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16 novembro, 2017

PARA QUEM JÁ PASSOU PELO DESGOSTO DE CHORAR A MORTE DE UM CÃO

Por:
Eberth Franco Vêncio
Regional GOIÁS
E-mail: eberthdr@terra.com.br










Era amor. Era uma dor diferente, assim, de média para grande, se é que me entendem. Para todos os efeitos, a dor firme e forte. Não era a perda de um parente, de um amigo, de um colega de trabalho. Era o fim da velha fidelidade canina, uma coisa difícil de explicar, um sentimento de afeto mais legítimo do que o de algumas pessoas que eu cria fossem confiáveis. Já fui mordido por gente inúmeras vezes. Outro dia mesmo, enquanto me fazia uma visita, um cunhado (cunhados sendo cunhados) vociferou que criar animais de estimação é uma babaquice, um completo absurdo, pois, eles, os bichos, aumentam sobremaneira a emissão de carbono para a atmosfera, além de representar um gasto supérfluo às famílias, movimentando um mercado pet de milhões de reais, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Queria que Lola o mordesse na canela, mas, ela não mordia ninguém. Nesse quesito, era mais civilizada do que eu.
Estou de brincadeira. Eu gosto do meu cunhado. Faz mais de 20 anos que estou pegando a irmã dele. Estou só tentando me acalmar, me recompor para continuar escrevendo. Esta é uma curta história de sofrimento, dentre tantas do corolário humano. Há mais tristeza que felicidade, isso é fato. Todo mundo carrega uma desgraça a tiracolo para jogar na roda e impressionar os convivas. Os seres humanos são dramáticos. Não somos como os cachorros. A gente gosta de florear as coisas, de criar comoção, de desfilar os percalços, como se eles fossem exclusivos. As dores são todas iguais, só mudam de endereço.
Acabo de chegar do pet shop. Lá, fui informado pela veterinária responsável pelo estabelecimento que Lola, a cadelinha, personagem assídua das minhas crônicas, tinha morrido.
— Como assim, “morreu?”, eu quis saber, abilolado, aturdido, pois ela aparentava gozar uma saúde de ferro. Era a morte me pegando com as calças nas mãos. Moça, por favor, não chore, eu pedi, com a voz embargada, louco de vontade de chorar junto.
— Ataque cardíaco, ela disse com o rosto ensopado.
— Como assim, “ataque cardíaco?”, eu pensava que isso era uma particularidade dos seres humanos.
Enquanto acariciava Lola morta sobre a bancada, palpei, com minúcias, cada centímetro do seu corpo já enrijecido, para me certificar se havia ou se não havia algum sinal de ferimento, um hematoma, uma fratura, indícios de maus tratos. Isso é horrível, a gente desconfia das pessoas até nessas horas. Lucubrei que ela pudesse ter caído da maca ou ter sido eletrocutada, acidentalmente, durante a secagem do pelo. Sei lá. Quanta bobagem. Há muita criatividade e liberdade de expressão, em matéria de se conspirar. Apesar do sofrimento e da comoção coletiva dentro do pet shop, eu estava sendo eu mesmo, ou seja, aquele homem de sempre: centrado, aparentemente calmo, racional e capcioso, uma verdadeira lástima.
No final das contas, o que mais eu podia fazer senão aceitar, resignar-me frente as explicações fornecidas pela veterinária? Apesar de ser um animal jovem, Lola tinha sofrido um mal súbito, enquanto tomava banho. Um piripaque. Começou a babar, ficou ofegante e… Pimba! Uma arritmia. Um infarto, provavelmente. Quem diria: os cães também enfartavam. Esses bichos só faltavam falar mesmo, pois, enfartar eles já enfartavam. Tava ali a comprovação do fato. Apesar do fatídico e inesperado transtorno que acometeu a minha tarde, paguei a conta e parti. Claro: se eles eram tão inocentes quanto pareciam ser, não fazia o menor sentido que eu não os remunerasse. Era o trabalho deles. Não eram muito bons em dar más notícias, isso não, porém, era o trabalho deles. Aceitaram a grana com olhos inchados e sorrisos de constrangimento.
Consolei a minha companheira da forma que eu dei conta, nunca fui muito bom em acarinhar. Catei os trecos da Lola que estavam esparramados pela casa, guardei-os num depósito para, quem sabe, um dia, perdê-los. Não chorei, mas, fiquei triste, tão triste, que decidi escrever esse texto, uma espécie de tributo, não para Lola, uma cadelinha branca da raça “lhasa apso”, o animal mais feliz, dócil, brincalhão e adorável que conheci na vida, mas, àqueles que, melhor do que eu, entram de sola nos sentimentos, a ponto de amar os animais como se eles fossem alguém da família, às vezes, cometendo os excessos de que falou o meu querido cunhado. São essas as mesmas pessoas sensíveis que amam os amigos, os parentes (inclusive, os cunhados), um emprego, uma planta, um livro, uma banda de rock, um artista famoso do cinema, um desconhecido que pede ajuda.
Lola não era apenas uma cadela. Era o amor latindo dentro de casa, como se a alegria fosse durar para sempre. E todos nos já sabemos que isso, simplesmente, não é possível.


