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27 novembro, 2018

HOJE TEMOS VISITA

O médico legista Roberto Lúcio Feliciate Alves, de Porto Alegre, apresenta
o conto "ROSTOS VAZIOS" e dois de seus livros.

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08 agosto, 2017

CARTA A HIPÓCRATES

Por:
Rafael Gallina Krob
Regional RIO GRANDE DO SUL


















Ilmo. Sr. Dr. Hipócrates: cordiais saudações! 

Como tem passado o digníssimo Doutor? Aproveito a oportunidade para contar-lhe sobre sua filha. Sim, sua garota, a Medicina. Por Apolo, ela anda uma danada! E nem é mais tão moçoila, veja só quantos séculos ela já tem. E mesmo assim, continua cativando turbilhões de jovens e enlouquecendo corações. Veja quantos batem à porta do seu irmão vestibular. E aqui entre nós, mano ciumento este, não? Quase não deixa ninguém chegar perto dela! Muitos querem tê-la, mas nem todos podem. Correto, meu amigo, pois para namorar uma rapariga grega e direita assim é preciso muito empenho, ética e respeito! Pensa que é fácil? Ela é uma namoradinha exigente! E não é para qualquer um. E ela pegou-me de jeito. Não pude resistir a mais recíproca das paixões. Amor à primeira vista. Fiquei tão deslumbrado com o charme de seu perfil helênico e com sua voz doce que joguei-me em seus braços impensada e repetidamente, por tantas e tantas vezes. Perdi-me no emaranhado dos seus cabelos dourados e fitei quantas vezes aquele par de olhos azuis cheios de ternura e da cor do Mar Mediterrâneo. Olhos que me devoravam com a sofreguidão de "quero mais". A boca, humm... carnuda e cor de maçã! E a pele, que seda. Rugas? Nenhuma! Como? Não sei. Nem bisturi, nem botox. Ela simplesmente resiste ao tempo, just like that. E o corpo? Quanta malícia! Irretocável e firmezinho. Cheio de curvas serpenteantes e perigosas. Lembra até a serpente do bordão de Esculápio. E o andar? "Toc, toc, toc..." de salto alto e sempre elegante, deambula com a leveza de uma gazela lasciva, pronta para o ataque. Esculpida com a perfeição de uma coluna dórica! Bela! Lânguida! Capaz de causar  um furor em pleno centro de Atenas. "Tim-tim", um brinde à Higia! "Tim-tim", outro à Panacia! Só de pensar, fico todo sudorético! Alguém tem um EGG por aí?

Então, Doutor Hipócrates, perdoe-me a empolgação. Sei que falo de sua filha, mas esta gata há muito vem conquistando e encantando gerações. Por séculos, despertou admiradores e seguidores. Não só pela incontestável beleza em si, mas especialmente pelo seu espírito humano e solidário. E como já disse, ela é uma amante exigente. Toma-nos tempo, acorda-nos à noite, de segunda a segunda ela sempre quer mais e mais. Domingo, Natal, Páscoa, dia santo? Sim, ela é insaciável e incansável.
Mas, Doutor Hipócrates, nós médicos, sempre fomos cientes e orgulhosos de nosso compromisso com sua amada filha. E queremos continuar sendo, hoje e sempre. Nós prometemos, lembra? Ou melhor, juramos! Bem como o ilustre mestre ensinou-nos. Sempre tentando buscar o aprimoramento técnico, mas sem deixar de lado a face humanitária da profissão. E nunca esquecendo de que o motivo primordial deste romance todo é a saúde e o bem-estar de nossos pacientes. E ainda há quem diga que nunca em momento algum da história, os médicos solicitaram tantos exames avançados e desnecessários aos seus doentes. E também há quem diga que nunca os facultativos foram tão omissos ao escutar as queixas dos seus enfermos. Verdade? Não sei.

