08 janeiro, 2018

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Por:
Paulo Expedito Rodarte de Abreu
Regional MINAS GERAIS
E-mail: peralavras@gmail.com









Hoje chove.  Há uma semana tem chovido de forma aguda. Sorriem quem ama a chuva. Descabela-se quem a detesta.

Na roça as águas que descem do alto são motivos de regozijo. Elas tintam de verde o entorno. Fazem crescer os pezinhos de milho nanicos. Engordam a vacada antes de costelas a mostra. Aumentam a produção de leite antes modesta. Em contrapartida alguns problemas são imputados à chuva ao desvario: enxurradas vertiginosas que levam o recente cascalho inserido ao morro agudo por onde sobe o caminhão leiteiro. O barro vermelho, a umidade em excesso desagrada às vacas baldeiras. E o estoico homem do campo, durante a chuvadonha que despenca subitamente não tem como sair de casa e ali fica, olhando pela janela de vidros quebrados toda a desilusão dos meninos da roça, que, na falta de transporte escolar ficam de castigo torcendo para que a chuva pare. Para no dia seguinte voltarem à escola.

Para Seu Zé, caboclo de mãos caludas e tez tostada pelo sol inclemente, a chuva que recomeçou depois de um período intermitente foi a salvação da lavoura. No dia quando o céu se desvestiu de sua roupagem azul, para vestir a roupa cinzenta, ele, de mãos postas ao alto, exclamou bendizendo a situação: “nem tudo está perdido”.

Há coisa de anos e anos a fio tenho tentado inserir cultura onde ela descansa. Publico livros e livros. Não da minha área especifica, a urologia. E sim contando causos, historinhas curtas chamadas de crônicas, outras fantasiosas, romances onde o mistério, o sexo, o suspense, penso que fazem os leitores não se desgrudarem do lido. Até hoje são contados mais de quinze deles. Com o que nasce em dois dias a conta sobe aos dezesseis. Caso fosse editar todas as crônicas escritas, quase impossível nomeá-las todas, são mais de dez mil, considerando-se que meu último livro de crônicas, Mugido de Vaca e Cheiro de Curral tem cento e oitenta e oito, escolhidas entre mais de mil textos, em uma pasta apenas, dividindo-se dez mil por cento e oitenta, quantos livros novos seriam escritos? Façam e refaçam a conta vocês. Pois, escritor contumaz que sou não me dou com números. Entre as palavras, letras, vírgulas e pontos finais sinto-me em casa. Como na casa onde durmo em paz.

De tempos pra aqui tenho feito pesquisa entre as pessoas com quem passo nas minhas caminhadas matutinas e vespertinas.

A elas indago: “vocês têm o costume de ler”? “E de escrever”?

As respostas variam. A maioria esmagadora diz não. Na academia onde passo horas e horas sagradas me exercitando, num dia qualquer, fiz a mesma pergunta a mais ou menos vinte pessoas. De físico apurado, pernas fortes, braços musculosos.

“Qual o seu tipo de leitura predileto”?

Uma linda moçoila respondeu, depois de retirar seu fonezinho de ouvido das duas orelhas: “leio o que me dão. De graça”. À resposta emendei outra: “e se você tivesse de escolher entre comprar uma peça de roupa da moda, e um livro meu, qual deles você compraria”? Ela voltou a inserir o fone de ouvido em altos decibéis na sua cavidade auricular e nem deu resposta.

A enquete, na academia, continuou. A grande parcela dos entrevistados disse não ser das suas predileções a leitura. Um ou outro afirmou que apenas lia livros técnicos. Os demais disseram que nunca leram um livro impresso. Apenas os Ubooks da vida. Mesmo assim os relativos a suas áreas de atuação.

Ontem ia subindo a rua, depois de finda a academia, a fim de fazer uma visitinha ao meu neto, quando me deparei com um rapaz esguio assentado ao meio fio.

Ele lia vorazmente um grosso compêndio. Parei junto a ele para conversar rapidamente.

Foi quando passei os olhos em qual livro ele lia. Era um livro enorme, em inglês. A versão mais nova de um livro de William Shakespeare no original. Hamlet ao rapazola fazia perder a noção de tempo e espaço. Tal era a atenção que o jovem ao livro dispensava.

Parei cerca de dois minutos esticando a prosa. O nome do rapaz era Fernando. Ele me confidenciou que amava literatura, em que idioma fosse escrita. Acabou citando mais de dez línguas.

Deixei-o entregue a sua leitura de Shakespeare. Hamlet o fazia quase parar de respirar.

Ao sair-lhe do campo de visão, estava próximo ao apartamento do Theo, foi que pensei, após quase dezesseis livros publicados, mais de dez mil crônicas escritas, a espera de um dia criar coragem e mandá-las a uma editora qualquer, que nem tudo está perdido. Uma luzinha tênue, quase um vagalumizinho anemiado, me dizia, com sua vozinha piscante: “doutor, não desista da sua arte. 

Mesmo que ela não lhe dê retorno. Não pare nunca de escrever”.



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