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18 novembro, 2017

A VIDA QUE PASSA

Por:
Socorro Azevedo Veras
Regional MARANHÃO
E-mail socorroazevedoveras@hotmail.com











Giram ponteiros do relógio e um tempo é mudado. 

Não faz marcas nem leva pesos, apenas passa...

Deixa lembranças e experiências somando alegrias e dores que criam evolução na alma, desmancham conceitos e preconceitos na mente, abraçando afinidades reconhecidas entre os processos do querer bem e do apreender o sim e o não.

Soma o tempo, as ilusões inconsistentes expondo à fragilidade humana cicatrizes equivalentes à profundidade dos golpes necessários à aprendizagem.

Frente a
o espelho, a nudez crua revela a verdade do tempo 
e testa a coragem da aceitação de si. O tique - taque do relógio relembra o nascedouro. Faltará apenas o abraço que ampara para mudança de casca.

Em meio à meditação, um terremoto doce sacode a cama: abraços s beijos repetidos fazem do coração uma caixinha de música e confirmam o ganho maior da vida: netos, sementes que falam e garantem a sua continuidade no tempo infinito.


12 novembro, 2017

CIRANDA

Por:
Mário Luna Filho
Regional MARANHÃO
Email: mlunafilho@bol.com.br




Obliquamente,
cai a tarde.
O sol
brinca
de esconde-esconde,
acordando em mim
uma lúdica
ciranda,
enfeitando de arco-íris
os meus olhos.

... e a criança
que estava aqui?





04 novembro, 2017

8º CAPÍTULO

Por:
Hamilton Raposo
Regional MARANHÃO














Zé Camões tinha como hábito de vida a discrição. Não gostava daquelas conversas sem muito conteúdo, dos sorrisos impróprios e dos arroubos de felicidades. Era extremamente reservado, calmo e de poucas palavras. Conversava sempre em tom de voz baixo e não demonstrava, apesar da sua discrição, arrogância ou falta de educação. Tinha em Mundico Medeiros um amigo, tratavam-se como se fossem irmãos e esta amizade foi se transferindo paulatinamente para Zé Carlos, Cazuza e Mário.

A amizade com Zé Carlos foi muito da espontaneidade e simplicidade daquele negro de Aldeias Altas, descendente de escravos lá das bandas de Guimarães, que brincava, dançava e adorava as suas divindades em um animado Terecô nos arredores da Vila do Buriti. Zé Camões apesar do seu conhecimento filosófico da religião dos espíritos tinha também peculiar interesse pelas coisas espirituais da terra, das matas, rios e mares. Sempre quis saber quem era “légua-boji-boá”? Como um homem como Zé Carlos, ao som de tambores, tocadas por mãos fortes e calejadas, em um compasso rítmico e alucinante, era capaz de transformar a sua personalidade? Tudo isso intrigava o conhecimento científico, filosófico e religioso de Zé Camões. As vezes em que esteve no Terecô, no terreiro de Zé Carlos, pôde observar o rebolado de “légua-boji-boá e o encantamento de “Princesa”, uma negra altiva, irmã de Zé Carlos, que incorporava o caboclo “Tupinambá”, que com seu arco e flecha, protegia a mata e os seus devotos, sendo capaz de flechar espiritualmente de forma mortal, qualquer um que agredisse ou ameaçasse a negra Princesa ou qualquer devoto do caboclo das matas.

Tudo isso incomodava Zé Camões e ele não encontrava explicação para este fenômeno sobrenatural, os espíritos que conhecia, eram todos pessoas conhecidas e que haviam passados em vida pela terra. Zé Carlos também queria uma explicação de como Francisco, um rebelde bolchevista que havia passado pelo semiárido e inspirado um utópico movimento popular, poderia incorporar em um homem místico e apolítico. 

Todas estas indagações eram conversadas reservadamente entre Zé Camões e Mundico Medeiros, comentavam entre si a evolução de Zé Carlos na intepretação na doutrina e festejavam a liberdade de expressão religiosa que acontecia na Vila do Buriti, não havia mais necessidade da aprovação dos coronéis, do clérigo e da sociedade, todos não se sentiam mais incomodado com o batuque dos tambores e assim Zé Carlos podia rebolar a vontade quando possuído por “légua-boji-boá” sem precisar dá satisfação ou esconder-se nos fundos dos quintais.

