10 maio, 2017

KABURÁ

Por:
Arquimedes Viegas Vale
Regional MARANHÃO
Email: arquivale@uol.com.br














Olhando para suas mamas, já ressequidas e imprestáveis, Kaburá decidiu que já era hora de morrer. Havia completado 160 anos e perdido o seu último jogo. Além do mais, a rocha em que os marcava já estava cheia. Naquela perdida restinga do universo, ao nascer, cada um ganhava uma pedra para marcar a sua idade, o que faziam no aniversário com dois traços curtos paralelos horizontais cruzando-se com dois verticais, formando o “jogo da velha”.  Antes dos 12 anos, quando assumiam a obrigação, estes litoglifos eram feitos pela aldeã mais velha.
            
O jogo era solitário e o resultado íntimo. Cada mão escolhia um sinal e se tornavam competidoras. Ao final a ganhadora se punha na consciência e uma longa reflexão julgava a sua importância pessoal de viver ou a importância coletiva de morrer.
            
Do tempo e espaço que se dissipavam nas sombras da existência, restavam fragmentos irregulares de um povo brotado dos paredões onde a natureza guardava a sua memória. Permaneciam ali porque a balsa que os atravessaria para a outra margem do lago, na qual estavam plantando pedras achatadas circulares para a germinação de ideias, raciocínio, habilidades e conhecimento,  naufragou e o seu comandante preferiu morrer no fundo das águas e ele era o único que sabia fazer balsas de junco e o único que conhecia o rumo da navegação pois recebera  mapas e projetos feitos nas nuvens, de homens com grandes asas douradas que vieram do espaço ignoto numa tempestade com trovões  e relâmpagos.
            
Viver era livre e morrer era escolha. Assim, Kaburá sentia da decadência do seu povo um cheiro sinistro de extinção, como tinham se extinguido quase todos os animais e muitas plantas frutíferas, única reserva de subsistência. Os poucos animais que ainda sobreviviam estavam degenerados, deformados e com partes do corpo apodrecida. Nasceram de aglomerados genéticos impróprios, por espécies diferentes, fora das leis naturais e desequilíbrio ambiental, originando monstruosas criaturas inominadas. O lago, que margeava as proximidades, escasso em produção, tinha apenas peixes disformes, com ossos expostos e carne enrijecida inutilizável e estes, por final, penetravam em blocos de lama que ao se tornarem pedra carregavam a sua silhueta para a eternidade.   Pela pobreza do solo petrificado, as sementes necessitavam de nutrientes humanos para germinar.
            
As brumas da madrugada se dissipavam na palidez dos primeiros raios do sol, que vinha diminuindo a cada manhã, quando Kaburá respirou as suas últimas doses de oxigênio puríssimo, filtrado pelos fungos do teto da caverna e penetrou no mato para iniciar o seu ritual. Começou a juntar sementes de frutas, e fez um monte que lhe chegou à altura do sexo. Aí sim, passou a engoli-las começando pelas maiores, uma a uma, pacientemente, até que as últimas, mesmo sendo as menores, chegassem a entupir a sua garganta. Foi-se toda a coleta a encher-lhe o canal digestório que deveria ser fechado na entrada e na saída. Pesada e pesarosa arrastou-se como um réptil agonizante até ao lago para pegar a lama e executar esse hermetismo. Sentou-se na pedra mais alta e pôs-se à paciência para que se cumprisse o processo de transferência da existência.
            
Prendia-se a tradição à digestão das sementes em ambiente orgânico pela esterilidade da superfície do solo e como não existiam mais animais que as espalhassem tinha que ser feita por humanos em processo de decomposição viva que, para maior eficiência da semeadura, explodiam jogando as sementes germinadas em área muito mais extensa.
            
Pela intuição temporal, mesmo sem marcação astrológica, Kaburá achou que já estava além do necessário. Precisava fragmentar-se para quitar a sua dívida de jogo,  contribuindo com novas plantas frutíferas nascendo e cedendo seus ossos para ruminação das férreas mandíbulas  dos monstrengos vertebrados aquáticos que dominavam o lago.
            
Sua pele começou a engrossar, cozinhar no vapor das madrugadas e cair aos pedaços, que ficavam aos seus pés, sem ao menos uma formiga para degradá-los. Os seus braços estavam delindo, puxados para o chão, numa consistência gelatinosa, dobrando-se como uma fita ao vento. A boca crescia e a lama que a ocluía, já petrificada, trincou com estalos agudos e se esfarelou, caindo junto com as últimas sementes engolidas e não germinadas.
            
Suas orelhas cresciam como grandes folhas de taioba e antes que caíssem pode ouvir sons desconhecidos e assustadoramente fortes para aquele mundo onde o silencio só se quebrava com pedras.
            
A dor não fazia parte deste passamento optativo e necessário, mas Kaburá começou a senti-la. A princípio não sabia de onde vinha mas apalpou-se.com os seus rudes sentidos e percebeu que vinha dos olhos que cresciam, cresciam e já estavam do tamanho das bolas de pedra deixadas pelos homens de asas douradas.
            
Descerrou as pesadas pálpebras e seus grandes olhos puderam ver muito longe. A outra margem do lago, onde foi plantada a civilização. Num último esforço, Kaburá, libertou a idade que estava presa na sua pedra e deitou-se ao solo já na forma de um monólito.






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