Hamilton Raposo
Regional MARANHÃO
Zé Camões tinha como hábito de vida a discrição. Não gostava
daquelas conversas sem muito conteúdo, dos sorrisos impróprios e dos arroubos de felicidades. Era extremamente reservado, calmo e de poucas
palavras. Conversava sempre em tom de voz baixo e não demonstrava, apesar da
sua discrição, arrogância ou falta de educação. Tinha em Mundico Medeiros um
amigo, tratavam-se como se fossem irmãos e esta amizade foi se transferindo
paulatinamente para Zé Carlos, Cazuza e Mário.
A amizade com Zé Carlos foi muito da espontaneidade
e simplicidade daquele negro de Aldeias Altas, descendente de escravos lá das
bandas de Guimarães, que brincava, dançava e adorava as suas divindades em um
animado Terecô nos arredores da Vila do Buriti. Zé Camões apesar do seu
conhecimento filosófico da religião dos espíritos tinha também peculiar
interesse pelas coisas espirituais da terra, das matas, rios e mares. Sempre
quis saber quem era “légua-boji-boá”? Como um homem como Zé Carlos, ao som de
tambores, tocadas por mãos fortes e calejadas, em um compasso rítmico e
alucinante, era capaz de transformar a sua personalidade? Tudo isso intrigava o
conhecimento científico, filosófico e religioso de Zé Camões. As vezes em que
esteve no Terecô, no terreiro de Zé Carlos, pôde observar o rebolado de
“légua-boji-boá e o encantamento de “Princesa”, uma negra altiva, irmã de Zé
Carlos, que incorporava o caboclo “Tupinambá”, que com seu arco e flecha,
protegia a mata e os seus devotos, sendo capaz de flechar espiritualmente de
forma mortal, qualquer um que agredisse ou ameaçasse a negra Princesa ou
qualquer devoto do caboclo das matas.
Tudo isso incomodava Zé Camões e ele não encontrava
explicação para este fenômeno sobrenatural, os espíritos que conhecia, eram
todos pessoas conhecidas e que haviam passados em vida pela terra. Zé Carlos
também queria uma explicação de como Francisco, um rebelde bolchevista que
havia passado pelo semiárido e inspirado um utópico movimento popular, poderia
incorporar em um homem místico e apolítico.
Todas estas indagações eram conversadas
reservadamente entre Zé Camões e Mundico Medeiros, comentavam entre si a
evolução de Zé Carlos na intepretação na doutrina e festejavam a liberdade de
expressão religiosa que acontecia na Vila do Buriti, não havia mais necessidade
da aprovação dos coronéis, do clérigo e da sociedade, todos não se sentiam mais
incomodado com o batuque dos tambores e assim Zé Carlos podia rebolar a vontade
quando possuído por “légua-boji-boá” sem precisar dá satisfação ou esconder-se
nos fundos dos quintais.
Por mais liberdade de expressão religiosa que
pudesse existir naquele lugar, chamar a divindade que incorporava em Princesa e
Zé Carlos de caboclo talvez parecesse um desrespeito a entidade espiritual. O
caboclo Tupinambá na verdade se refere a uma grande nação de índios que
dominavam o litoral brasileiro. Era uma nação aguerrida e que constantemente
lutavam entre si e geralmente os derrotados eram devorados em rituais
antropofágicos. A chegada dos escravos ao Brasil, negros africanos, que
trouxeram consigo e logo incorporado à cultura indianista brasileira, rituais
religiosos, que se transformaram em culto, onde espíritos de índios, chefiados
pelo cacique Tupinambá e sua companheira a cabocla Jurema predominavam nos
terreiros e cultos dos afros descendentes. Assim Zé Camões tomou conhecimento
das manifestações que aconteciam no terreiro de Zé Carlos, e foi Princesa, com
sua sabedoria da senzala, que explicou a existência das divindades nativas e da
África mãe.
Princesa conhecia a sua história e a história dos
seus antepassados, sabia informar que seus pais negros escravos, haviam fugidos
da Usina Aliança e se refugiados nas matas de Guimarães, onde viveram por algum
tempo e com a revolta dos balaios, vieram com os filhos para as proximidades de
Aldeias Altas e depois ficaram perambulando pelo semiárido até se estabelecerem
na Vila do Buriti.
O entendimento de Zé Carlos e de Mundico Medeiros
sobre o bailado, cantorias e a transformação e mudança de comportamento
observados no terreiro, só podiam ser explicado por uma ciência que entendesse
o homem, a natureza e a sua relação com o sobrenatural, estando o homem, o mais
evoluído que pudesse, como intermediário desta relação.
Majoritariamente ou quase que exclusivamente eram
os homens que determinavam a religião e a ordem dos cultos, às mulheres quase
sempre em um segundo plano, comandavam as ladainhas, exerciam a função de
carpideiras em funerais ou vestiam-se de branco durante as missas, as chamadas
filhas de Maria. Coube entretanto a “Princesa”, no Terecô da Vila, a quebra de
todos os paradigmas, e junto com o caboclo Tupinambá, serem atores principais
neste grande espetáculo da vida.