Por mais liberdade de expressão religiosa que pudesse existir naquele lugar, chamar a divindade que incorporava em Princesa e Zé Carlos de caboclo talvez parecesse um desrespeito a entidade espiritual. O caboclo Tupinambá na verdade se refere a uma grande nação de índios que dominavam o litoral brasileiro. Era uma nação aguerrida e que constantemente lutavam entre si e geralmente os derrotados eram devorados em rituais antropofágicos. A chegada dos escravos ao Brasil, negros africanos, que trouxeram consigo e logo incorporado à cultura indianista brasileira, rituais religiosos, que se transformaram em culto, onde espíritos de índios, chefiados pelo cacique Tupinambá e sua companheira a cabocla Jurema predominavam nos terreiros e cultos dos afros descendentes. Assim Zé Camões tomou conhecimento das manifestações que aconteciam no terreiro de Zé Carlos, e foi Princesa, com sua sabedoria da senzala, que explicou a existência das divindades nativas e da África mãe.

Princesa conhecia a sua história e a história dos seus antepassados, sabia informar que seus pais negros escravos, haviam fugidos da Usina Aliança e se refugiados nas matas de Guimarães, onde viveram por algum tempo e com a revolta dos balaios, vieram com os filhos para as proximidades de Aldeias Altas e depois ficaram perambulando pelo semiárido até se estabelecerem na Vila do Buriti.

O entendimento de Zé Carlos e de Mundico Medeiros sobre o bailado, cantorias e a transformação e mudança de comportamento observados no terreiro, só podiam ser explicado por uma ciência que entendesse o homem, a natureza e a sua relação com o sobrenatural, estando o homem, o mais evoluído que pudesse, como intermediário desta relação. 


Majoritariamente ou quase que exclusivamente eram os homens que determinavam a religião e a ordem dos cultos, às mulheres quase sempre em um segundo plano, comandavam as ladainhas, exerciam a função de carpideiras em funerais ou vestiam-se de branco durante as missas, as chamadas filhas de Maria. Coube entretanto a “Princesa”, no Terecô da Vila, a quebra de todos os paradigmas, e junto com o caboclo Tupinambá, serem atores principais neste grande espetáculo da vida.


12 junho, 2017

NAMORANDO NO AMOR

Por:
Socorro Azevedo Veras
Regional MARANHÃO
E-mail socorroazevedoveras@hotmail.com







Passa o tempo sem dó nem piedade
E depressa nos faz caminhos para andar
Vai passando anos, emoções, idade
E o primoroso tempo nos dita: amar.
Tira -nos do colo materno luminoso
Põe-nos, sem pejos no colo de alguém
Que explode em luzes, som misterioso,
Cantos e emoções do maior querer bem.
Exclui dor ou mágoas e sorrindo
Enfrenta mil desejos de dominar,
Mas angustia no medo de saber partindo.


Compraz -se em cada tempo mais ama
No carinho de manter novo e infindo
O prazer renovado de sempre namorar.


