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08 novembro, 2017

LEMBRANÇAS: O FUNERAL

Por:
Vilma Clóris de Carvalho
Regional PERNAMBUCO










            
- Tide, venha chupar uns roletes. A caiana está cheia de caldo.

Lembrança da infância. Nada tem a ver com o corpo estendido na mesa do necrotério, enquanto aguarda a roupa para ser colocado no caixão. A palidez é a de um boneco de cera. Um morto. Não é meu pai.  Não o conheço.

- Mana, nosso pai não existia mais. Confuso, esquecido, em nada lembrava o chefe da casa, provedor, guardião da moral da família. A doença de Alzheimer não perdoa. Tenho visto alguns pacientes que me levam a desejar o desenlace. Mas temos que esperar. Atualmente, vem sendo discutido o poder do homem sobre a vida e a morte. Em algumas circunstâncias já pensei na eutanásia, mas não sou forte o suficiente para assumir uma decisão desta amplitude. Prefiro encarar o fim natural do pai que discutir as condições de vida que ele poderia continuar tendo. É angustiante.

- Benicio, a morte sempre me perturbou. O nascimento também. A experiência de ver alguém chegar à vida a partir de um estado de não existência ou, de ir a um estado de não existência após ter vivido, mexe comigo. Sobretudo quando o desfecho diz respeito a alguém de quem eu conheço a grandeza e a luta envolvida em sua construção.

Foi uma noite de chuva e vento forte enquanto a família aguardava o desfecho. Sem estertores, mansamente se foi. Mathilde não derrama nenhuma lágrima. Sentada ao lado do corpo, de cabeça baixa, o rosto parece ausente. O irmão insiste em continuar a conversa.

- Enquanto teve saúde resolveu tudo por você e agora, como será?

- Tenho sensação de vazio, de fim de estrada. Parada no tempo, sinto-me no limbo.

- Fala alguma coisa, Tide. Faz bem.

-Morreu vovó, nasceu Augusto seu primeiro bisneto; faleceu papai, Noêmia está grávida, em breve nasce seu filho. Pensava nessa alternância tão pouco inteligível que é a existência. A vida não se esclarece.

São cinco horas de um despertar que mal começou. Já amanhece, mas ainda não é claro. Na linha do horizonte a tênue claridade de encontro às nuvens cria desenhos que lembram uma cidade fantasma. Pela janela Mathilde olha o jardim.
           
-Aristeu, telefone para Eduarda.

-Aquela do bufê?

-Sim, filho. Devemos providenciar café, chá, biscoitos, água e um garçom. Muitos virão demonstrar sua solidariedade e teremos que recebê-los à altura.

- Aqui fala dona Aurélia de Castro Machado. Arlindo,  é urgente.

-Meu marido acaba de falecer. Tome as providências necessárias. Quero tudo de primeira qualidade. Aqui no Hospital Samaritano. Aguardo sua presença.

-Mãe, estamos em condições de enfrentar esta despesa?

-Benício, não é hora de pensar em detalhes.

-Mathilde, vamos em casa tomar banho, café e nos prepararmos para a cerimônia. Vista o vestido azul marinho. Está bem de acordo. Vou ver se Adelaide pode ir até lá ajeitar nossos cabelos. Precisamos lembrar que estaremos em evidencia. É importante voltarmos o mais rápido possível. O enterro será às dezesseis horas.

Horários e etiquetas me doutrinaram toda a vida. Aceitei sempre modelos prontos para usar em cada situação. Habituei-me com o sistema. Não levo em conta minhas preferências. Nem as conheço. Parece que em cada circunstância me desconecto de mim e ajo de acordo com as normas estabelecidas. Sou um paradoxo. Um mundo interior vasto e complexo com um comportamento simples, cumprindo de acordo com o esperado. Dificilmente surpreendo. Fragmentos da convivência com meu pai afloram em estilhaços. São retalhos que nem sempre se harmonizam – o cheiro da moagem da cana, a procissão de Nossa Senhora do Carmo, o doce japonês no retorno da missa.

O ritual se processa segundo as determinações de minha mãe. As lembranças tem o poder de fragmentar a alma. São instantes retirados de um todo, ao sabor do momento, quase sempre sem lógica aparente. Não sei como sou. Nas poucas vezes em que tentei ser diferente do que se esperava, senti-me inadequada.

