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04 dezembro, 2017

A CURA

Por:
Márcio Ribeiro Leite
Regional BAHIA
Email: dr.biboleite@yahoo.com.br








Hoje, com mais de trinta anos de exercício da medicina, quanto menos parecer médico, melhor. Não porque não ame e respeite a minha profissão, mas porque já não tenho a mesma ideia do que significa o binômio saúde/doença, e, principalmente, não vejo mais o ser humano, o ente aflito que me procura, do mesmo modo. 

Estou cada vez mais distante da ideia ordinária e tradicional de como um médico deve ser. Estou também cada vez mais longe de interpretar a enfermidade como algo simplesmente ruim. Agora sou capaz de entender a enfermidade como um regime reeducador para um sistema que ultrapassou limites. Uma via de cura, afinal. 

A organização primordial está na alma humana, o corpo apenas responde por afinidade. Na grande maioria das situações, são os conflitos anímicos que determinam as patologias. O papel do corpo é quase sempre coadjuvante. Dá trabalho chegar até aí, encarar o desconhecido que a psique (alma) representa, mas de que outra maneira pretendemos "curar" alguém? 

A "cura" do corpo, apenas, não é duradoura. A doença cede aqui, reaparece ali, muda de nome e endereço, mas permanece. Pior, se aprofunda. A medicina do futuro, que já vislumbro em meus estudos e projeções - quântica, se chamaria? - precisará ir fundo na alma humana, entender sua linguagem. Foi encontrando a minha própria alma que descobri a alma do outro.

Em tempos atuais, com tanta pressa e imediatismo, nos satisfazemos, enfermos e curadores, com uma prática meia boca.



16 setembro, 2017

PARA ALÉM DA CURVA DO VENTO...

Por:
Coracy Teixeira Bessa
Regional BAHIA


















Lá, onde o vento faz a curva, tudo começou.

Nem bem se descobriu mulher, estava a se preparar para ser mãe. Sem mesmo se dar conta como e porquê. Não que fosse algo estranho: acontecia sempre, com amigas e outras nem tanto. Curiosidade, indiferença, paixão ou temor, todas as motivações levavam ao mesmo resultado: algo novo em suas vidas, destino igual ao de mães e avós. E o tempo passando, rápido e lento ao mesmo tempo, chegando a lua do nascimento. Mãe Bela reclamando dos gritos, Vó Bilu empurrando-lhe o ventre, Pai Vevé bebendo pinga na porta da tapera, enquanto Salu, fugindo de responsabilidades e carinhos, estropiava o cavalo baio que o levava para onde o Judas perdeu as botas. Onde seria?.

Resguardo vencido, leite escasso sugado à exaustão, o filhote esticava, mas não engrossava, o choro mais fraco se espaçava e... cessou. Mais uma cruz tosca espetada no montículo de terra vermelha, bem nos fundos da capela em ruínas, invadida por cabras lambedoras de tijolos, a mastigar as beiradas dos bancos rústicos que padre Lourenço conseguira prometendo votos para Calu de Tomé. Eleição perdida, o padre se mandara para outras bandas e os devotos ficaram ao Deus dará. Será?. Deinha voltou à plantação: Pai Vevé não dava mais conta – a barriga inchada não deixava. Vó Bilu mal se agüentava nas pernas, gemendo de reumatismo. Sobrava trabalho para Bela e Deinha, faltava comida na mesa da cozinha. Nada mais a perder, Deinha debandou... Sacou?.

Procurou Salu. Como quem não quer perder o que restou da débil esperança que nutrira de mudar de vida, insistiu em se manter honesta, enquanto pôde. Não encontrou trabalho, nem Salu. E deu...

Deu e perdeu: a beleza do corpo jovem, a saúde, a auto-estima. Finalmente, a sanidade. Num crescente processo de alienação, expulsa do puteiro de Carmela, pernoitava nas soleiras de portas comerciais, deambulava entre latões de lixo e pútridas águas de esgotos a céu aberto, dormitava junto a cães, em gramados de praças, enxotava ratos e perseguia baratas que infestavam suas sacolas cheias de trapos e restos. Só não perdeu a ambição de capturar uma “esperança”.

Em busca dela, galgou os degraus da ponte seguindo um arco-íris que surgira após a chuva da manhã. O arco colorido, entretanto, se afastava, à medida que se alçava entre as ferragens da estrutura antiga e sem vigilância. Via-lhe o reflexo nas águas escuras poluídas por fábricas e barracos, palacetes e condomínios.

