13 janeiro, 2018

TEM MAIS VELHA?

Por:
Paulo Camelo de Andrade Almeida
Regional PERNAMBUCO









Ivan vivia sua adolescência entre o estudo (menino pobre, numa escola pública) e as peladas de futebol.

Todas as tardes, após voltar da escola, almoçar e fazer os deveres de casa, ele pegava sua bicicleta aro 22 e saía da sua casa (uma casa humilde) na Rua da Macaíba, no Córrego do Euclides, para ir parar na Avenida Norte. 

Ali, na Avenida Norte, estavam seus amigos, amigos que conseguira arregimentar com seu jeito risonho e cordial. Ali passava as melhores horas naquelas tardes-noites, até que chegasse a hora de voltar para casa.

E não ficava só nos dias-de-semana. Aos sábados e domingos ele seguia a mesma liturgia, agora desde a manhã. Tomava seu café com pão e ovo, e tomava o caminho já decorado: Beco do Pavão, Avenida Norte, até encontrar-se com todos os outros, num campinho que o pai de um deles deixou que fizessem em um terreno baldio, na esquina da Rua Manoel Apolinário. Ali, no campo do MAPOC.

MAPOC - Manoel Apolinário Clube. Clube criado pelos jogadores das redondezas da Avenida Norte e Rua Manoel Apolinário. 

Nos fins de semana, jogavam bola, em torneios que criavam, tendo como adversários os meninos e rapazes de outros grupos das adjacências. Nesses torneios participavam: BEVEC (Bela Vista Esportivo e Cultural), um clube (como o MAPOC) criado por moradores da Rua Bela Vista, apenas para a diversão, e que tinha uma pretensão mais avançada: a cultural; o GEL (Grêmio Esportivo Lucena), da Rua Cabo Epitácio Lucena, nos mesmos moldes dos anteriores. E a eles se juntava um grupo de jogadores adolescentes do clube Botafogo, da Vila dos Comerciários (apenas este não tinha nome original).

Mas o gostoso mesmo eram as peladas, que se estendiam pela noite, a jogarem futebol e cacetadas no escuro, numa brincadeira aparentemente perigosa, mas que não deixava nenhuma seqüela, pois as pancadas eram todas medidas e meditadas, para que não se virasse um simples jogo em campo de batalha.

Sua bicicleta, uma Monark, aro 22, própria para crianças até 12 anos, mostrava-se pequena para sua idade e estatura. Mas, criança pobre que era, não tinha como trocar de bicicleta. Era seu meio de transporte.

Com ela, nos domingos, quando faziam programações diferentes, saía com os amigos. Quem tinha uma montava nela. Quem não tinha a sua ia de bigu, no quadro da do amigo. E assim faziam seus passeios. Saíam de Casa Amarela e iam tomar banho de mar em Rio Doce. O banho de mar era só pretexto, pois chegavam à praia às 8 horas, depois de pedalarem por uma hora, e às nove horas já estavam de volta, para que o sol quente não os pegasse.

Os roteiros se alteravam. Um dia iam tomar banho no Riacho de Passarinho, no outro iam ao Açude de Dois Irmãos, e assim passavam seus fins-de-semana. Quando o passeio era pela Avenida Norte, ao passarem pelo Largo Dom Luiz, aproveitavam para tomar caldo de cana com pão doce numa barraquinha que havia próxima ao antigo campo do Universal.
Na volta, sempre a boa e saudável pelada.

Mas, sem muita manutenção, por falta de dinheiro, um dia sua bicicleta quebrou. Ivan ficou sem seu transporte. Mas isso não o deixou desanimado. Ia, religiosamente, todos os dias para o campo do MAPOC, para jogar sua pelada. Depois voltava para casa. Nessas circunstâncias, porém, um pouco mais cedo, pois passou a depender do ônibus.

Sendo estudante, tinha direito a pagar apenas meia passagem. E ele saía com o dinheiro da passagem e o do caldo de cana com pão doce. Levava mais algum de reserva, para eventuais surpresas.

Aquele sábado foi marcante para ele. Saíra com apenas 150 cruzeiros, três cédulas de 50 cruzeiros, e a carteira de estudante no bolso. Na ida para a Avenida Norte, pagou a primeira passagem. Meia passagem: Cr$ 50,00. Ficou com 100. Daria para o caldo de cana e a passagem de volta.

Como estava sem bicicleta, acharam por bem os amigos de não darem seu passeio de fim de semana. E aproveitaram para jogar bola e inventar outras brincadeiras nos terrenos que por ali havia (terreno era o que não faltava).

Voltou para casa com os 100 cruzeiros.

Tomou o ônibus do Córrego do Euclides de volta para casa.

Quando se aproximou da borboleta, para pagar a passagem, pôs a mão no bolso. Tirou duas cédulas de 50 cruzeiros. Uma cédula velha, amassada, bastante usada, porém inteira. A outra, coitada, rasgada, já faltando uma pontinha. Em frangalhos. Talvez o Banco Central nem a quisesse de volta para destruir, pois destruída já estava.

Sem graça, com vergonha de mostrar aquela cédula que de nada mais valeria senão o recolhimento compulsório, apresentou ao cobrador a mais novinha (novinha era força de expressão).

O cobrador, um homenzinho franzino, com cara de quem acordou virado, brigado com Deus e o mundo, não lhe inspirava boa coisa. Ao ver a cédula amassada, apresentada por aquele estudante pobre, sujo (havia jogado bola a tarde toda), tomou ares de autoridade e botou banca para cima de Ivan.

— Não tem uma mais velha, não?

Disse isso, fazendo menção de devolver a cédula ao coitado.

Bom, era agora tudo ou nada. Ele era pobre, mas estudante. Não era ignorante. E usou sua inteligência. 

Calmamente, com olhar cabisbaixo, envergonhado, recebeu de volta a cédula que apresentara já com toda a vergonha do mundo.

Continuou com toda a calma.

“Primeiro - pensou - livrar a viagem. Depois, livrar a cara.”

Guardou a cédula devolvida num bolso, passou pela borboleta, registrando sua viagem - o que o protegeria de ser posto para fora do ônibus por um cobrador furibundo, e...
... Entregou a cédula esmolambada a um cobrador boquiaberto, perplexo e mudo.

E ainda tripudiou.

— Mais velha do que esta eu não tenho, não, senhor.




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