa, amanhã podemos nem querer ver mais...
            
Nossos pensamentos mudam a todo instante, nosso humor, nossas emoções, momentos felizes, momentos de dor. Como lidar com essa impermanência toda? Entendendo que não temos controle sobre nada. Não queremos morrer, mas vai acontecer um dia. Não temos controle, apenas a falsa sensação de que estamos no controle de tudo. O quanto antes aceitarmos que tudo pode mudar em questão de segundos, mais felizes seremos, sofreremos menos. Evitaremos conflitos desnecessários, podemos não estar vivos amanhã. A impermanência está, simplesmente assim. Se resistimos a ela, interrompemos o fluxo natural das coisas. É preciso deixar um ciclo acabar para que outro possa começar. Não é fácil passarmos de uma situação que nos agrada para outra totalmente contrária, aquilo que um dia foi bom, passa de uma hora pra outra a não ser mais, como disse antes, tudo é impermanente. E como diz  Eckhart Tolle,  em “Praticando o Poder do Agora”

“...a felicidade e a infelicidade são, na verdade, uma coisa só. Somente a ilusão do tempo as separa. Não oferecer resistência à vida é estar em estado de graça, de descanso e de luz. Nesse estado, nada depende de as coisas serem boas ou ruins"

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La palabras

Tienen puntas filosas
como ruedas.
Rodamos su música
en la quietud salvaje de la noche.
Las unimos en la cruz que nos escribe.
Sangramos su cadencia
en las estacas.
Tormento de las manos
que no sueñan

Cada palabra
es el bastón de un ciego
tocando los sentidos
con urgencia.
Buscando la luz
bajo los párpados.

Hurgamos
en la aridez más vasta
una nueva presencia
diferente a su significado.
Las señales gotean
fosforescencias vivas
sobre el papel frío.
Una marimba loca

despierta un frenesí de huesos.

Como una brevedad de luna
que evapora su musa en el estanque
la luz de la palabra estuvo.
El hombre se pobló de estrellas. 

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Nedy Cristina Varela Cetani - Doutora em Medicina. Docente. Escritora e coordenadora de oficinas literárias desde 2009. Membro Honorário e correspondente da ASOLAPO-ESPANHA (Associação Latinoamericana de Poetas, Escritores e Artistas) e Embaixadora Cultural da ASOLAPO-ARGENTINA. Integrante da Sociedade Argentina de Escritores. Recebeu o título de “Visitante Ilustre” na Argentina e em Porto Rico. Foi nomeada Presidente Honorária do Encontro Internacional do Mercosul, realizado em Gualeguaychú. Tem publicações nos gêneros de poesía e prosa. Participante de diversas coletâneas no Uruguay, Argentina, Chile, Brasil, Colombia, Guatemala, Perú, Porto Rico e Espanha. Recebeu prêmios nacionais e internacionais.  Presidente da recém-criada SUMES – Sociedad Uruguaya de Medicos Escritores. 
Email: nedy51@hotmail.com
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Uma tarde em Ribeirão Preto

Eram 14.00 horas, sexta-feira, quando o avião pousou. Quando desci, um imenso calor. A palestra, o único compromisso na cidade de Ribeirão Preto, estava marcada para 20.00 horas. Pensei: tenho pelo menos 6 horas até lá. O hotel, simples, mas confortável, tinha um bom ar condicionado. Resolvi ficar no quarto, para recuperar energias de uma semana muito cansativa. Trinta minutos, o celular chamou. Era Ana Paula, estava na praia de Tambaú em férias e resolveu ligar “pra conversar”. “Afinal, somos amigos”, foi logo explicando. Vinte minutos depois, uma reflexão sobre os dias de ontem.

Lembrar o tempo vivido não é saudosismo ou nostalgia. Resgatar a memória é conhecer a vida. Essa questão, embora sempre atual, antecede minha geração. Toda a humanidade convive com a tarefa de pensar a vida. Kierkegaard ensinou que para “viver a vida é preciso olhar para frente, mas para compreender a vida é preciso olhar o passado”. Procuramos explicações para a vida. Pensamos a vida como um objeto, algo possível de explicar, mas ela é uma experiência instantânea. As circunstâncias da vida de cada pessoa incluem, ao lado de tempos ricos, tempos pobres. É preciso encontrar o sentido de unidade, para nos dedicarmos a pensar o tempo em que vivemos.
 
