Mostrando postagens com marcador José Maria Chaves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Maria Chaves. Mostrar todas as postagens

11 janeiro, 2018

O AVISO DO VENTO

Por:
José Maria Chaves
Regional CEARÁ
E-mail: jmchaves37@gmail.com








As horas já avançavam galopantes noite adentro, num mês de novembro cálido, para um ano de inverno escasso. Indubitavelmente aquele calor obrigava, muitas vezes, dona Nozinha fazer semiaberta, quase de um modo permanente, a janela da frente, em conjugação com a parte superior da porta da cozinha, inteiramente escancarada, com o fito de propiciar uma amena circulação de ar no interior da casa.

Seu verdadeiro nome era Leonor, mas, carinhosamente, desde pequena, todos a tratavam por Nozinha, até mesmo para fazer coerência com sua delicadeza de gesto e nobreza de comportamento sempre mantidos. Ainda não chegara aos trinta anos e já carregava o pesado fardo da administração de uma família constituída por seis filhos menores, com o primogênito havendo completado nove anos e a caçula, engatinhante, ensaiando os primeiros passos. Seu marido, fruto de um romance sem a aprovação paterna, resolvera tentar a vida nos seringais da Amazônia, e, há mais de dez meses estava ausente. Dificilmente ela recebia notícias dele, isso acontecendo na maioria das vezes através de retirantes que voltavam, quase sempre, para escapar da malária ou de qualquer outra doença palustre. A última informação, trazida por Abdoral de Sousa, que, com o diagnóstico de filariose tivera que retornar a sua terra a cata de tratamento, não era muito alvissareira, pelo contrário a deixara preocupada, pois soubera que seu marido havia baixado a enfermaria do Seringal com muita febre e a pele bem amarelada. Carta mesmo recebera apenas uma, depois de noventa dias do afastamento, trazendo dentro do envelope a quantia de duzentos mil reis. Simão, quando rapaz, muito bonito é bom que se frise, ficara afamado por seu procedimento rotulado de irresponsável, com a característica de namorador, brincalhão, dado ao jogo de baralho, não se o pretendendo como genro, qualquer patriarca de respeito como era o caso do Coronel Antonio Joaquim. 

Por isso, se contava a grande decepção do abastado comerciante com Nozinha, sua linda e prezada filha caçula, no próprio instante que a impusera o fim do namoro. Destarte, enfrentando momentos de grande necessidade, guardara para si os problemas, não tendo coragem de levá-los a seu carrancudo pai. Se, ao menos sua mãe estivesse viva, porém uma enfermidade insidiosa causara a sua morte, nem bem passara um ano de seu casamento. Conseguira com o Padre Edgard, caridoso pároco  da cidadezinha, o emprego de zeladora da Igreja Matriz. Tal ocupação viera mesmo a calhar, porquanto fora bem alicerçada na educação cristã, fazendo o seu trabalho de limpeza e cuidados outros com a Matriz amenizarem os seus percalços e por vezes os sublimar. As crianças menores eram cuidadas pelos irmãos mais velhos, ou, na ausência destes, quando de suas obrigações escolares, pela velha Maria Pedra, uma descendente de escravos que se arranchara naquela humilde casa. Claro estava, a não existência de formalidade pecuniária, já que implicitamente tudo se traduzia como troca de favores. 

Naquela noite, refeita com um salutar banho frio, metida num roupão longo que encobria a surrada camisola, com todos aninhados – como assim chamava os filhos acomodados em suas redes – já dormindo, Nozinha visando conciliar o sono, também porque escrevendo para Simão lhe servia como ataráxico, descarregando as saudades do seu amado na escrita, adjutorizada pela luz da lamparina de pavio longo, acomodou-se na grande mesa da sala de jantar, fez mergulhar ligeiramente a pena no tinteiro, e, em um papel pautado, começou a carta: Querido Simão; no silêncio desta noite de 17 de novembro, quando nossos filhos já adormeceram, volto a lhe escrever, pela quarta vez, sem que tenha tido o alento de receber uma segunda cartinha sua. A saudade é infinda e as lágrimas que rolam no meu rosto... Foi obrigada a interromper o seu desabafo escrito, por que uma lufada de vento, sem explicação plausível porquanto o tempo estava parado, apagou a chama que alumiava. Com discreto nervosismo, apalpou o roupão e, sem dificuldade, encontrou a caixa de fósforos. Atritou um palito a caixa, novamente pondo acesa a lamparina. Levantou-se e teve o cuidado de se dirigir a sala, para fechar totalmente a janela, no sentido de evitar qualquer sopro de vento que viesse interrompê-la de novo. No entanto, nem sequer continuou a escrita, uma vez que, até de modo assombroso, a tampa da caixa de sapatos, que estava numa das cadeiras ao redor da mesa, voou e, com o vento produzido, ato contínuo, põe a sala às escuras. Nozinha, em pânico, chorando muito, saiu porta a fora, atravessou a rua, até a casa de seu cunhado, e, freneticamente bateu na sua porta:

