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26 outubro, 2017

ESTRESSE: SILENCIOSO E FATAL

Por:
Manoel Tenório de Albuquerque Lins Neto
Regional ALAGOAS









Sempre que tenho oportunidade de falar sobre o assunto, quer na mídia, quer em conferências, afirmo de forma contundente que ESTRESSE MATA. As pessoas que me assistem sempre ficam assustadas, e, numa tentativa de buscar tranquilidade, desenvolvem o seguinte raciocínio: "Fulano é calmo e por isso não vai ser pego pelo stress" - Sic.

Esse é um grande erro, e aproveito a oportunidade deste artigo, para desfazê-lo esclarecendo ao leitor. O que é o estresse? É uma resposta fisiológica a qualquer pressão identificada pelo organismo como ameaça: pressão do mundo externo e ou pressão do mundo interno. Esta resposta, que é o estresse, demanda no organismo, reações em quatro fases:

Fase de Alerta - Quando há a identificação do perigo e a motivação para enfrentá-lo (e a chamada fase positiva do estresse).

Fase de Resistência Transitória - É uma adaptação da fase de alerta.

Fase de Resistência Duradoura - É quando o organismo usa os estoques celulares de nutrientes (vitaminas, minerais, aminoácidos / neurotransmissores ), para formação dos defensores orgânicos, havendo aumento reversível do colesterol sanguíneo, da pressão arterial, da produção de radicais livres etc.

Fase de exaustão - Quando pela permanência do elemento pressor, o estresse como reação fisiológica, perpetua-se esgotando os estoques de nutrientes acontecendo desequilíbrios bioquímicos ou fisiológicos ou emocionais ou os três a saber:

Desequilíbrios bioquímicos - hipercolesterolemias, hipoglicemias, hiperglicemias reativas
etc.

Desequilíbrios fisiológicos - hipertensões arteriais essenciais, hipercloridrias, gastrites, colites etc.

Desequilíbrios emocionais - ansiedades, depressões, insônias, pânicos, cansaços ao acordar, desinteresses sexuais, distúrbios de memórias etc.

Pelas reações enunciadas e descritas, pode o leitor, perfeitamente, compreender que em um indivíduo estressado, e na FASE DE EXAUSTAO, o organismo poderá estar apresentando desequilíbrios bioquímicos e ou fisiológicos sem que, necessariamente, alterações emocionais estejam presentes, tornando-se mais traiçoeira ainda a ação silenciosa do estresse.

E há o que fazer? - poderia perguntar o leitor.

É claro que sim, pois a moderna medicina preventiva dispõe de uma quantidade de exames capazes de detectar, objetivamente, se esta condição maléfica do estresse está ocorrendo no organismo, independentemente da existência ou não de sintomas, e, a partir desses achados, estabelecer a estratégica terapêutica adequada capaz de dominar e vencer esse inimigo silencioso.


07 outubro, 2017

O SOFRIMENTO

Por:
Milton Hênio Netto de Gouveia
Regional ALAGOAS










O problema do sofrimento, sempre move profundamente o ser humano especialmente a dor de pessoas dignas e inocentes, aí, então, abala e desconserta ainda mais.

Li, recentemente, um livro intitulado "Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas". O autor é um rabino, o Dr. Harold Kusnher, que passou pelo grande sofrimento de, ao lado da esposa, após muitos anos de espera, assistir ao nascimento de seu filhinho portador de uma doença rara, aprogéria, ou seja, doença caracterizada por uma velhice precoce. A vida nos mostra um desfilar imenso de casos semelhantes relacionados com outras doenças, como leucemia, câncer no cérebro, paralisia cerebral, em crianças que são, muitas vezes, filhos únicos. O fato é que em todos esses casos de sofrimento motivado por vários fatos os pais, no desespero, sempre perguntam: "Por que Deus fez isso comigo?" 0 rabino, autor do livro, também fez, depois de muita reflexão, essa mesma pergunta a própria esposa. E ele mesmo responde: "Estou convencido de que Deus não quis o meu sofrimento nem da minha esposa. Prefiro dizer que continuo acreditando na justiça e na grande onipotência de Deus. E continua. "Não é Deus que causa a tragédia, a doença e o sofrimento; acredito que existe uma "aleatoriedade" no Universo e a natureza é moralmente cega. Um terremoto não distingue entre pessoas boas e ruins. Nem o câncer. Nem o derrame cerebral. Nem a progéria. Não aos atos de Deus, e, sim, acesso da natureza.