Agora, há fatos que eu sei, sim. Descobri, Doutor Hipócrates, que sua filha anda muito namoradeira. Digo-lhe isso mui respeitosamente, mas não posso esconder-lhe. Como? Ela anda envolvendo-se com um número maior de médicos do que deveria, ora bolas. Há tantos médicos no mercado que ela já não consegue mais dar uma adequada atenção para todos ao mesmo tempo. E há os que, para fugir do crivo do seu irmão, foram procurar pelo seu aconchego em outros países, com a intenção de voltar e ainda querer exercê-la em território Tupiniquim.

E quanto ao tio SUS, Doutor Hipócrates? Cada vez mais maltratando sua filha sem do nem piedade! Gerando atritos gratuitos e desnecessários entre médicos e pacientes e estabelecendo condições desumanas para ambos. Enfermos que morrem na fila das consultas e que acotovelam-se nos hospitais públicos em busca de atendimento estão tecendo comentários nada adequados sobre a reputação de sua grega amada. Doutor Hipócrates, o que será desta relação entre nós médicos e sua filha na atual conjuntura? E o que será daqueles doentes que dependem de tão estreita relação?

Doutor Hipócrates, certo de que o pai da criança há de encontrar uma solução, cordialmente despeço-me. Enquanto ainda há vida, ainda há esperança. Um fraterno abraço dos eternos embriagados de amor pela sua filha...


19 julho, 2017

A ANDORINHA SOLITÁRIA

Por:
Luiz Alberto Fernandes Soares
Regional RIO GRANDE DO SUL 













Era um final de tarde, já quase dentro da noite. Estava presente um clima ventoso de inverno. Temperatura na marca de oito graus. O nordestão se debatia com volúpia sobre as águas do mar, fazendo suas ondas invadirem sem limite as ruas e demolirem os últimos comoros de areia que restaram, já que  agora as carroças  que retiram areia para vender aos incautos que compram-na  para reboco, com mistura de areia salgada, o que é extremamente prejudicial a segurança das obras, estão sendo presas, por destruírem a natureza.

O sol ao entardecer ainda mantinha intensa luta para não soçobrar diante do manto da noite, que vinha descendo, sem pedir permissão. Tive a impressão que a noite dizia: - É meu turno de plantão. Vai-te sol que eu assumirei a amplidão do espaço.

Estava voltando de uma caminhada pela passarela das areias, quase coberta pela espuma que as ondas deixavam na praia, como se fossem gotas de lágrimas derramadas por quem se despedira para longa viagem, quando escutei o trinar de um pássaro.
            
Levantei o olhar e vi um ponto preto com listas brancas que realçavam a linda silhueta esguia e sóbria. Firmei o olhar, já quase no lusco-fusco, e vi que o vulto era de uma andorinha.
            
Fiquei surpreso. Parei. Recuei dois passos na tentativa de encontrar melhor ângulo de visão, no desejo de identificar, com certeza, que se tratava de uma andorinha.
            
Quando tive plena consciência, que o pássaro que via, era uma andorinha, lembrei-me da máquina de fotografia. Contemplei a distância a fragilidade da luz. Conclui que nem com o uso de flash, o filme seria sensibilizado diante da ausência da luz no espaço e no objeto que desejava registrar na cromo em cores.
            
Diante do impasse, mudei de posição. Andei em círculo olhando para cima. O meu intento era examinar, admirar, identificar com detalhes a figura do pássaro que estava solitário, pousado sobre o fio de alta-tensão da rede elétrica.
            
Quando o meu cérebro registrou, sem dúvida que se tratava de uma andorinha, comecei a fazer mil conjecturas.
            
Pleno inverno. A grande família dessas aves migratórias há mais de quatro meses já havia deixado nosso país, rumo à Patagônia.
            
As andorinhas já haviam partido. Estivera presente nessa assembleia pública de despedida. Reuniram-se, as que vi, nesses mesmos fios. Tivera o prazer de vê-las voarem na direção do infinito, lá na saída do verão, rumo à nova pátria distante.
            