Via, principalmente, o verde-cana das asas brilhantes, delicadas, do inseto que a encantara na infância. O inseto de salto instantâneo, que a surpreendia e frustrava ao tentar capturá-lo. O gafanhoto estava ali, à sua frente, à altura dos seus olhos extasiados, encarapitado no mais alto da grade de contenção da ponte. Não resistiu: emaranhou os pés descalços entre os arabescos de ferro batido, volutas barrocas e folhagens art-nouveau transplantadas de outras plagas. Alçou o corpo magro, sujo e maltrapilho. Esticou os braços, as mãos ávidas no desejo de capturar algo vivo, belo, inefável – tão inatingível quanto os sonhos que acalentara, lá onde o vento faz a curva.

E a “esperança” voou para além da curva do vento...



14 agosto, 2017

MINHA MÃE E O COLESTRAL

Por:
Iderval Reginaldo Tenório
Regional BAHIA



















A minha mamãe está com 98 anos de idade e foi ao seu geriatra para mais uma consulta. Ao terminar o atendimento, o médico orientou que a mesma passasse dois meses comendo apenas carne branca devido ao colesterol. Enfatizou que, quanto mais branca, menos colesterol.

Sessenta dias depois o médico fez a sua reavaliação, olhou os exames, todos dentro dos limites da normalidade. Parabenizou a minha querida matriarca e perguntou:

- Dona Tonha, a senhora está de parabéns. Qual foi das carnes brancas que a senhora mais comeu durantes estes sessenta dias? Foi frango ou peixe?

E minha mãe, na bucha, respondeu:

- Todos os dias doutor eu comia “toicim” de porco assado no almoço e no jantar.

O médico retrucou:

- “Toicim”, dona Tonha?! “Toicim” de porco!?

- Claro, doutor! Foi a carne mais branca que eu encontrei. Ou existe outra mais branca?

O médico ficou pasmo. Mas, de imediato, ela completou:

- Brincadeira, doutor, brincadeira. Comi mesmo foi muito peixe...




25 julho, 2017

PÔR DO SOL EM HUMAITÁ

Por:
Rosalvo Abreu
Regional BAHIA 











Era verão novamente.  Um ano já se passou, desde o único beijo. Sempre o mesmo desejo, sentir outra vez a mesma emoção. Por que o amor veio visitá-lo e não ficou? Qual o sentido daquela saudade? Qual a essência daquela força tão atrativa?
Francisco tinha vivido algo diferente. Aos trinta anos, o que agora ele sentia era estranho e único, jamais tivera tantas lembranças e necessidade de alguém. Desde o início das suas primeiras férias em Salvador, tudo acontecia de maneira mágica, inebriante. O primeiro pôr do sol vivido na Bahia foi no forte do Humaitá. Naquela tarde o mar e o sol seriam cúmplices. A vida trazia pela oportunidade um encontro imprevisto.
Maria precisava registrar o belo daquele instante. Como se fosse possível capturar o significado do entardecer. Os seus olhares se prenderam pelos raios do sol da Baía de Todos os Santos. Francisco sentiu um frenesi, algo paralisante quando olhou para aquele rosto. Olhos grandes, fortes, esverdeados, que se confundia com o próprio mar. O contorno perfeito dos lábios o fez sentir o sabor do beijo mesmo antes de experimentá-lo.
– Oi! Você pode tirar uma foto minha? Aqui é tudo muito lindo. Preciso registrar. Falou Maria, já oferecendo o celular, na certeza do sim. – Claro, venha pra cá. Aqui vai ficar melhor. Recoste na mureta e fique de lado. Francisco começou a explicar, como um pintor diante da musa que precisava gravar na sua tela. Maria obedecia a cada solicitação, deixando o sorriso revelar a sua entrega.
Maria era uma mineira bela e simples. Sem esforço para o encantamento. Seu olhar atento, espontâneo e o sorriso discreto trazia mais magia para aquela alma feminina. Ela já estava indo embora. Aquela era sua última tarde em Salvador. À noite estaria retornando para Belo Horizonte. Além dos presentes da terra, levaria algo mais inquietante. O desejo de conhecer um pouco mais Francisco. Percebia que de alguma forma algo estaria ligando-os a partir daquele momento. Ela não poderia chamar aquilo de amor, talvez puro desejo. Mas, o encanto nasce dessa vontade.
Francisco, desde então, jamais esqueceria a expressão daquela mulher. Mesmo sem ter a certeza que pudesse encontrá-la novamente. Ficou a delícia do beijo ao pôr do sol, a presença marcante dos seus olhos e o sorriso leve e meigo. Estas lembranças ficariam tão presentes na sua vida que agora seriam chamados de saudade. A partir daquele encontro fortuito, nenhum pôr do sol seria mais em vão.



