04 maio, 2017

INTRIGAS NA CASERNA

Por:
Walter Gomes Miranda Filho
Regional CEARÁ
E-mail: wgmirandafilho@gmail.com











Desde que chegara ao Batalhão, o Capitão Carioca se tornara uma pedra no sapato do Tenente Cearense, ou no coturno, para ser mais fiel ao tipo de calçado adotado naquela organização militar, sediada nos rincões da fronteira brasileira com a Bolívia.
            
Carioca era o típico militar de carreira, ingresso nas escolas preparatórias ainda adolescente e saído havia poucos anos da Academia. Seu sonho era atingir o generalato, façanha reservada aos poucos e afortunados oficiais sem manchas no currículo e que contassem ainda com uma boa dose de apadrinhamento nas esferas superiores – leia-se Brasília.

Já Cearense era apenas um R2, como são designados os oficiais temporários, em grande parte recém-formados da área de saúde, que se engajam às Forças Armadas para quitação do serviço militar obrigatório.

Ao contrário de Carioca, que pretendia permanecer por toda a vida naquele tipo de ambiente, Cearense ali estava apenas de passagem, embora de forma voluntária, pois havia sido dispensado definitivamente da obrigação aos 18 anos de idade por deficiência física. Ao concluir o curso de medicina, vislumbrara a oportunidade de dar o troco no “colega” que o chamara de quase cego no teste de acuidade visual e o considerara incapaz para o serviço militar.

Carioca respirava regulamentos e os citava de memória, seguido e salteado, sempre que queria exercer sua autoridade, a qual impunha aos subordinados com arrogância e pela força das estrelas que carregava literalmente nos ombros. Cearense era o doutor, como a ele se dirigiam superiores e subalternos, e aos poucos fora granjeando a simpatia de todos, pois a todos tratava com respeito além de curar-lhes as pequenas mazelas como bolhas, calos e unhas encravadas. Raramente aparecia um resfriado ou uma diarréia; todos gozavam de excelente saúde, afinal supunha-se serem verdadeiros guerreiros, a primeira linha de defesa da pátria amada...

Paulatinamente, Carioca foi desenvolvendo uma espécie de despeito em relação a Cearense, e não há coisa pior do que ciúme em homem, ainda mais capitão, ainda mais do Exército, a mais “militar” das Armas, ainda mais subcomandante, função a que Carioca fora guindado após a transferência do Capitão Pernambucano, o melhor amigo do Cearense até então.

A inveja nascia da admiração que Cearense despertava em todos, até pelo seu jeito cearense de ser: expansivo, brincalhão embora respeitoso e cumpridor rigoroso de suas obrigações. Como se não bastasse, ainda animava as rodas de samba com seu violão afinado e era o artilheiro do time de futebol do quartel, que disputava o campeonato local.
            
Tantos atributos faziam Carioca exercer marcação cerrada sobre Cearense, sempre à procura de algum senão em sua conduta, algo que pudesse enquadrar nos regulamentos para chamar-lhe a atenção ou mesmo puni-lo. Mas Cearense não dava “sopa na crista”, para usar o jargão corrente e como já se dera conta da perseguição, esmerava-se ainda mais, tanto no cumprimento das missões e seus prazos cada vez mais exíguos, como no corte rente do cabelo e do bigode ou  no polimento dos coturnos e da fivela de latão do cinto, que refletia, como um verdadeiro espelho, não só as imagens  diante de si, mas, metaforicamente, sua resposta eloqüente à rixa do Carioca.
          
Após alguns meses de silenciosa resistência, Cearense começou a perder a paciência com Carioca e passou a estudar uma maneira de desmoralizá-lo, sem evidentemente fornecer-lhe munição para uma punição. Observou que Carioca gostava de corrigir pequenos erros de português dos comandados, chegando mesmo a mandá-los “pagar” dez apoios de frente quando escutava qualquer pequeno deslize vernacular, embora ele próprio, o Carioca, vez ou outra escorregasse na sintaxe ou na prosódia.

Assim, decidido, Cearense ficou de prontidão para a primeira oportunidade e esta não tardou a se apresentar. Estavam todos reunidos no cassino, como se denomina o refeitório para oficiais, e no caso peculiar daquele batalhão de selva, também para subtenentes e sargentos. Num dado momento, Cearense se dirige ao Sargento Gaúcho e pede educadamente que lhe passe a manteiga, pronunciando o termo com o característico sotaque nordestino, sincopando o “i” e fechando o ditongo decrescente: “mantêga”. Carioca que há muito ansiava por um vacilo, não deixou por menos. Irrompeu em estrepitosa gargalhada, como que vibrando pela chance de repreender o Cearense em público: todo cearense é morta-fome, agora está comendo até os “is”; vai pagar dez... Cearense não se faz de rogado e com a presença de espírito do cabeça-chata rebate de pronto: para o Senhor ver o que é a convivência; de tanto lhe ouvir vomitar “is” em “naiscimento”, achei que não ia fazer falta...
            
Seguiu-se um silêncio torturante, em que todos, surpresos com a resposta categórica do Cearense, aguardavam o pior, talvez até uma voz de prisão por parte do Carioca. Este, boquiaberto, não conseguia se recuperar do inesperado revide e enquanto começava a gaguejar uma tentativa de retaliação foi interrompido pelo Coronel Mineiro, comandante do batalhão e admirador do Cearense, com quem costumava bater longos papos em inglês, para não perder a fluência: esquece, Carioca; deixa o Doutor em paz...
            
E, como no Exército manda quem pode e obedece quem tem juízo, Carioca teve que engolir a desfeita e a rotina voltou a dar as ordens na caserna.



            

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