Recordei-as com emoção. Até de algumas lágrimas que se avizinharam dos meus olhos naqueles momentos de adeus. Pois o instante me fora tão sensibilizante que não mais esquecera da despedida...
            
Milhares de interrogações me vieram à mente diante da andorinha solitária. Teria sido o último rebento a nascer e por falta de capacidade física ficara sozinho no torrão natal?
            
Até não acreditei, já que se tratava de uma família ordenada, séria, amável que tudo planeja para que os herdeiros nasçam, todos no período certo para que tenham condições de migrarem com os pares e vencerem a larga viagem transatlântica!
            
Teria adquirido alguma patologia no final do verão e sem energia suficiente para decolar com seu clã, permanecera solitária?

Fato pouco provável! Também não creio, pela harmonia, sentimento de unidade, entendimento mútuo que reina no bando, o que pouco se vê entre nós, os tais pensadores, denominados racionais. Esse caráter deve ter se perdido nos tempos...
            
Duvido que elas tivessem partido deixando um fragmento da grande família. Grande em dois sentidos: - Eram mais de quinhentas presentes na reunião de despedida. E grande no poder de aglutinação de união fraterna e coesão harmoniosa.
            
Qual seria então o motivo? Por que essa andorinha teria ficado sozinha na plenitude do inverno, no Brasil? Por quê? Realmente foi difícil no momento entender o porquê da solidão.
            
Sentei-me na mureta da entrada e fiquei a contemplar o sol que já ia se escondendo, pareceu-me que também dando o seu adeus ao dia que fugia silenciosamente. Notei que a cada momento, a noite se fazia mais densa, reduzindo minha capacidade visual.
           
O vulto persistia ali imóvel. A andorinha solitária parecia triste, desolada, perdida, esquecida na imensidão de seus pensamentos.
             
O que estaria a imaginar? Acreditei que estava com saudade de sua família!
            
Tive vontade de chegar mais próximo e convidá-la a entrar e se agasalhar em minha garagem, já que o cair da noite fazia descer a temperatura.
            
A distância era longa. Mais de sete metros. Ali a olhá-la em pleno silêncio, não queria fazer nenhum movimento brusco para que ela não fugisse, diante de um gesto mais bruto.
            
Veio-me novo pensamento. Onde ela estaria morando? Talvez sob o telhado da minha casa ou de algum vizinho?
             
Diante de tão variadas conjecturas, fiquei a imaginar: - É possível que agora, já exista no Brasil, uma nova raça de andorinhas, resistentes ao clima de inverno e capaz de suportar as quatro estações. É bem possível que seja uma verdadeira trigênica, que algum cientista geneticista tenha criado na solidão de algum laboratório sulino e lançado ao espaço para constatar sua capacidade reprodutiva e sua resistência ao tempo.
            
Em verdade é complexo entender, conhecer os motivos pelos quais a andorinha estava ali solitária!
            
Agora, sim, a noite era a única habitante da amplidão sem luz. E dentro dela estava eu que praticamente não mais definia o vulto da andorinha, ainda pousada no mesmo fio. De quando em quando a identificava através do trinar melancólico e solitário, que contagiava minha alma também solitária.

Ouvia um som leve, distante que ressoava com pouca nitidez, apesar do nordestão ter amainado um pouco sua fúria desregrada.
            
Como já estava sentindo muito frio. Mãos geladas. Extremidades do nariz ardendo. Visão quase nula. Meu lindo objeto admirado não mais o via. Resolvi falar em voz alta.
            
- Minha amiga! Minha boa vizinha por acaso você não quer entrar?
            
Revi um vulto que parecia ter agitado  as asas. Entendi... Deveria estar aceitando meu convite. Ou talvez até dizendo:
            
- Eu já moro aí sob o teto de sua casa.
            
Então falei de novo, em voz mais carregada de decibéis.
            
- Vamos nos recolher que já está na hora e o frio a cada momento aumenta.

Ouvi um trinado mais longo e um vulto rodopiou mais baixo e ganhou o espaço, sob o telhado da minha casa.
            