28 maio, 2017

AS VEIAS ABERTAS DO BRASIL

Por:
Érico Brito Cantanhede
Regional MARANHÃO
Email: ebcantanhede@gmail.com















Gigante adormecido, 
No sono do conformismo.
Paciente moribundo 

No coma mais profundo.
És parasitado nas suas fronteiras.
Vampirizado por países.
Que sugam sem cessar.
As nossas riquezas naturais.
Nações que cresceram, 
Por obras superfaturadas, 
Favorecidos por empreiteiras, 
Financiadas com o suor, 
Vilipendiados por impostos, 
De um povo massacrado, 
Por políticos corruptos, 
Que açoitam seus eleitores.
A corrupção não é só dos políticos 
Pois o maior corrupto é o seu povo 
Que os reelegem passando inclusive 
A ser como capitanias hereditárias.
A corrupção é um câncer da nação.
É uma sepse de difícil controle 
É a hipovolemia sem hemostasia. 
É uma quase morte encefálica.
E esse país não tem como ser mais furtado.
Pois é da sua população,
Que nutre as vertentes da corrupção,
Há pouco à ser exaurido...
A transfusão mais urgente, 
O fármaco de última geração 
O hemostático mais eficaz 
O retorno da oxigenação cerebral, 
É a mudança de valores, 
A mudança dos políticos 
A mudança do judiciário 
E a mudança dentro de cada brasileiro.
É a depuração do seu DNA.
É a reconstrução do seu espírito.
Para que dessa renovação íntima, 
possa se renovar a fé e a esperança.
E o sangue sugado 
Pelas pífias nações 
Pelos miseráveis legisladores 
Mude toda uma genética 
E assim possa germinar
um novo Brasil.





14 maio, 2017

RUA PADRE GEROSA

Por:
Mário Luna Filho
Regional MARANHÃO
Email: mlunafilho@bol.com.br












Sempre quis
fazer um poema
para a rua Padre Gerosa.
Não um poema épico
ou onírico,
nem uma elegia ou haikai.
Não.
Talvez um poema lírico
ou nem tanto.
Um poema
sem parábolas ou metáforas
que fosse um poema comum
desses que se encontra
em todo rodapé de jornal.
Que fosse ao menos
um poema desses que se encontra
na seção de achados e perdidos.
Sempre quis
fazer um poema
para a rua Padre Gerosa.
Um poema mínimo que fosse,
quase não existindo,
mas que existisse.
Que lembre o menos
de tênue lembrança
de seu espreguiçar toda manhã.
Para poder acordar
uma rua perdida,
no meio de tantas outras.
Poucos conhecem (...)
a rua Padre Gerosa.
No entanto
traça paralelos minha alma,
Desembocando em todos os meus caminhos.
E que em algum lugar
da rua Padre Gerosa,
Deixei guardado
o tempo
de minha infância.






10 maio, 2017

KABURÁ

Por:
Arquimedes Viegas Vale
Regional MARANHÃO
Email: arquivale@uol.com.br














Olhando para suas mamas, já ressequidas e imprestáveis, Kaburá decidiu que já era hora de morrer. Havia completado 160 anos e perdido o seu último jogo. Além do mais, a rocha em que os marcava já estava cheia. Naquela perdida restinga do universo, ao nascer, cada um ganhava uma pedra para marcar a sua idade, o que faziam no aniversário com dois traços curtos paralelos horizontais cruzando-se com dois verticais, formando o “jogo da velha”.  Antes dos 12 anos, quando assumiam a obrigação, estes litoglifos eram feitos pela aldeã mais velha.
            
O jogo era solitário e o resultado íntimo. Cada mão escolhia um sinal e se tornavam competidoras. Ao final a ganhadora se punha na consciência e uma longa reflexão julgava a sua importância pessoal de viver ou a importância coletiva de morrer.
            
Do tempo e espaço que se dissipavam nas sombras da existência, restavam fragmentos irregulares de um povo brotado dos paredões onde a natureza guardava a sua memória. Permaneciam ali porque a balsa que os atravessaria para a outra margem do lago, na qual estavam plantando pedras achatadas circulares para a germinação de ideias, raciocínio, habilidades e conhecimento,  naufragou e o seu comandante preferiu morrer no fundo das águas e ele era o único que sabia fazer balsas de junco e o único que conhecia o rumo da navegação pois recebera  mapas e projetos feitos nas nuvens, de homens com grandes asas douradas que vieram do espaço ignoto numa tempestade com trovões  e relâmpagos.
            