A consciência crítica da realidade é uma tradição na cultura ocidental. Entretanto, a visão da vida de cada de um de nós revela facetas diferentes de uma mesma realidade. Quando tudo está bem, qualquer coisa que possa nos atingir é uma simples ilusão passageira. Quando nos tornamos vulneráveis tudo é muito agressivo.   A primeira vez que vi a Ana Paula ela estava sorrindo. Anos depois, no dia da nossa separação, havia uma lágrima escorrendo em sua face. Aquela lágrima é mais doída hoje do que foi naquele dia. Carrego a memória de uma despedida que nunca houve? Ou que nunca deveria ter havido? Receio que nos consumimos de paixão juvenil.

Existe algo infinitamente triste quando os enamorados se separam. Na separação o eterno problema é claramente o equilíbrio humano. Não é possível fugir da dor, risco inerente ao amor, mas deve-se arcar com a verdade. Não se navega o mar da vida a bordo de um amor passado. Não existe alternativa, cada um terá que construir sua própria canoa. Olho o relógio, 19.00 horas, visto o paletó e saio para a palestra, com a compreensão que cada tempo tem sua própria história.    
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Para tornar-se um associado, o Dr. José Hugo poderá manter contato com
Dra. Márcia Etelli Coelho, presidente da regional SP: marciaetelli21@gmail.com

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Sinais

marco o teu número, mãe
e respondem-me três distantes sinais sonoros,
depois o silêncio.
se insisto, oiço uma voz grave que me diz: - ligação indisponível!
já pensei apagar o número, mas não consigo,
não consigo apagar a ilusão de estares comigo,
e, então... marco... marco... marco...
dois, quatro, três...cinco, nove, três ...quatro, nove, cinco,
escolho/escrevo a palavra mãe e lá vem:
- dois, quatro, três... cinco, nove, três...quatro, nove, cinco,
oiço os sinais sonoros e depois cai o silêncio.
Tu bem tentaste que eu aceitasse melhor esse céu
onde os telefones não funcionam,
e talvez te tenha desgostado
porque troquei a tua fé no paraíso celeste
por terrestes ideais, prosaicos e simples
da luta diária dos homens por um mundo mais justo
como o ato de nascer com direitos iguais.
Se te desgostei, perdoa´!...
Se desagrado houve, deves tê-lo embrulhado
em roupagens tão delicadas, com tanto amor
que não recordo um único momento de ter sido menos amado.
Dizias-me que a vida é uma ponte, uma passagem,
mas discordava e descria de ti sobre o que existiria na outra margem
(como eu descria da existência dessa outra margem...)
Nunca me convenceste, nunca te convenci...
Mas nada disso importava, bastava o teu sorriso luminoso,
a luz dos teus espantosos olhos azuis,
a fala das tuas mãos, prodigiosas,
de onde nasciam bonecas, bordados  e as lindas colchas de 
e a tua tristeza de não saberes ler nem escrever
e a doença  e a pobreza e o trabalho no campo e a exploração
para estar sempre,  sempre ao teu lado.
Confesso que, por vezes, me dariam jeito as tuas certezas,
a tua simplicidade.
Sabes mãe, começo a sentir o peso da idade
e algumas perdas cansaram-me tanto!...
Mas quando penso na tua vida, no atual mundo tão desigual,
com a riqueza produzida tão injustamente distribuída,
ah!... então continuo firme nas minhas convicções e revoltado.
Escuta mãe!
Continuo preso ao teu telefone desligado
como  a abelha ao pólen das flores na busca do mel das recordações,
sem fé para acreditar,
mas na busca da tua força e alegria de viver,
levado pela conforto de continuares a meu lado
e me ajudes a caminhar.

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O teu corpo

O teu corpo
clareira que se abre em meio à selva
simétrico, linear
ácido às vezes,
de curvas mirabolantes
júbilo ventre onde vejo
           / constelações incandescentes

o teu corpo
no limite dos sentidos
tenso e sussurrante
abalo líquido de efervescências
escarpa impossível de se vencer
o teu corpo que adoça e amarga
           / com as mesmas propriedades

quero ficar nele
deitado ao sol
aderente, fluido
suplicar por encantamento
suplicar por eternidade
neste momento em que me encontro
        / submerso no teu lindo corpo.