Para isentar Deus da responsabilidade do mal, o autor defende a tese de que o homem, ao habitar esta terra, tem a liberdade de escolher entre o bem e o mal, o trabalho que quer exercer, o local onde deve morar, e todos esses fatos estão relacionados sempre com o acaso, que vai moldando ou induzindo atitudes e ações que podem causar bem-estar ou danos ao organismo.

Acontece que Deus, tendo dotado as criaturas de natureza e leis próprias, permite que elas ajam de acordo com a sua índole característica: os irracionais, agem de maneira instintiva, os racionais como o homem, de maneira livre. Deus não quis fazer um mundo de "marionetes", policiados, previamente, de sorte que tudo ocorresse segundo uma "harmonia" preestabelecida. Ele preferiu deixar a espontaneidade de ação às criaturas.

O sofrimento, segundo os teólogos, nos aproxima de Deus e nos dá coragem para enfrentar os obstáculos. Através da oração, de um diálogo afetivo com o Cristo, as pessoas em sofrimento descobrem que têm mais força e mais coragem do que jamais pensaram em ter.

São inúmeros os santos que conquistaram a amizade do Cristo, não porque foram predestinados, mas pelo esforço e a coragem sempre presente em suas vidas de vencer os obstáculos e o preconceito da época.

Deus é mistério. Santo Thomas de Aquino estudou exaustivamente as causas do sofrimento humano e não encontrou explicações suficientes. Jô foi o primeiro a ser testado por Deus diante do sofrimento. A onipotência de Deus não obedece a planos de projeções humanas, mas a planos de sabedorias e amor que ultrapassam as possibilidades meramente humanas.

Nesta passagem pela terra, cheia de alegrias e tristezas, o homem encontra mais obstáculos do que prazer. Se ele não tiver uma força interior, um grau de espiritualidade suficiente que possa abrir caminhos e ajudá-lo a enfrentar as dificuldades, ele baqueia. Quando o sofrimento bater-lhe a porta solicite ajuda. Foi o próprio Cristo que se prontificou a nos atender: "Pedi e recebereis".


"Estou com você todos os dias. Nunca desespere".


28 setembro, 2017

FRATRICÍDIO EM CARAHYBAS

Por:
Agatângelo Vasconcelos
Regional ALAGOAS













Os fratricídios do Sítio Carahybas causaram justificados horror e perplexidade. A sociedade provinciana, logo no segundo ano do novo século (1902), que se esperava de progresso científico e de universal compreensão entre os homens, via-se ameaçada em sua base, a família, pela brutalidade e pela inexplicabilidade do tenebroso acontecimento. Vivia o Brasil a denominada "República Velha" sob a presidência de Campos Sales, e em Alagoas, a "oligarquia Malta" era prestigiada pelo Governo Federal por sua política de apoio as oligarquias regionais, conhecidas como "política dos governadores". O catolicismo romano estava sob a égide da encíclica papal "Rerum Novarum", promulgada por Leão XIII em 1891; houvera o massacre genocida de Canudos (1897), e o Juazeiro do Norte estava sob grande efervescência política e religiosa.

A República (1889) trouxera a inflação, instituíra o casamento civil e separara a Igreja do Estado. A família era alcançada, pois, por pressões e por mudanças sociais importantes, as quais certamente atingiram-na em sua estrutura dinâmico-social.