– Aniceto, Aniceto...

O irmão mais velho de Simão imediatamente atendeu, algo surpreso e preocupado, levantando o farol acima de sua cabeças:

– Que é isso Nozinha? O que aconteceu? Por que você está chorando?

– Simão morreu, Aniceto, recebi um aviso.

– Que é isso querida cunhada, você está muito nervosa e tudo a impressiona desfavoravelmente.

Após o breve histórico do acontecido, Aniceto procurou acalmá-la, principalmente quando fez a promessa  de tomar providências, imediatamente na manhã seguinte, auscultando o Escritório de Alistamento em Fortaleza, acerca de noticias do seu irmão e marido de Leonor. Ah, isso ele faria, com certeza, quando exigiria a mais breve comunicação pelo rádio do Escritório com o Seringal.

Com efeito, por volta das dez horas da manhã do dia 18 de novembro, estava sendo atendido pelo gerente de alistamento, mas, de princípio tomou conhecimento que a manutenção estava tentando corrigir uma pane no transmissor do Seringal. e. em sendo assim, aguardasse em casa que, quando houvesse a reintegração, colheria noticias do alistado Simão das Chagas.

Finalmente, uma semana depois, Aniceto recebeu uma comunicação telegráfica na qual estava noticiado o falecimento de Simão na noite de 17 de novembro, próximo passado, de impaludismo, e, que devido as dificuldades óbvias de transporte, o sepultamento já se dera na manhã do dia 19, depois da liberação do corpo, obedecidas as exigências de praxe.

Estava definitivamente explicado o aviso, na noite do vento fatídico, que Nozinha não precisava mais escrever a Simão.



27 fevereiro, 2017

LAURO MAIA - UM POETA QUE TAMBÉM É RUA

Por:
José Maria Chaves
Regional CEARÁ

















"Deus reprova os arrogantes
Pois, para engano de alguns,
Sempre esconde os diamantes
Entre as pedras mais comuns."

Pois bem, com esta trova desejo retratar Lauro Maia Teles - como poeta e compositor – senão a nossa maior expressão litero-musical, seguramente, um lapidado e burilado diamante, postado de forma humilde entre grosseiras pedras.

Lauro Maia nasceu na casa de nº 1966 do Boulevard Visconde de Cauype, atual Avenida da Universidade, em 06 de setembro (Cartório João de Deus) ou 06 de novembro (Verbum ad Verbum) do ano da Graça de 1913. Filho do odontólogo Antônio Borges Teles e da professora de piano Laura Maia Teles.

Seu aprendizado musical certamente se inicia no berço, com sua mãe e, já aos 10 anos de idade, vestindo calças curtas, substituía o pianista oficial do Cine Majestic. Além de exímio ao piano, dedicou-se,outrossim, ao estudo da flauta e do acordeom. Como acordeonista foi o mais jovem integrante da orquestra da PRE-9 regida pelo maestro Euclides Silva Novo. Na pioneira emissora de radiodifusão do Ceará, logo assumiu o cargo de Diretor Artístico e já era um festejado compositor. Enquanto criança esteve matriculado no Colégio Marista e, adolescente,  transferiu-se para o Liceu onde cumpriu todo o resto da programação ginasial e do científico. A essa altura da vida, já era frequentador da roda boêmia de Fortaleza e, pelo menos duas vezes na semana, acompanhado do seu amigo e parceiro – notável violinista – Aleardo de Freitas, fazia serenatas, conquistando amores diferentes pelos desempenhos poéticos e românticos de suas composições.