Fiquei feliz e muito emocionado que ela era minha inquilina, sem nada pagar e que na verdade estava muito bem protegida do frio.

            
Também cruzei os umbrais da porta da frente, um tanto mais satisfeito, fugindo da intensidade do frio do inverno e conclui que a andorinha solitária em verdade reside comigo e como bem diz a frase popular: 

- Uma andorinha solitária não faz verão.




10 fevereiro, 2017

ABORTO DA NATUREZA

Por:
Edson Olímpio Silva de Oliveira
Regional MINAS GERAIS








Há uma língua geral e expressões típicas, próprias de cada região. Trouxemos várias delas que em sua época e tempo estavam na língua do povo viamonense. Ainda não vivíamos a globalização de hábitos e costumes na proporção avassaladora de agora. E “globo” era somente uma das designações do planeta ou da bola terrestre. Hoje estar na Globo, fazer parte da Globo ou simplesmente aparecer na Globo significa “vida inteligente”. Para quem botocudo? É um “aborto da natureza”! Expressão das crianças aos políticos no palanque na Praça da Borracheira estava na voz das pessoas. De significado abrangente que transitava por algo extraordinário a uma aberração. Nós gaúchos somos criaturas de extremos. O dualismo está em nosso cerne. Somos sobreviventes de inverno e verão no mesmo dia. Torce-se pelo Grêmio ou para o Internacional...

As professoras do meu saudoso Grupo Escolar Setembrina corrigiam, explicavam, mas aceitavam nas redações – por favor, acreditem que aluno tinha que estudar, fazer redação, provas, passar de ano por mérito – que o estudante se manifestasse com a linguagem da sua vida. Depois sentavam com o aluno ou discutiam as redações no quadro negro. Guris como eu e o amigo Dálcio Dorneles recebíamos “boas” orientações e algumas admoestações. Um aborto era uma desgraça na vida de qualquer família e Viamão era território cristão e católico. A perda de um filho ou de uma filha, a perda de uma vida humana abalaria a família intensamente e por toda a sua existência. Dor e sofrimento marcados por missas e visitas à sepultura, afinal “morrera um anjo” e como tal seria eternamente pranteado e reverenciado. Abortos propositais, intencionais, premeditados por qualquer método ou aquelas pessoas “aborteiras” carregariam a mácula da morte “mais criminosa”, mais cruel, uma morte inominável.

Hoje tudo é transitório, exceto a ideologia do poder a qualquer custo. Tudo é facilmente descartável, do carro à máquina, dos objetos, dos relacionamentos e das pessoas. Essa sensação de transitoriedade invade as almas das criaturas e jogam-nas num mundo de valores também descartáveis. Jamais generalizamos. Vivemos uma época de transição em que diferenciamos e nos apercebemos com mais facilidade do bom e do ruim. Daquilo que nos serve e daquilo que não presta. A globalização abriu essas fronteiras. “Estás no Google?” – se positivo, você existe. Luz e escuridão. Sombras e penumbras estão nesse caminho. O “fruto do conhecimento” na árvore ancestral do Éden, do Adão e da Eva nos traz a responsabilidade da opção. Abre-se o universo do conhecimento e da busca necessária à evolução, ao aperfeiçoamento, à iluminação da mente e do espírito.

Somos seres de ódio que caminhamos para o amor Crístico. A “tartaruga no topo do poste” seria um aborto da natureza. Olhamos para nosso entorno de cidade, de Estado e de país e o que vemos? Viamonenses de antanho estariam abismados com tantos e tamanhos abortos da natureza. Absolutamente nada é casual no mundo ou sob o manto do firmamento, há causa e efeito e não basta desligar-se, fazer de conta que o problema é dos outros, e sempre apontar para alguém como causador ou culpado. Até a fé deve ser “raciocinada” ensinou-nos o grande mentor espiritual. Somos porque permitimos ou porque resultamos de nossos atos ou de nossas omissões.









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