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Reflexão

Era meu aniversário de 39 anos e eu estava no trabalho. Pensei que tinha já 17 anos de formada e era tempo de avaliar a vida... Como era ser médico afinal? 
Como era minha existência? Qual minha real função?
Quais as dores de um médico?
Nunca fui alguém a falar de ser médico, como se isso não se discute. 
Mas hoje preciso fazê-lo.
Preciso dizer que tenho metas e desejos imensos;
Preciso confessar que cada um diante de mim
É um recomeçar sem solução.
Preciso dizer que não faço tudo o que deveria,
mas também preciso confessar que, no fundo, nada depende de mim.
Preciso dizer que tenho fortes amarras em minha função;
E que os resultados humanos do que faço são imprevisíveis.
Preciso dizer que na hora do cafezinho, cansada,
penso nos que foram e nos que virão ainda e,
olho a sala de espera com muitas almas descontentes e sofridas;
Muitas vezes tenho pouco a fazer por elas.
Preciso dizer ainda que a solução dos problemas destas pessoas não está em minhas mãos.
Consigo rir, consigo conversar;
Consigo aconselhar, consigo consolar.
Consigo ver as dores do corpo e da alma e,
consigo até medicar.
Mas a cura nunca é minha…
Ouvindo muito e observando sei que as dores de cada ser humano vão muito além do que posso alcançar com muita humildade e desprendimento.
Trabalho com o homem e para o homem e,
doendo ou não doendo,
é o que existe de mais duro e lindo no mundo.
Um médico deixa sua casa, abandona sua vida, seu lazer, seu descanso, sua paz,
para muitas vezes se frustrar e dizer um “fiz o que pude”…
Nunca me arrependerei de nenhum “fiz o que pude” pois esta frase significa, na verdade, “já fiz tudo o que é possível e o além do possível”...
Doendo ou não doendo,
transitando entre o sofrimento, o alívio e, em alguns casos, até alegria,
isto é ser médico e esta foi minha maior escolha,
e minha maior conquista.
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Ramalhete

Me fiz jardim para receber flores
Sim, as quero em vida.
Crave um girassol no meu peito
E saberei amar com clareza e luminosidade
Quero rosas, tulipas, margaridas e orquídeas
Antúrios, papoulas, camélias e violetas...

Uma delas me trará teu cheiro
Que procuro em cada beco do meu ser.
Quero arejar a vida,
Oxigenar a alma
E esperar o tempo da panapaná*.
Em meio a tantas cores, aromas e beleza
Saberei florir.

* termo de origem indígena que designa uma grande quantidade de borboletas - um bando - que aparece em determinadas épocas do ano.
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Lua

Bem cedo ela, pura luz prateada refletida, se põe no oeste.
Descanso da guerreira, guerreira que iluminou pensamentos, sonhos, desalentos, amores com gemidos e sussurros, beijos delicados e paixões, dúvidas, sofrimentos, alegrias e tristezas.
No seu refugio, amedrontado na escuridão, o homem se esconde.
Silente, doma seus monstros criados durante o dia luminoso de energia pura. Quentes, por vezes tão muito quentes que obrigam o refúgio na sombra da Árvore Mãe. Muita Luz, muito calor, muita informação, Miragem. A Luz é tanta que as informações se transformam em ilusões mal decifradas. À noite repousa, pensa, dorme e sonha. Descanso acalentado pelo silêncio do ar prateado, então ele pensa. Organiza as informações como se arrumasse a despensa. Descansando se prepara para novo Sol.
Lua, mulher, companheira das horas santas e das insanas.
Luz de pura prata filtrada, energia totalmente traduzida e elaborada absorvida e decifrada, agora sim refletida e entregue. Pronta para ser apreendida.
Árvore mãe, protege o bosque de novas árvores que venceram e fortes se desenvolvem.
Assim se mantém os bosques, árvores agrupadas em família em buscam a Luz.
Busca intensa e alucinante, tão energética que pode cegar.
Lua, mulher, traduz todo o conhecimento. Alimenta assim seu útero, casa de Deus.
Alimentado vai gerar a Vida.
Lua, mulher se alimenta da tradução da energia em amor.
Amor, reflexo do Sol, reflexo traduzido, explosivo e prateado, limpo, claro, silencioso, calmo. No ar flutua etéreo, Luz divina elaborada, seiva que alimente as almas. Puro amor. 
Lua, mulher, útero, mãe, traz dentro de si a centelha de Deus, a vida nova.


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