Qual teria sido, interrogava-se, a "... causa que levou essas duas infelizes mocinhas a prática de atos de verdadeira selvageria, que alarmaram a sociedade? " A imprensa, emergente porta-voz do estarrecido meio-social, tornava públicos os delitos, questionava-os e exigia o seu esclarecimento, dentro de um padrão científico e legal. O drama daquela família agrestina, humilde e desconhecida, no seio da qual simplórias adolescentes praticaram crimes tão bárbaros e irrazoáveis que as fizeram derramar, no seio da própria família, o luto a dor e a desolação, tornando-as para sempre desgraçadas..." sensibilizou ao bacharel em Direito, Dr. Euclydes Vieira Malta, chefe da clã que então detinha o Poder Público em Alagoas. Homem de formação humanística, este Governador ocupou-se pessoalmente do assunto, já que na época sobravam tempo e sensibilidade aos Chefes de Estado para levá-los a este tipo de envolvimento. Por esta razão, o próprio Governador assistiu a um ligeiro exame medico a que foram submetidas ambas as acusadas e, inclusive, fez-lhes algumas perguntas. Daí julgou conveniente designar uma comissão de médicos para elaboração de um documento pericial acerca do caso, ou mais especialmente, sobre o estado mental das irmãs fratricidas. Outro, aliás, não era o desejo formulado pela imprensa, que por seus principais órgãos apontava o mesmo caminho e exigia um trabalho de alta qualidade, como já foi visto. Todo o absurdo da situação estava a exigir uma explicação científica, vale dizer, aceitável pela sociedade: só assim poder-se-ia compreender e posteriormente assimilar tão hediondo acontecimento ameaçador da integridade da família e, por extensão, do "status quo" vigente. E só a loucura, isto é, a não razão, poderia justificar ameaça assim radical ao "stablishment". Mobilizaram-se, pois, a imprensa, o Poder Público e o Saber Cientifico. Este último representado pela Medicina Legal e caudatário do anterior. E que pelo cientificismo dominante nas elites culturais, caberia ao discurso psiquiátrico lançar luzes sobre a questão. Desejamos expressar que o manifesto humanitarista das instituições, ocultava a existência latente e preponderante de urna imperiosa necessidade de serem contemporizadas as forças em jogo e de se apaziguar o meio social. E que isto se processou através do Saber Científico, via discurso psiquiátrico e diagnostico médico-legal. Um sofisma social que poderia ser expresso da seguinte maneira: se tudo houvesse acontecido em decorrência de uma doença mental cientificamente definida, essa patologia, conteúdo e continente dos escabrosos fatos, encerraria a questão por explicá-la e justificá-la racionalmente.

Estaria a salvo a família, célula mater da sociedade: somente a loucura mais extrema levaria ao fratricídio mais incompreensível e gratuito.

As instituições sociais cumpriram o seu papel. As instituições estavam apaziguadas.

Vale ressaltar que embora não fosse essa uma atribuição do documento médico-legal em apreciação, em momento algum os seus autores mencionaram qualquer preocupação terapêutica em relação a Antônia, considerada como portadora de afecção mental, ou alguma forma educativa ou reeducativa em referência a Rosa. Já Euclydes Malta, em sua mensagem acima citada, lamenta nada poder fazer pelas acusadas: "Deploro não possuirmos uma casa ou estabelecimento, onde pudessem ser convenientemente observados e tratados indivíduos em tais condições, e mesmo educados no caso de lhes voltar a integridade da razão. Estivessem em melhor pé as nossas finanças e eu não teria dúvida em vos pedir meios, para que se fundasse mais esta pia Instituição”.

Fica evidente que tal "humanística preocupação" tinha como linha mestra, custodiar as menores em uma nova Instituição pia, isto quer dizer, segregá-las, afastando-as do meio social e familiar onde viviam, no sentido de protegê-las a qualquer custo.


Que bom para Antônia e Rosa que as finanças do Estado de Alagoas, já àquela época, estivessem tão combalidas!


18 setembro, 2017

O DOCE DA VIDA

Por:
Ana Paula Fernandes Barbosa
Regional ALAGOAS
Email: npdc@uol.com.br










Filhos! São a razão de viver,
Melhor presente de Deus.
A grande explosão do amor.
Filhos tornam a vida mais doce,
o dia mais lindo,
A noite mais prateada.
Filhos! Podem ser grandes ou pequenos,
Meninos ou meninas...
... serão bebês para sempre
nos corações dos pais apaixonados.
Filhos alegram,
Filhos encantam,
Filhos animam,
Filhos acompanham...

As emoções que os filhos causam aos pais
são as vibrações de maior e melhor representação do sopro do viver.

Ah! Filhos... Meus Filhos!
O doce mais doce da minha vida!







03 junho, 2017

MEDO MATA?

Por:
Paulino Vergetti Neto
Regional ALAGOAS
Email: conepaki@uol.com.br













Morávamos em uma casinha bem simples. Uma casinha de taipa, até grande. Possuía seis quartos. Morávamos os três: papai, mamãe e eu, o filho caçula de uma leva de onze. Mamãe era parideira, mais parecia com uma preá. Os outros viviam para as bandas de São Paulo. Todos bem, casados e com seus empregos. Sempre fui apegado ao sertão, tanto, que preferi permanecer com os velhos na mesma casinha aonde havia nascido há dezoito anos. Cacimbinhas situava-se no começo do sertão alagoano. Quente, seco, mas uma terra onde ninguém morria de fome. Dividíamos o pouco que tínhamos, e, quando faltava a mistura, não faltava os preás das palmas nem as codornas, nem as perdizes.