30 maio, 2017

OLHOS DE ÂMBAR EM CORPO DE ÉBANO

Por:
Márcio Ribeiro Leite
Regional BAHIA
Email: dr.biboleite@yahoo.com.br









A primeira vez em que o vi, em frente a uma porta cerrada de loja, tomei um susto. Imóvel, cor de ébano, apenas o par de olhos de âmbar se mexia. Seminu, cabelos desgrenhados, rosto tomado por uma barba cheia e descuidada. Tudo nele era desalinho, incomum, inclusive o fato de esperar permanentemente uma porta se abrir.
Da segunda vez, mais encorajado, busquei por detalhes. Os mesmos farrapos, a postura de soldado inglês se pudéssemos afastar a sujeira que o vestia, o odor. Mas o mesmo par de olhos vivos a perscrutar a noite.
Na terceira vez, não resisti; perguntei seu nome. Ele respondeu, ainda olhando a noite, que nomes não tinham importância. Já não lembrava o seu. Não alimentou minha impertinência.
Na quarta vez ousei. Perguntei o que fazia ali, na mesma posição, sempre à mesma hora. Então ele me fitou, como ainda não percebera. Tinha informação confidencial de que a porta de seu mundo se abriria a qualquer momento. E segundo as coordenadas, ele deveria estar a postos, ou perderia a chance de adentrá-lo. Sabia o momento, mas o dia... bem, o dia não lhe havia sido revelado.

E com a profundidade de seus olhos de âmbar, pediu dois reais para um café.


23 abril, 2017

O BEM-TE-VI

Por:
Ernane Nelson Antunes Gusmão
Regional BAHIA











A suavidade anil do morno leito
se abre para o azul do nosso amor
e me recebe, inteiro, quando deito
ao lado do teu corpo e teu calor.

Nos enroscamos... beijos cobrem o peito,
eu me derramo sobre o teu pudor;
as mil carícias de tua mão afeito,
deixo me levem, para onde for.

Nós nos julgamos longe dos olhares
das águas, terra, e também dos ares,
... mas eis que a ave bem de nós sorri

Espreita entre amêndoas o rameiro,
estica os olhos, bico fofoqueiro,
pela janela grita: - Bem-te-vi!...




20 março, 2017

HOMENDIGO

Por:
Dagoberto Sant'Anna e Souza
Regional BAHIA
















O mendigo foi um homem de bem, digo,
é um homem de bem
e bendigo o homem que foi.

0 mendigo é hoje
um homem de bem consigo
e
não consigo estar de bem
comigo
vendo no homem de hoje,
o mendigo,
o homem que ontem, nem digo
foi meu amigo.



10 fevereiro, 2017

RONDA NOSTÁLGICA

Por:
Ildo Simões Ramos
Regional BAHIA
E-mail: ildosimoes@uol.com.br









Entrado na casa dos enta, começo a render-me à fila dos cartões de crédito, dos planos de saúde, dos passes livres para as indefectíveis pongas nos coletivos dos motoristas apressados. O último esculápio com quem me consultei, nos quinze minutos que recomenda a Organização Mundial de Saúde, afirmou sem me olhar nos olhos, onde estavam as marcas da traição e da mentira, que eu tinha uma saúde de ferro, meus dados pressóricos estavam ótimos. Iria passar apenas uma série de exames de rotina e me recomendava fazer umas caminhadas que eram a coqueluche do momento. A lista de exames perdia um pouco para os volumes de meu Pequeno Dicionário de Língua Portuguesa o que começou por desencorajar-me. Sem mexer um músculo facial e sem demonstrar dúvidas quanto às recomendações médicas, saí daquele consumitório sentindo-me com a vida por um fio. Restavam-me as caminhadas. Parti pras caminhadas matinais, por minha velha e querida Cidade do Salvador na tentativa dum reencontro nostálgico. Não gosto do termo porque nostalgia sempre me dá idéia de coisa antiga, ultrapassada, estradas sem volta. Mas já que me foi de há muito a adolescência fui curtir a jovem senhora de pouco mais de quatrocentos anos. Temos, portanto, muito que recordar. Caminho por suas ruas de outrora passeios bem cuidados, varridos, lavados e até, por vezes, perfumados pra tirar o odor da necessidade fisiológica do cãozinho desavisado que deixou sua marca por ali. Na esquina um edifício modernoso, de arquitetura, cujo autor não deve ter empunhado mais que uma colher de pedreiro. Mais adiante uma ruela onde sofri minha primeira desilusão amorosa. Faz tanto tempo que sequer me recordo da face da suposta doce amada. Só me lembro de ter amargado uma ressaca homérica de cachaça e coca-cola.
             
