25 agosto, 2017

ATIRARAM NO LORIVAL

Por:
Marcos Gimenes Salun
Regional SÃO PAULO





Dona Zulmira, vizinha de frente:
         "Olha, Deus que me perdoe o que eu vou dizer! Não tenho nada com a vida dos outros. Eu não sou de me meter, mas eu acho que essa tal de Dedé não é flor que se cheire, viu, doutor! É um entra e sai naquela casa, que... Olha! Vou te falar um negócio! Parece um nãoseiquê... Sábado passado mesmo, você viu né, Olavo? Sábado passado foi um movimento danado na casa da Dedé... E cada tipo mais esquisito, Deus que me perdoe! Eu não gosto muito de ficar falando essas coisas, porque senão o Doutor vai pensar que eu sou fofoqueira como umas e outras por aí... Eu não! Eu só falo do que eu vejo e do que eu tenho certeza! O resto não é da minha conta! O Olavo me conhece bem, não é, Olavo? Eu não vou fazer queném inchirida da Ca­tarina, do 32, que vive se metendo com a vida dos outros. Eu não! Então, doutor... Como eu estava falando, no sábado passado eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, uma zanzação de gente lá na porta da casa da Dedé, que dava até medo! Era carro que chegava, carro que saía, roncando os pneu, gente que entrava, gente que saía... E um barulhão, que só vendo! Sabe essas música americana, que ninguém en­tende nada? Então... no último volume, o senhor tinha que ver! Parecia um... Deus que me perdoe! Deixa pra lá, vai. Eu já disse que não gosto de ficar falando da vida dos outros. Então! Mas aí, né, quando foi lá pelas duas da madrugada... Já era mais que duas, né Olavo? Sabe como é, a gente deita cedo, mas fica a noite inteira acordada quando tem uma bagunça dessas, que não deixa a gente pregar os olhos... Pois é! Lá pelas duas da madrugada, ou um pouco mais, eu ouvi uma gritaria, um zumzumzum que dava até medo! Eu me assustei... Eu nem quis olhar pela janela, porque fiquei com medo. Chamei o Olavo, mas o Olavo parece que não liga quando eu falo! Ou não liga ou tá ficando surdo, porque com a bagunça que estava, e ele não me ouvir nada!... Só surdo mesmo pra não ouvir. Bom...Eu sei dizer que passei a noite inteira acordada. Mas eu não vi nada, não senhor. Se eu falar para o senhor que eu vi quem atirou, eu vou estar mentindo, e mentira comigo não tem vez! Desconfiar a gente desconfia, sabe como é, né, doutor.. Eu até acho que foi um cabeludo, que estava de calça rancheira desbotada e com um rasgo no joelho... Mas entre eu achar e ter sido ele mesmo... Eu não vi nada. Só o entra e sai, e assim mesmo até na hora em que eu fechei a janela e fui deitar. Depois só ouvi a barulheira que eu estou falando para o senhor. Não é, Olavo? Se eu tivesse visto, eu falava. Mas como não sou de ficar  conchetando como umas e outras por aí, que só abre a boca pra falar da vida dos outros... E depois, foi bem feito o que aconteceu! Isso é praquela cretina da Catarina não ficar se metendo com a vida dos outros..."