Viver era livre e morrer era escolha. Assim, Kaburá sentia da decadência do seu povo um cheiro sinistro de extinção, como tinham se extinguido quase todos os animais e muitas plantas frutíferas, única reserva de subsistência. Os poucos animais que ainda sobreviviam estavam degenerados, deformados e com partes do corpo apodrecida. Nasceram de aglomerados genéticos impróprios, por espécies diferentes, fora das leis naturais e desequilíbrio ambiental, originando monstruosas criaturas inominadas. O lago, que margeava as proximidades, escasso em produção, tinha apenas peixes disformes, com ossos expostos e carne enrijecida inutilizável e estes, por final, penetravam em blocos de lama que ao se tornarem pedra carregavam a sua silhueta para a eternidade.   Pela pobreza do solo petrificado, as sementes necessitavam de nutrientes humanos para germinar.
            
As brumas da madrugada se dissipavam na palidez dos primeiros raios do sol, que vinha diminuindo a cada manhã, quando Kaburá respirou as suas últimas doses de oxigênio puríssimo, filtrado pelos fungos do teto da caverna e penetrou no mato para iniciar o seu ritual. Começou a juntar sementes de frutas, e fez um monte que lhe chegou à altura do sexo. Aí sim, passou a engoli-las começando pelas maiores, uma a uma, pacientemente, até que as últimas, mesmo sendo as menores, chegassem a entupir a sua garganta. Foi-se toda a coleta a encher-lhe o canal digestório que deveria ser fechado na entrada e na saída. Pesada e pesarosa arrastou-se como um réptil agonizante até ao lago para pegar a lama e executar esse hermetismo. Sentou-se na pedra mais alta e pôs-se à paciência para que se cumprisse o processo de transferência da existência.
            
Prendia-se a tradição à digestão das sementes em ambiente orgânico pela esterilidade da superfície do solo e como não existiam mais animais que as espalhassem tinha que ser feita por humanos em processo de decomposição viva que, para maior eficiência da semeadura, explodiam jogando as sementes germinadas em área muito mais extensa.
            
Pela intuição temporal, mesmo sem marcação astrológica, Kaburá achou que já estava além do necessário. Precisava fragmentar-se para quitar a sua dívida de jogo,  contribuindo com novas plantas frutíferas nascendo e cedendo seus ossos para ruminação das férreas mandíbulas  dos monstrengos vertebrados aquáticos que dominavam o lago.
            
Sua pele começou a engrossar, cozinhar no vapor das madrugadas e cair aos pedaços, que ficavam aos seus pés, sem ao menos uma formiga para degradá-los. Os seus braços estavam delindo, puxados para o chão, numa consistência gelatinosa, dobrando-se como uma fita ao vento. A boca crescia e a lama que a ocluía, já petrificada, trincou com estalos agudos e se esfarelou, caindo junto com as últimas sementes engolidas e não germinadas.
            
Suas orelhas cresciam como grandes folhas de taioba e antes que caíssem pode ouvir sons desconhecidos e assustadoramente fortes para aquele mundo onde o silencio só se quebrava com pedras.
            
A dor não fazia parte deste passamento optativo e necessário, mas Kaburá começou a senti-la. A princípio não sabia de onde vinha mas apalpou-se.com os seus rudes sentidos e percebeu que vinha dos olhos que cresciam, cresciam e já estavam do tamanho das bolas de pedra deixadas pelos homens de asas douradas.
            
Descerrou as pesadas pálpebras e seus grandes olhos puderam ver muito longe. A outra margem do lago, onde foi plantada a civilização. Num último esforço, Kaburá, libertou a idade que estava presa na sua pedra e deitou-se ao solo já na forma de um monólito.






06 abril, 2017

ÁGUA DE MARÇO

Por:
Antonio Pádua Silva Sousa
Regional MARANHÃO
E-mail: padua@elo.com.br





As águas de março cumpriram o seu desiderato: entregaram ao mês de Abril uma Matriz molhada e vestindo um verde novo em folha. O Rio Buriti, há tantos anos adormecido na sua calha, voltou aos becos da cidade para olhar de perto o asfalto, que por força dessas águas, está sendo levado pelas enxurradas que descem os morros, deixando à mostra o piso da cidade cheio de crateras e lama, que necessitarão de reparos urgentes sob pena de inviabilizar o tráfego nas ruas. 