É um pouco mais que madrugada e o silêncio já foi rompido por coletivo fumacento, motorista de maus bofes que passa tirando fino nas minhas pernas já não tão ágeis. Ouço uma voz que a princípio não me dou conta. Passados alguns segundos repete-se a mesma indagação. Miro em volta e não há, no momento, vivalma. Tento testar-me a percepção e, parece, as  coisas estão nos seus devidos lugares. Se não estou sendo vítima de alucinações a voz é de minha cidade. Lembro-me de ter lido nalgum periódico que as cidades são organismos vivos. Então é isto. A voz é da minha cidade. Procuro responder a primeira indagação que é sobre a perplexidade de tanta mudança nas suas artérias. A partir daí estabelecemos um salutar diálogo meio surrealista, é claro, porque dava a entender pelas pessoas que iam cruzando comigo, que alguns neurônios tinham escapado de minha cachola. Não dei tratos à bola e fui dando asas à minha imaginação. Perguntei pelas marinetes, pelos bondes da linha circular, alguns números ainda guardados na memória, que diziam do destino: Mata Escura, Fazenda Garcia, Ribeira, Barra.
           
- Estão nos álbuns de fotografias dos saudosistas. Estou sofrendo as mesmas doenças de que certamente você está acometido e não me resta fazer muita coisa. Não tenho médicos, mas paisagistas, arquitetos que cortam minhas entranhas com retroescavadeiras e vão levando, Deus sabe pra onde os meus vestidos de menina-moça,  meus sapatinhos de cristal de Cinderela e, pior, não vejo no fim dos diversos túneis que escavaram, uma luz onde possa vislumbrar um príncipe que num beijo mágico venha me despertar desta letargia. Aos olhos dos desavisados estou sendo rejuvenescida, sem se darem conta de que estou perdendo a fonte de aconchego dos meus diletos filhos de que você é um exemplo que estou perdendo.
           
Falo de minha última consulta, da mentira estampada na cara do médico que me atendeu, conto as mazelas dos desgovernos que nos atormentam. Digo dos meus cabelos brancos, das pernas a esta altura meio trôpegas pelo que peço que me deixe sentar num dos bancos da pracinha à minha frente que ainda guarda uma corbeille e fitinhas de recente inauguração. Confesso que não fui feliz no elogio que fiz do logradouro público que agora mitiga o meu cansaço.

- Fique à vontade. Onde está este banquinho era um pé de goiabeira em que alguns sanhaços matavam a fome devorando seus suculentos frutos e descansavam de seu vôo às vezes fatigante. Ainda me presenteavam com uns gorjeios meio desafinados, mas eu ficava feliz. Quem não gosta da voz da Natureza? Alguns moleques que voltavam da escola às vezes lhe atiravam pedras de baleadeira, mas pra minha felicidade tinham péssima pontaria e os passaricos tinham asas velozes.  Eu ria e eles se assustavam pensando ser alma do outro mundo e saiam em desabalada carreira.
           
Longe de mim, magoar minha cidade, mas a pracinha e seu banco de design moderno tinham aliviado as contrações dos meus músculos fatigados. Deixei que ela completasse a queixa e fui andando. Chego à beira mar e olho aquele mundão de água a transformar-se em ondas e quebrar na praia. Fico indignado porque com os sargaços deixados pela maré que agora retorna em vazante, vem uma garrafa plástica certamente deixada em alto-mar por desavisado navegante. O mar tem uma cor indefinida. Não me sinto à vontade pra descrever o seu matiz. Fico entre perplexo e indignado. De novo me chegam aos ouvidos um murmúrio de voz que de imediato a reconheço.
           
- O mar / quando quebra na praia / é bonito / é bonito.

- Sei que está pensando como hoje eu penso. Pedir ao vate cantador que mude o tempo do verbo. Já me levaram o verde, cortaram minhas entranhas, trocaram à revelia meus vistosos trajes de que tanto me orgulhava.  Confesso que estou apreensiva, pois um dia podem entender de me levar a alma.
           

Peço socorro a Casemiro e retorno pra casa a recitar-lhe uns versos em respeitoso silêncio “ Ah que saudades eu tenho/ da aurora da minha vida/ da minha infância querida...”








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