- Benício, anote os nomes das empresas e famílias que enviaram coroas e assinale as maiores e mais bonitas.

- Não vou fazer isso, mãe. Tenho coisas mais importantes para sentir e me ocupar.

- Pode deixar. Eu faço.

- Não poderia viver sem sua presença, Aristeu.

De repente me dou conta de que um sentimento de prazer, burlando a minha guarda para manter a postura esperada, se insinua no meu peito. Sempre a ler, ouvir, observar e falando pouco, desenvolvi a arte de especular o que vai na alma. O prazer que se instala vem de pensar que, ao longo deste dia, não serei obrigada a sentir, nem reagir, nem providenciar, nem me torturar. É condizente com as circunstâncias que eu esteja chocada. O que se passa para além das aparências, ninguém vê. Na minha mente, algo sem cor, som, nem forma, mas atribulativa. Ouço a voz de minha mãe:

 - Mathilde, fique atenta aos acontecimentos. Preste atenção. Amanhã você se entrega a seus devaneios inúteis.

Não me iludo com disfarces exteriores. Frases e gestos se enquadram em comportamentos predeterminados, adequados à situação.  Dia informe. Não parece fazer parte do calendário. É como uma nota fora da partitura.

- O descanso eterno dai-lhe, Senhor, e que a luz perpétua o ilumine.

- Amém.

Padre Antonio encerra a cerimônia. A família, em alinhamento, caminha atrás do carrinho que conduz o caixão: dona Aurélia, a viúva e seus filhos - Aristeu e sua mulher Felicia, Mathilde e Benicio. Noêmia não compareceu pelo adiantado estado da gravidez.Os demais presentes, os seguem. O rumor dos passos se assemelha a um batalhão em marcha.

A primeira vez que entrei num cemitério, ainda adolescente, fui tomada de emoção à expectativa de pisar um terreno que guardava corpos que eu não sabia a quem pertenceram, mas que viveram vidas. Estavam enterrando meu avô. Agora é meu pai, um dia serei eu. Me ocorre a substituição das pessoas ao encerrarem seu tempo. A vida se processando continuamente enquanto cada indivíduo é um instante. Meus irmãos terão continuidade através de seus filhos. Eu sou semente que não vingou. Os ciprestes não se movem, o dia está abafado. Começa a escurecer. Uma folha cai, um passarinho voa, outro pousa no galho para aguardar o amanhã.

- Aurélia, meus parabéns. O sepultamento de Eurico de Castro Machado foi impecável.
           

03 julho, 2017

APRENDENDO A VER

Por:
Vilma Clóris de Carvalho
Regional PERNAMBUCO
E-mail vilmacloris@gmail.com










Ao abrir a porta deparei-me com Zefa, que trabalhou para mim como faxineira, por quatro anos. Abracei-a convidando-a para entrar.
            
Naquela época, tinha a cabeça cheia de sonhos: não queria passar a vida sendo doméstica, ia estudar para ser professora. Ganharia bom dinheiro, teria sua casa e seria respeitada pelos conhecidos.
            
Após um cafezinho, Zefa começou a contar sua história vivida desde que deixara de trabalhar em minha casa.
            
Morando com sua mãe num minúsculo casebre, nas proximidades de um barranco, procurou a escola mais perto para frequentar o curso noturno de alfabetização de adultos. Conseguiu quatro faxinas para fazer suas despesas, e foi vivendo, cansada e desanimada. Chegava, muitas vezes, atrasada para as aulas e os professores faltavam bastante. Estava nesta luta, há cinco semestres. Conhece as letras, assina seu nome e ler com muita dificuldade. O mesmo acontece com quase todos de sua turma. Aulas complicadas, com duração de trinta minutos ao fim dos quais entra outro professor, que falará sobre novo assunto, até que cinco aulas por noite sejam ministradas. Volta para casa confusa.
            
Zefa, você está envelhecida pela dureza da vida que tem enfrentado, mas tem pouca idade. É trabalhadora, honesta e conhece seu serviço. Precisa reformular sua vida.
           
Por onde começar? Ainda não contei o pior. As chuvas que caíram na cidade fizeram nosso casebre deslizar. Perdemos tudo. Saímos somente com a roupa do corpo.
Minha mãe, muito machucada, foi levada para um hospital onde faleceu. Pedi para ficar na casa de uma amiga, por uns dias. Não tenho mais sonhos. Só quero sobreviver.
            