Aos 25 anos, bacharelando em direito, compõe a “Valsa do Rubi” para a cerimônia de formatura que, disseram as línguas ferinas, não compareceu por haver esquecido a hora, enquanto festejava, em um bar, bebendo com alguns amigos.

Seu nome, já consagrado como compositor musical, letrista e arranjador, constou da lista negra dos Integralistas de Petrópolis, com vários outros cearenses ilustres, entre os quais o Dr. Bié eo Professor Cláudio Martins.

Em 1940, após dois anos de namoro, casou com Djanira, irmã de Humberto Teixeira (que, por residir no Rio de Janeiro, embora cearense de Iguatu, não o conhecia pessoalmente).Em junho de 1942 nasceu sua primogênita, Eva, e em dezembro de 1943 veio ao mundo Lauro Filho, já residindo na antiga Capital da República (Rio de Janeiro). De principio entregava suas composições para a interpretação e gravação pelos Vocalistas Tropicais e/ou 4 Ases e 1 Coringa. Dentre as muitas gravações do início, poderia citar o batuque “Eu vi um leão” e a marcha “ Eu sei o que é”, além dos sambas “Eis o meu samba” e “ Nosso cruzeiro”. Com os “Vocalistas Tropicais” – vitorioso e harmonioso conjunto cearense – lançou um novo ritmo,o balanço,com a música “Balancê” -“oi balancê, balança/balança pra lá e pra cá/ eu vou até de manhã só nesse balanciá”. Com o sambista Ciro Monteiro, deixou a composição “Deus me perdoe”, que foi gravada -“Deus me perdoe, mas levar esta vida qu’eu levo é melhor morrer...”.

Com Orlando Silva, o cantor das multidões, gravou muitos sucessos, tais como “Febre de Amor”, “Poema Imortal” e “Quando dois destinos divergem” – “Acaso poderás dizer qual de nós é o culpado/ e qual a razão de tudo ter desmoronado/ Nossa vida agora é um verdadeiro caos/ semeada de incrível solidão/ e pontilhada só de pensamentos maus...”.

Em 1942, volta a Fortaleza, conhece e integra a Escola de Samba, que foi batizada com o seu nome. É bom que frise: A Escola de Samba Lauro Maia foi criada pelo músico Canelinha, obviamente para conquistar o compositor que sempre abiscoitava o 1º prémio, disputando pela “Escola de Samba Prova de Fogo”. Em sua criação, a Escola de Samba Lauro Maia contava em suas fileiras com o também pianista e compositor Luiz Assunção. Desde a sua fundação até 1945 a Escola de Samba Lauro Maia sempre foi vitoriosa.  

Passada a época carnavalesca, Lauro volta ao Rio de Janeiro onde se emprega na Firma Irmãos Vitale – Editor de Música - e também foi contratado pela Rádio Tupi, como arranjador e orquestrador dos variados temas musicais dos seus programas de estúdio. Além desses dois estafantes encargos, ainda firmou expediente noturno – como pianista – com o Cassino Atlântico. Fumava muito, bebia em demasia e se alimentava pouco e mal. Confessava para seus amigos de boemia, especialmente Chiquinho da Lapa, seu quase irmão, que morria de saudades da sua terra. Com esse sentimento de ufanismo, compôs:“Eu bem sei que é bem nosso/ o orgulho de um gesto que eleva e seduz/ um gesto altaneiro de audaz jangadeiro/ mandando que todo navio negreiro/ passasse bem longe da Terra da Luz”.

Em 1947, ano de sua última visita a Fortaleza, já com a saúde gravemente abalada, os dois pulmões invadidos pela tuberculose, teve de retornar ao Rio para um internamento no Hospital Santa Maria em Jacarepaguá, famoso por recuperar pacientes tísicos. Debalde foram os esforços. No dia 05 de janeiro de 1950, por coincidência data do trigésimo quinto aniversário de Humberto Teixeira, às vinte horas e trinta minutos, Lauro Maia faleceu.

Em 1952 - e eu estava lá - o samba intitulado “Lauro” foi cantado e chorado por todos nós, no desfile de carnaval da Escola de Samba Luiz Assunção:

“Lauro, eu vim lhe homenagear
Ah, se você fosse vivo
Pra ver sua escola passar,
Oh Lauro!’’.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...