As pedras que jaziam cobertas por esse derivado do petróleo, de péssima qualidade é bom que se diga, e que as águas levaram, vieram daqueles morros e pelas mãos de operários transformaram os antigos areais num calçamento que logo se revelaria o algoz dos sapatos da mulheres. 

A presença de carretas de alta tonelagem circulando na cidade contribui para piorar a situação. A Rua Rio Branco não foi preparada para receber esses monstros de rodas. Some-se ao prejuízo urbano, o desassossego das famílias, agredidas pela intranquilidade que tomou conta de nossa cidade.

Há de haver uma maneira de retirar essas monstruosidades das nossas ruas. Não ganhamos nada com elas. Basta-nos as infernizantes motos e seus aloprados condutores para transformarem nossa cidade, outrora tão pacata, nesse inferno urbano de hoje.

Mas voltando às águas. É bom ver o Rio Buriti cheio. É como se a natureza nos desse uma nova chance para pensarmos nesse nosso irmão líquido. Os homens não têm o desprendimento da água. Dela depende, mas não a respeita. O nosso rio é um exemplo desse descaso. Essas águas passarão, quando virão outras? Pensemos no nosso rio.

Abril é mês de chuvas mil. Esperemos que assim o seja. Tudo indica que este ano “os dias grandes” serão de fartura. Que o mês de maio nos traga águas limpas e sem raios. A natureza fez a sua parte, façamos a nossa. Esse inverno rico em águas mostra-nos “que Deus aperta, mas não enforca”. O mal é mesmo coisa do homem.



26 fevereiro, 2017

A NUVEM E EU

Por:
Michel Herbert Alves Florêncio
Regional MARANHÃO










A 10 mil pés, voando do norte ao sul do Brasil
neste imenso céu azul
consegui enfim extrair de ti, além das gotas da chuva,
a tua essência.

Notei-te tão pertinho de mim, ora homogênea, pura e límpida,
leve plenitude que segue, sem destino.
Ora densa, escura, informe e resistente ao vento, como eu.

Ora divinamente útil e até suficientemente sábia
para assim poder abrandar a ira do sol.
Ora revolta, uma verdadeira inversão do mar,
que deságua torrentes naufragando na terra,
culpados inocentes.

Tal qual a nuvem, multiforme em suas várias dimensões,
tento harmonizar na minha inquietude,
a terra, o mar e o céu,
em chuvas de versos em linhas de qualquer papel.

Assim como a nuvem, evaporo-me neste torrão
transpasso em muito ares sem perder jamais
de vista a minha missão.
Sou a própria substância em sentimentos
que inesperadamente se decompõe em gotas
trazendo refrigério ao mais ambíguo coração.
Está aí, enfim, a minha vocação.



10 fevereiro, 2017

O GALO DA MADRUGADA

Por:
Márcia da Silva Sousa
Regional MARANHÃO
E-mail: silvasousa_m@hotmail.com













Dona “Dos Anjos” ou Maria de Durval, como é mais conhecida Dona Maria dos Anjos, é casada com “Seu”Durval  e foi uma das primeiras moradoras da Boa Vista. Nascera ali, pelo que se lembra. Ali se criara e se casara com Durval, jovem que cultivava flores “de defunto” para vender na praça do cemitério do Gavião. Durval é um homem forte e orgulhoso do ofício, que só abandonou por imposição dos filhos, após um AVC que o deixou meio sem juízo. A Boa Vista é uma comunidade rural que surgiu entre São José de Ribamar e São Luís, sem que ninguém soubesse dizer, até bem pouco tempo, a qual dos dois municípios pertencia. Bom para alguns políticos, que lá arrebanhavam votos e depois se eximiam da responsabilidade de promover as benfeitorias que prometeram, visto que era ali uma espécie de limbo intermunicipal.  
           