Binhoamigo da escola:
"Eu tava lá sim, ó. A Dedé convidou a galera toda, tá ligado? Tava o maior barato, doutor. Tinha que ver!  Altos sons, tá ligado? A Daysinha levou uma pá de CD importado que o velho dela trouxe dos Isteits, tá ligado? O velho dela vai pra América todo mês. Meu! Maior son­zão, cara... Putz! Pauleira mesmo! Mas não rolou nada lá não, sacou? Só tinha um whiscão e umas cerva que o pessoal fez vaquinha e comprou, tá ligado? A galera tava maneira porque a mãe da Dedé deixou tudo recomendado, sabe como é? Nada de sair pra umas diferentes, tá ligado? A gale­ra topou, senão não ia dar festa. E aí rolou tudo maneiro... Tinha uns caras que não era do pedaço, mas tudo gente boa. Convidado da Taninha e do Kiko. E se é convidado de alguém da galera, é gente nossa, tá ligado? E depois, essa de o pessoal aí estar dizendo que tava uma zoeria não tá com nada, tá sabendo? O som nem tava no último volume! Se puser o aparelho da Dedé no último... Meu!...Nem te falo, cara... Tava tudo muito maneiro, tá ligado? Só quando rolava um musicão que a galera curte mesmo de montão é que a gente aumen­tava um pouco... Depois, não! Tudo no comporta­mento, tá ligado.  Eu fiquei curtindo um som o tempo todo. Não sei quem atirou, não senhor. Acho que não foi ninguém da galera, tá ligado? O pessoal só curte uma... Não é de fazer esse tipo de zueira não, tá ligado? Pô! Maior roubada, meu! Só fiquei sabendo o que tinha rolado no dia seguinte, quando a Dedé falou. Aí eu fiquei injuriado, ó!  Agora, o senhor vê aí... Eu tava lá, mas não fiz nada! O senhor que vê aí, tá ligado?"

 Olegário, tio de Dedé e vizinho do lado direito:
"Eu não me incomodo que os meninos fiquem até as tantas se divertindo. Já estou acostumado. Eu gosto muito da juventude. Já fui de fazer minhas farras, quando era mais moço. Hoje em dia, não! Mas nos bons tempos... O que mudou foi o ritmo, os aparelhos de som mais potentes... No meu tempo se dançava muito bolero, daqueles de dançar de rostinho colado, o senhor co­nhece... Perfumes de Gardênia... Tinha samba-can­ção... Quando começava um samba-canção, não tinha par que ficava sentado... Depois que eu conheci a patroa, a gente ia junto nos bailes. Até casar. Mas de­pois que nós casamos, não saímos muito mais... Só de vez em quando... E depois tem outra: o senhor acha que ficava bem eu impli­car com a garotada, com minha sobrinha? Deixa eles que se divirtam, enquanto são jovens... Depois que começa a responsabilidade, os coitados não vão ter mais tempo pra isso... E depois, a Dedé é uma menina boa, estudiosa... Merece se divertir... A mãe dela, minha irmã Ana, pediu pra que eu tomasse conta da meninada, desse uma olhada de vez em quando... Mas eu não ia ficar lá no meio deles o tempo todo, né, doutor! Não tinha nem cabimento, numa festa da juventude, eu lá metido... Eu não vi quem atirou. E nem podia ver, se não fiquei lá o tempo todo. Mas tenho quase cer­teza que não foi nenhum dos amigos da Dedé. Eu acho que alguém fez essa safadeza para por a culpa nos meninos, só por causa do barulho. Eu acho que quem fez isso é alguém que não aproveitou a juven­tude, o senhor não acha, doutor?"

Dedé:
"A gente só tava comemorando. A Jujuba entrou em odonto na USP. Não é pra comemorar? O Tio Olegá­rio viu que não tinha nada de mais. Foi minha mãe mesmo quem pediu pra ele olhar. O senhor acha que a gente ia ficar zuando na minha própria casa?  E de­pois, atirar logo no pobre do Lorival, que nunca fez mal pra ninguém! Sem essa! Eu até já falei com a Dona Catarina, que me conhece, conhece minha mãe e conhece o meu pai... Mas ela está tão revoltada com o que aconteceu com o Lorival, que não quis nem saber de conversa. Disse que era pra eu me entender com o delegado. E eu juro para o senhor, doutor, por tudo quanto é sagrado: jamais eu ia fazer ou admitir que alguém fizesse isso com o pobre do Lorival. Foi pura coincidência atirarem nele justo no dia da festa lá de casa. Mas não foi ninguém de lá não senhor. Isso eu juro por tudo quanto é sagrado. Se o senhor quiser me responsabilizar pelo barulho do sábado passado, eu até assumo, apesar de não achar que estava isso tudo... Meu pai já me comeu a alma... Minha mãe já me falou um monte... Ainda mais quando a Dona Catarina veio tomar satisfação por causa do Lorival. Quem atirou no Lorival deve ter sido alguém sem alma... Acha? Fazer isso com a pobre criatura, que não incomoda ninguém..."

