18 agosto, 2017

O HOLANDÊS E A INDÍGENA

Por:
Pedro Guilherme Barbalho Cavalcanti
Regional RIO GRANDE DO NORTE












O forte soldado Hans Carol Spiessen, foi direto ao convento-prisão. Desejava confortar-se dos últimos dias tão terríveis, de batalhas e guerra. E desejava fazê-lo ao lado da adorada prisioneira Taciatã, pois conseguira subornar novamente a sentinela. Desta vez, conseguiu convencê-lo a deixar que entrasse na cela da selvagem. E assim ouviu o sentinela fechar a porta às suas costas.

– Goedenavond, Taciatã – Spiessen dava as boas noites enquanto a selvagem mirava seu olhar no soldado. – Consegui convencer o sentinela a me deixar entrar. Não me custou barato.

Outra vez, Spiessen utilizara sua cota de água e comida para subornar o sentinela. Nestes dias, com a falta de mantimentos cada vez pior, estes bens tornavam-se cada vez mais valiosos. Isso porque as forças holandesas não conseguiam avançar além do rio Beberibe e o pouco que lhes eram enviados da Holanda era dividido por todos os seis mil soldados. A comida distribuída em um mês mal dava para uma semana.

Neste momento, Spiessen sentou-se no centro da cela. Taciatã, agachada, pronta para defender-se, cerrou o olhar no estranho homem de alva tez e cabelos castanhos enquanto apertava-se num dos cantos da cela. Ele assim iniciava seu costumeiro monólogo com a selvagem.

– Pensei que a situação aqui na Terra do Açúcar logo estaria resolvida. Que uma paz seria firmada para que a libertassem. Mas as coisas vão de mal a pior.

A selvagem escutava. Mesmo que não entendesse uma só palavra do estranho idioma holandês.

– Estamos sofrendo ataques até dentro da vila de Olinda. Por isso, o coronel alojou minha companhia agora do Porto do Recife. Um péssimo alojamento. Mas, segundo ele, de mais fácil defesa. Diz que estaremos mais seguros lá. Afinal, perdemos tantos homens nos últimos meses. Mesmo os feridos, principalmente, os atingidos por balas de mosquete morrem em poucos dias. Ninguém sabe o porquê.

A selvagem olhou a forte porta de sua cela. Como até mesmo seu alimento era entregue por uma brecha na madeira, esta ficou fechada desde o dia em que a selvagem fora colocada ali. Por esta razão, ela espantou-se ao vê-la ser aberta neste dia para a entrada do soldado.

Spiessen apenas continuava a falar.

– Esses feridos, primeiro, são acometidos por contrações na mandíbula, de tal forma, que nem conseguem comer. Depois, começa a febre e os espasmos dolorosos por todo o corpo. Enfim amanhecem mortos. Dizem que foi o escorbuto. Os homens antes acometidos por esta moléstia não conseguem fechar bem os ferimentos e o ar pestilento deste lugar termina de fazer o resto. Não é a toa que todo exército está tão apavorado!

A selvagem tentava manter o olhar no soldado. Mas continuava deixando-o escapar na direção da porta de madeira. Pelo desejo de vê-la aberta. Não conseguia deixar de pensar que este soldado era sua melhor chance de escapar da maldita prisão que lhe prendia já há tantos meses.

A mente da selvagem revolvia mil planos para escapar. Começou a aproximar-se de Spiessen. O seu corpo deixava a escuridão daquele canto apertado da cela. A nudez resplandecente de seu corpo, se expunha aos olhos do soldado.

Ele estendeu a mão. Pensou no toque da selvagem. Em contato físico. Algo que ansiava por tanto tempo. Ela não o tocou. Começou a andar ao seu redor. Caminhou para suas costas. O soldado não deixava de conter a apreensão. Sabia do risco que estava correndo. Não podia deixar de pensar nos corpos mutilados pela ação de sua raça inculta. Ou de imaginar seu pescoço, ali, à mostra para Taciatã, pronto para ser esgoelado. Em suas costas, ouvia a selvagem grunhir palavras no idioma nativo. Seus passos continuavam lentos um predador avaliando a presa.

O soldado voltou a falar.

– Zuikerland não é nada do que esperávamos. Só vemos guerra, fome, doenças e morte. Parece que estamos no juízo final em meio ao calor dos infernos. A única coisa que me impede de abandonar tudo, a única coisa boa que encontrei aqui, foi sua companhia...

Um rufo selvagem calou o soldado. Não pôde continuar a frase. Engoliu seco. Pois, já tendo rodeado por trás do soldado, a selvagem agora estava em sua frente. Ela aproximou a sua face. Cravou seus olhos nos dele. Apenas então o soldado teve o ímpeto de completar as palavras interrompidas.

– É sua presença quem ainda me traz alegria, minha adorada Taciatã!

Neste mesmo instante, a indígena lhe beijou. Lábios nos lábios. Língua na língua. Ardente. Bravia. Feroz. Os longos e lisos cabelos negros caíram sobre a face de Spiessen. Ainda assim, apesar do ardente enlace, os olhos dela mantinham-se escapando para a porta de madeira. A verdadeira razão desta sua ação.

A selvagem retirou o casaco que cobria o corpo do soldado. Colocou a mão na gola da camisa. Rasgou-lhe os botões. Os seus delicados dedos repousaram sobre o forte peitoral. A outra mão desceu-lhe o dorso musculoso. Continuou até abaixo da cintura. Um abraço, voraz, envolvente, apertou-se. As grossas pernas femininas cingiram-lhe a cintura. O seu ventre nu roçou no volumoso desejo, escondido nas calças do soldado. Este desejo se libertou.

O enlace conjugou-lhes. Unificou suas intimidades. Foi quando o soldado sentiu as unhas ríspidas, violentas, perfurarem superficialmente a tez de suas costas. E, com o passar de cada dedo da selvagem em seu dorso, veredas avermelhadas emergiram nas costas do homem. Um grito de dor misturou-se com o regozijo, estranhamente, arrancou-lhe mais prazer.

O soldado volveu-a de costas. Observava seu esguio dorso, revestido apenas dos longos cabelos, enquanto os pés e mãos da selvagem tocavam o solo. Ele seguiu com seu olhar até onde os negros fios revoavam de sua cabeça. O perfil da face selvagem, olhando-o pelos ombros, ao giro do pescoço, enlouqueceu o soldado. Os olhos se cruzaram. Enquanto era tocada no regaço, o forte olhar do soldado penetrou na pupila negra da selvagem. Penetrou em seu íntimo. Penetrou muito mais! Em muitos lugares e posições, a selvagem arrancou-lhe sensações. Deixou-o enlouquecido de prazer.

Horas de depois, um ganido selvagem, concertado por um macho e uma fêmea, ecoou pelas ruas de Olinda!


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