Bum, houve um estrondo! Ouvi-o sem muita certeza do que se tratava. Um tiro? O barulho tornou-se maior porque aconteceu dentro de casa, na saleta, onde pai gostava de dormir à noite, por causa do calor infernal que fazia quando íamos para o quarto. Estirava-se no chão, sobre uma esteira de Peri-Peri e punha-se a roncar até o dia raiar. Antes mesmo, no escuro, já estava chamando o gado para "desleitar" as vacas paridas. Uma vida bem campesina, a nossa, cheia do telúrico e do saudoso. O resto da família estava longe de nós...

Pensei que fosse o estouro de uma bomba daquelas que se usava nos festejos juninos. Papai tinha ido caçar perdiz na fazenda do velho Manfredo. Uma atividade combatida pelo fazendeiro a ferro e fogo.  Trouxe no bornal seis perdizes. Em tempos de seca, isso representava um banquete. Ele mesmo as despenou e tratou. Sabia bem esse ofício. Caçador inveterado. Mas quem temperava era mamãe. Nisso ele fora vencido por ela. Amanhã, domingo, coincidia com seu aniversário. Não havia ido caçar à toa. A garrafa de Cachaça de Cabeça já estava reservada. Encomendara a seu Herculano há uns dois meses. Nunca vi papai embriagado. Nem tampouco permitir que ninguém se embriagasse lá em casa, nem na fazenda.

A casa estava escura. Sentia-se um fedor de pólvora queimada. Meu candeeiro tremeluzia, quase apagando, trepado na parede do meu quarto. Gritei pra mãe e ela não respondeu. Não sei onde, mais achei coragem e me levantei. Lá se ia um medroso e uma luz imprestável, a passos lentos, na direção do outro quarto. Quando alcancei o destino, vi-a sentada na cama passando a mão na cara, sem saber direito o que havia acontecido. Estava tonta. Seu candeeiro ainda estava forte. Subia um tufo de fumaça que ardia a venta da gente. Troquei o meu por ele e saímos os dois até a sala para encontrar o corpo de pai. Não bastasse aquela escuridão toda do tempo, meu olhos começaram a se encher de lágrimas e mais turva ainda ficavam as imagens da casa. Olhei para o terreiro, por cima da janela, e vi que o dia queria nascer. O horizonte estava arroxeado e já se ouvia os pássaros cantando. Senti um ventinho morno entrando em casa. 

Quem primeiro viu o corpo estirado e com a cabeça coberta fui eu. A parede estava toda esburacada e a espingarda no chão. Óxente, pai deitado e a espingarda no chão? Que diacho de crime foi esse? Perguntei de mim para mim mesmo. Notei que a cena que vira estava estranha, mal desenhada, incomum. Me agachei e virei o corpo de pai. Trazia na face dois boticões de olhos que dava medo. Estava vivo e fedendo a merda. Poxa vida, agora que percebi que o que havia acontecido fora um disparo acidental da soca-soca de pai e a vítima tinha sido a parede. 

- Mas pai, o senhor se borrou de medo? Que homem é o senhor?

- Respeita teu pai, menino, vai se deitar e me deixa aqui com ele. Eu resolvo isso já!

Obedeci-o. Mãe, uma mulher bonita, sertaneja com cara de índia, decidida, corajosa. Não conhecia o medo. Do quarto ouvi quando pai deu um grito e saltou em pé no canto da sala, justamente na parede que dividia com meu quarto. Ouvi mãe chamá-lo de cabra frouxo e dá-lhe uns solavancos. Pus o lençol na boca para não soltar uma gargalhada e depois nada mais vi da confusão. 