Olavo, marido de Dona Zulmira:
"O Doutor Delegado vai me desculpar, mas não tenho muito a dizer. Só sei que teve uma festa na casa da frente, e que acabou tarde. Não sei quem foi ou quem deixou de ir, porque isso não é da minha conta. Tam­bém não vi quem atirou ou quem deixou de atirar. Não conheço nenhum Lorival... A minha mulher é que fica mais em casa e sabe mais coisas da vizinhança. No sábado dessa festa, eu me deitei cedo e dormi. Não vi nada..."

Ana, mãe de Dedé:
"Eu bem que avisei a Dedé que não queria bagunça lá em casa. Ainda mais bem no dia em que eu e o pai dela não íamos estar em casa. Fomos no jantar anual da firma em que o meu marido trabalha... Mas ela insistiu tanto, pobrezinha! Disse que só iam comemorar porque a Jujuba tinha entrado na faculdade. E eu só concordei quando o meu irmão Olegário disse que vigiava, que eu podia sair tranqüila. E agora, veja o senhor, que vergonha... Ter que vir até aqui na delegacia dar explicação. Também, a Dona Catarina precisava ter dado queixa? Atiraram no Lorival, sim, mas... E daí? Se o senhor quer saber, não é a primeira vez que atiram no Lorival. No mês passado, aconteceu a mesma coisa, e a Dona Cata­rina não veio dar queixa... Desta vez, só porque tinha uma festinha dos meninos lá em casa, ela já achou que foi um deles... E da outra vez? Quem atirou no Lorival da outra vez? Também aconteceu numa noite de sábado, e não tinha ninguém na minha casa! Isso é que me deixa indignada com a Dona Catarina. Ela devia ter prova primeiro, antes de acusar os outros... Olha a confusão que fica agora: todo mundo tendo que vir aqui dar explicação... E, de mais a mais, lá em casa não tem criança de fralda... E na festa da Dedé tam­bém não tinha, pois isso eu  já averigüei direitinho..."

O Doutor Delegado:
"Da outra vez que atiraram no Lorival, foi com a mesma, digamos, com a mesma arma? Sei, sei...Está bem! É só!"

Dona Catarina, a do Lorival:
"Está bem, doutor. Eu retiro a queixa contra a família da Ana, vou pedir desculpas pra ela, pra Dedé, pra todo mundo... E caso encerrado... A menina dela foi falar comigo no dia seguinte, mas eu estava tão ner­vosa com o que aconteceu com o meu Lorival, que não quis nem saber. Acho que fui um pouco precipi­tada em ter vindo dar queixa. As duas vezes acerta­ram em cheio o coitado do Lorival. Se o senhor sou­besse a catinga que ficou... O pobrezinho tava todo melecado e arrepiado. Tive que dar banho nele com a loção de barba do meu marido, e ainda assim não saiu o cheiro. Ainda hoje, se o senhor for lá em casa, vai ver o coitadinho como ficou... Agora que o senhor tá me falando que quem atirou foi o filhinho do casal que mora no quarto andar do prédio ao lado, eu não sei nem o que dizer... Eu só acho que os pais deveriam prestar mais atenção na criança... Deixar o menino ficar atirando cocô pela janela... Onde é que já se viu? Quantos anos tem esse menino, doutor? ...Três? Quatro?... Que coisa! Mas, doutor, me diga o senhor que é mais experiente nessas coisas de investigação: será que não foi o pai ou a mãe do menino quem atirou o cocô do menino pela janela? Pra acertar bem na cabeça do meu papagaio!... Acha que o menino ia ter uma pontaria dessas? Olha, não sei não, heim doutor! Não é melhor o senhor investigar mais um pouco, doutor?


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