Vamos pensar as duas. Precisa trabalhar em uma casa onde possa dormir e ter as noites livres para frequentar a escola. Não estou satisfeita com a faxineira que lhe substituiu. Venha para cá e eu lhe ajudarei.
           
Posso vir amanhã?

Terá que fazer uma boa limpeza no quartinho dos fundos. Lá será sua casa.
            
Deus lhe pague. Estarei aqui logo cedo, para lhe servir.
            
A visita de Zefa levou-me a pensar, de modo especial, no grande problema do analfabetismo no país. Foi um tema que sempre me preocupou. Vou tentar redigir um texto à respeito. Quem sabe conseguirei fazê-lo chegar até aos meios competentes, e assim, fazer alguma coisa pela educação.
            
Experiência e observação me levam a pensar por que alguns estudantes decifram determinados códigos de inteligência e se transformam em indivíduos empreendedores, capazes de debater ideias e construir e construir conhecimentos. Quantos, embora com excelentes notas escolares, não os decifram, têm visão limitada, repetem ideias.

Durante seis anos como estudante de medicina, trabalhei no período da noite, num serviço social cujo superintendente em Paulo Freire. Minha função era ministrar palestras para operários sobre temas referentes à saúde. Supervisionada por Dr. Paulo, conhecido por sua luta contra o analfabetismo, discutia com ele minha conduta e a reação dos ouvintes. Mudava muitas vezes a estratégia procurando adequá-la às circunstâncias. Absorvi do mestre, princípios importantes que me acompanharam por toda a carreira universitária e facilitaram minha vida. Destaco a percepção da necessidade de despertar o interesse do aprendiz e, levá-lo a sentir utilidade no que está aprendendo, aplicando a situações novas.

Ao longo do tempo fui percebendo que o básico do aprendizado deve ser processado antes e concomitante ao ensino fundamental: ensinar o indivíduo a observar, registrar o que vê e pensar no que foi visto. É preciso pensar e para pensar faz-se necessário perceber e sentir a realidade. É importante exercitar-se para tal. Situações são criadas: sua casa fica longe da escola? No trajeto tem árvores? Há crianças brincando na calçada? Qual a brincadeira que as divertem? Dificilmente alguém respondia, pois não prestavam atenção. Olhavam e não viam. Quando na universidade, criei outros tipos de exercício visando a forma de estudo dirigido, com a mesma finalidade. Indicava aos estudantes, capítulos de livros e distribuía cópias de separatas. Em anexo, os alunos recebiam folhas com uma série de perguntas. Destas, a maioria tinha resposta direta ou indireta no material distribuído, enquanto para as demais, se fazia necessário pensar, comparar, deduzir, induzir, concluir e tantas outras artimanhas que o cérebro pode fazer uso para obter respostas.

A toda hora nos surpreendemos com a capacidade do Homem moderno para resolver problemas que há alguns anos atrás não existiam. Ele não está recorrendo a estruturas novas, do ponto de vista genético, mas a capacidade para resolver novos e complexos aspectos é o resultado de uma vida em permanente desafio, exigindo uma interação cada vez mais diversificada, entre estruturas do cérebro, relacionadas ao aprendizado, e determinados ambientes nos quais se desenvolve o Homem atual.

O cérebro é um órgão muito mais plástico do que se imaginava e se modifica com as entradas sensoriais que vem do meio ambiente. É por causa desta contínua interação com o habitat que acontece o crescimento no Homo Sapiens.

A maneira como alguém percebe a realidade, vai influir na sua capacidade de pensar e aprender, perceber e expressar o que percebeu. Captando o que há no seu caminho, este fica outro e é percorrido de modo renovado. Com o exercício, o entendimento vai se ampliando e se torna cada vez mais fácil acompanhar as aulas e assimilar o conhecimento. O aluno vai ficando independente para aprender, ultrapassando a matéria que lhe é apresentada.

No mundo atual sobra pouco espaço para se registrar a realidade e pensar sobre ela, desenvolvendo a arte de vê-la com seus próprios olhos, base para qualquer aprendizado.

Dona Eremita, trouxe um suco de acerola. Escrevendo há tanto tempo deve estar cansada.


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