O dia amanheceu, ele lavou-se e foi ao curral fazer a ordenha das leiteiras e mãe foi pôr lenha no fogão e tacar fogo. Atrelei os bois de carro e fui buscar a água do dia para lavar as coisas de casa. Tinha que andar uns seis quilômetros até chegar no poço de água doce, uns dos poucos na região. Quando retornei, de fora senti o cheiro das perdizes sendo fritadas, o leite no fogo quase fervendo e pai acocorado do lado de fora de casa, sob uma das biqueiras, fumando seu cachimbo fedorento. Nem olhei. Ele sabia que estava com a cara olhando para o outro lado para que não visse meu sorriso. Quando fui passando com os bois pelo terreiro, ouvi quando disse: 

- Agora você vá dá com a língua nos dentes e contar o que houve aqui, viu? Dou-lhe uma surra daquelas. 

Daquelas que sempre jurou e que nunca deu. Não teve jeito, soltei os boi e a gargalhada e corri para o mato perto de casa. Terminou por sorrir comigo, ele e mãe. A cachaçada aconteceu e o assunto foi pai. Mãe contou tudo, tim-tim por tim-tim. Mãe era o homem da casa!


08 maio, 2017

RETORNO PARA A AREIA

Por:
Laurijane Pantaleão Alencar
Regional ALAGOAS
Email: lauripantaleao@hotmail.com










Viajar é um dos maiores prazeres que temos, diversão garantida, um crescimento cultural e tudo de bom, nem preciso dizer. Mas há também o lado feliz de voltar pra casa. Um dia, escutando uma música do Roberto Carlos "Debaixo dos Caracóis dos seus cabelos", uma música antiquíssima, de uma época em que muitos de nós nem existia (mas as músicas do Roberto resistem ao tempo), reparei que essa música evocava pra mim as voltas pra casa depois de viagens. 

 " Um dia a areia branca / seus pés irão tocar / e vai molhar seus cabelos / a água azul do mar" e " Um dia vou ver você / chegando em um sorriso / pisando a areia branca / que é seu paraíso" são trechos que pra mim tem tudo a ver com voltar pra casa porque meu retorno é para a areia branca e a água azul do mar que eu conheço desde o nascimento. Maceió é meu paraíso. 

 O trecho "As luzes e o colorido / que você vê agora" me lembra que nos voos noturnos, voltando pra casa, eu olhava pela janela do avião e ficava feliz quando via lá embaixo as luzes de Maceió. Esse momento era um dos pontos altos de cada viagem. "Janelas e portas vão se abrir / pra ver você chegar" lembra as portas automáticas do aeroporto, quando se abrem pra dar passagem a alguém que chegou. E enfim, "Você só deseja agora / voltar pra sua gente." 

Sim, eu desejava principalmente voltar para a minha gente.

21 abril, 2017

SOBRE A AGROPECUÁRIA ALAGOANA

Por:
José Geraldo Vergetti de Siqueira
Regional ALAGOAS












Maceió, 28 de Outubro de 2013

Conheci José Ricardo há pelo menos meio século. Mantivemos sempre uma excelente relação de respeito e admiração. Comerciante cativante e um pródigo homem de negócios. As vezes imagino que não existe nenhuma casa, prédio, hospital que não possua um registro da Cristal Vidros. Marca registrada do comércio na sua especialidade. Nossas famílias sempre foram interligadas pela alegria natural da juventude e continuam na admiração recíproca, e especialmente pela vocação cristã que adornam seus profundos sentimentos religiosos.

Fiz visitas cordiais ao Ricardo em seu escritório na Cristal Vidros.  Ao cumprimentar-me levava o interfone ao ouvido e solicitava um café capuccino para eu degustar. Os assuntos mais diversos tinham a colaboração pedagógica da prática de vida e assim decorríamos sobre tudo, inclusive sobre agropecuária cujo conhecimento era do seu domínio. Exemplo de agropecuarista e produtor que transformou o campo em jardins e ornamentou parte da rodovia em preciosas flores.

Não era filho de União dos Palmares. Adotou a cidade e foi lá que viveu seus mais encantadores sentimentos da existência humana. Conviveu com a cultura cabocla. Absorveu a religiosidade do povo e fez peregrinação ao Juazeiro do Norte conduzido pela fé e robustecido pela espiritualidade concentrada naqueles momentos.

Fomos vizinhos no famoso e histórico vale do Sueca. Enfrentamos péssimas estradas de barro vermelho. Ele com a fazenda São Geraldo com baixadas repletas de Braquiárias (tender-glass) e eu na fazenda Sueca. Diversas vezes Ricardo com seus familiares foram visitados. Adorava saborear um sarapatel com uma cerveja gelada.