Dos Anjos é uma mulher vigorosa, de olhar severo, raciocínio rápido e um humor peculiar. Matriarca no amplo sentido da palavra é respeitada com reverência por filhos, netos e pela comunidade. A conheci anos atrás, através de um filho seu que se tornara meu funcionário e posteriormente meu compadre.  Fizemos amizade fácil, admiração mútua, coisa rara entre mulheres, assim, logo de cara. Frequentar o sítio de Dos Anjos é sempre um retorno à infância na casa dos meus avós, tudo muito parecido.  Costumava levar meus filhos lá para brincarem enquanto ficávamos numa prosa gostosa à sombra de uma mangueira. Me divertia muito com o papagaio, vendo a criação de galinhas da terra e os porcos criados presos à base de frutas e sobras de comida, além dos lindos canteiros com flores “de defunto” de toda sorte, que seu Durval fazia questão de mostrar cheio de orgulho e sempre me oferecia um buquê que eu aceitava meio a contragosto, vai agourar outra. Uma  gorda galinha, guisada com batatas e famoso pirão de parida eram servidos nestas ocasiões, acompanhados de arroz pilado em casa, macarrão na manteiga de garrafa, fava, feijão com jabá, salada de alface e tomates cultivados lá mesmo,  e para arrematar algumas cervejas estalando de geladas. O banquete me nocauteava e eu caía em uma rede na varanda, onde passava o resto da tarde.
           
Sabedora de minha preferência pelas coisas do mato, vez por outra recebo em casa uma galinha caipira, um capão ou um pato, todos devidamente tratados, só no ponto de por na panela, gentileza que Dos Anjos faz questão de manter, ignorando meus falsos protestos para que não se incomode comigo. Ela manda e ponto final. 
Um dia, cedinho, recebi uma ligação, era Dos Anjos, esbaforida e falando mais alto que de costume:
           
- Bom dia senhora! A senhora quer um galo pro seu almoço amanha? É que tem um galo doido aqui que só ataca as meninas! Acabou de dar uma esporada na barriga de uma neta minha! Senhora, isso tá de um jeito que ninguém pode mais ir no terreiro!
           
- Calma mulher! A menina tá muito ferida? Mande esse galo pra cá que se dá uma boa serventia a ele!
           
Ao voltar do trabalho à noitinha, me deparo com um galo enorme, vivo, amarrado dentro de um cofo, emitindo um som macabro, quase um grunhido e muito ameaçador. Pensei: pra Dos Anjos não ter dado cabo do bicho ele deve ser o cão em forma de galo! Mas penalizada com a situação do prisioneiro pedi ao meu funcionário que acabasse logo com aquilo, mate logo esse bicho que amanhã eu tempero. Tomei um banho e me deitei pensando nos galos que povoaram minha vida, os garnizés valentes que me botavam pra correr quando menina, o imponente galo branco com rabo de penacho amarelo que mandava no terreiro da casa da vovó, o galo azulado que só vi na casa do tio Zé e jurava que era um urubu, o galo magro, coadjuvante no terreiro do galo branco e que acabou sendo devorado por uma mucura. Tantos galos, sono, cansaço... adormeci.
           
Acordei de um salto com um barulho ensurdecedor, atordoada tentava entender o que acontecera, o relógio marcava 4h20min!  Outro estrondo! Outro susto! Que é isso?  Parei. O coração querendo sair pela boca! Silêncio... Devagar olhei entre as frestas da janela, nada. De repente outro estrondo e novo susto. Era o galo!!! Ele não matou o galo que agora estava cantando, retumbante, rouco e forte, a plenos pulmões! E assim se manteve até o dia clarear. E não houve na vizinhança um cristão que não tivesse sido acordado pelo infame. Os condicionadores de ar, as paredes à prova de som, nada, absolutamente nada abafava o canto sobrenatural daquele galo. Ao sair de casa deparei com alguns vizinhos na rua. Todos querendo saber de onde surgira o galo da madrugada. Com a cara mais limpa me fiz de desentendida: eu não ouvi nada, estava tão cansada que apaguei na cama.  E saí de fininho, deixando em casa, recomendações severas quanto ao destino do galo doido. Passei a manhã com sono, trabalhando em ponto morto e pensando naquele galo. Ao chegar para o almoço lá estava ele, lindo, ao molho pardo, numa travessa de louça, acompanhado de arroz pilado em casa e pirão de farinha d’água. Abri uma cerveja trincando de gelada, depois dormi a tarde toda.



***


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