Nossa produção de bezerro nelore só tinha um destino: Fazenda São Geraldo. Além de negociar meus animais, restava-me vê-lo semanalmente na beira da estrada em regime de crescimento e engorda.

E agora José? Quantos fornecedores de bezerros, Emílio Maia, irmãos Barros Correia, Vinícius Cansanção, Jaime Vergetti, dentre tantos outros numa irmandade negocial onde não era só o negócio que funcionava e sim um sentimento inter humano que prevalecia a cordialidade que era irmã gêmea da confiança.

Será que o desaparecimento do nosso exemplar agropecuarista não irá ter repercussões nos negócios da pecuária alagoana?

Em verdade todos nós ficamos desconsolados com a ausência do Ricardo. Resta-me reforçar com toda família o grau de amizade que alimentamos por todos esses anos e em meu nome, e dos meus irmãos Lindolfo, George, Afrânio, Zé Vergetti e Jaime e Memé e de Aleir e meus filhos Luzirene, Jaqueline, Vega e Geraldinho e dos meus genros Fábio e Junior, nossas divinas e sacrossantas orações.



28 fevereiro, 2017

AS FOGUEIRAS AINDA ARDEM

Por:
José Medeiros
Regional ALAGOAS
In memoriam













Muitas comemorações em torno da fogueira, alegria, muita cachaça e outras águas mais ou menos ardentes; de repente, num ímpeto irresistível, ela – uma bela jovem – jogou na fogueira pistolões, busca-pés e bombas que trazia nas mãos. Labaredas gigantescas surgiram da fogueira e atingiram seu rosto, braços e tórax. Dores lancinantes, gritos agudos. Foi levada às pressas ao Hospital de Pronto Socorro com graves queimaduras; sua vida corria perigo.

Fui procurado pela família da paciente, pois ela havia sido minha cliente em tempos passados. Insistia em ver-me. Impressionei-me com o aspecto das lesões. A família desejava saber se era necessária sua transferência para outro hospital. Desaconselhei a remoção; tudo o que se podia fazer estava sendo feito. Lembrei-me de sua vaidade e beleza. Formara-se em Psicologia, mas não exercia a profissão; tornou-se gerente de uma grande empresa. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas vinha alterando seu comportamento. Agora, no leito do hospital, culpava-se pelo acidente provocado, preocupada com as conseqüências de seu gesto de irresponsável arrebatamento.

Dúvidas assaltavam seu espírito. Seria esse o seu destino? Estaria escrito que esse acidente faria parte da história de sua vida? Os conselhos da família tinham sido em vão. Embriagara-se no prazer de viver em toda a plenitude, sem limites; largara deveres religiosos e familiares. Julgava-se elegante, saudável e bem remunerada; o resto pouco lhe importava. Naquele momento, estava acometida por um estranho medo, medo e remorso. Quase destruíra sua vida num ato inconseqüente. Havia estado cega pelo orgulho, imersa num período no qual predominara uma fogueira de vaidades.

Procurei acalmá-la. Perguntei onde estavam a coragem que sempre demonstrara, o poder de reação, a vontade de vencer obstáculos e transtornos da existência. O que lhe acontecera poderia servir de incentivo para recomeço de uma nova vida. Afirmei que há sempre um momento de verdade na trajetória de cada um de nós. Ela me respondeu que sentia a alma esvair-se do corpo. Perdera a vontade de viver.

Foi bem longo o período de sua recuperação. Depois da alta do hospital conseguiu, na empresa, transferência para Recife. Perdi-a de vista. Vez por outra, seus familiares davam-me notícias dela. Estava bem, fizera plásticas e tratamentos especializados. Na  força espiritual, encontrara meios de vencer os sofrimentos.      

Anos se passaram. Reencontro-a e quase não a reconheço. Estava sorridente, autoconfiante e vestida no fino da moda. Cicatrizes, entretanto, eram visíveis. Explicou-me, que além do emprego, dedicava-se a uma obra social: cuidava de pessoas que apresentavam extensas cicatrizes de queimaduras e de jovens que se perdiam no alcoolismo precoce, nas drogas e na violência.

Estava feliz. Fizera de sua vida um ato de compromisso com pessoas sofridas, a quem já faltavam esperanças de futuro. Enfim, tentava apagar fogueiras que ainda ardiam em corpos e almas de seus semelhantes.


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