10 fevereiro, 2017

APOLOGIA AO AMOR EM TEMPOS DE CORAÇÃO TRISTE

Por:
Eberth Franco Vêncio
Regional GOIÁS
E-mail: eberthdr@terra.com.br




Um brinde aos corações tristes. Amor. Dor. E uma caixa de isopor repleta de corações congelados. Quem vai querer? Preferiria mil vezes ter rimado amor com Morena Flor, mas não deu certo. Erramos por um mundo faminto de respostas. Fazer o quê? São coisas que acontecem. Mistérios que lotam igrejas mantêm a mística, fazem girar moedas. Vocês não fazem ideia do quanto eu queria andar, andar, andar até gastar os pés, as pernas, o quadril, o corpo inteiro e sumir na paisagem derretida feito uma das estátuas de cera de Madame Tussauds.
Ando cheio de tudo isso, de gente vazia, do trânsito parado, do giro dos motores, da náusea, do calor do momento, da frieza nos olhares, dos milhares de estranhos se estranhando nas entranhas da cidade, dos motoristas gesticulando com histeria, homens e mulheres (que vergonha!) enlouquecendo mutuamente com a falta de espaço, com o excesso de pressa, com um tempo perdido rumo ao trabalho, o qual, claro, não volta nunca mais, senão nas decrépitas recordações da velhice. Será melhor perder totalmente a memória, para não ter o que lamentar? Não há novidade alguma em questionar a vida que se leva. Raro mesmo é ter coragem para desmamar do caos. A gente se amarra em tragédias.
Vejo um mundo guinando celeremente à direita, sendo estúpido, arrogante e individualista a cada dia, enquanto esbraveja palavras de ordem com peito aberto: “Eu quero muros!”. Os truculentos nunca se sentiram tão confiantes. “Quem não tem competência não se estabelece.” Ora, quem estabeleceu essa joça? Não tenho competência, mesmo assim tenho sobrevivido, aos trumps e barrancos, é verdade. Estou na luta. Quase na lata. Mas estou na luta. Não sou sapo, mas dou os meus saltinhos. Velejo sem leme, solenemente entregue a fiapos de esperança por dias melhores. Eu me arvoro numa fé bisonha, é impreciso confessar. Pior que navegar sem rumo é remar com confiança na direção dos destinos de sempre, sem nunca pestanejar, como se fosse a coisa mais certa a fazer. Quisera pular pela escotilha, fugir da matilha que rosna nos calcanhares desse mundo cão, e ser capitão no meu próprio mar de lágrimas.
Um brinde sincero e condoído aos corações sofridos. Eu tenho uma compaixão danada pelos miseráveis. Temos os corações tão parecidos. Essa aqui eu escrevi para os que se sentem um tanto fora dos padrões vigentes. Já vi gente pulando de prédios. Isso não se faz com as plantas dos canteiros, parceiros. Um viva aos que tem pensado em se matar. Parem com isso, chapas! Vamos juntos sobreviver para quebrar a espinha dorsal desse estado de coisas. Se fracassarmos, dancemos.

Um brinde aos desempregados. Aos que quebraram uma perna ou uma empresa buscando empreender. Aos que deram com os burros n’água. Às que se sentiram extremamente sós durante um estupro coletivo. Aos que viram a própria mãe surtar. Aos que enterraram um filho. Aos que plantaram uma árvore, mas ela murchou. Aos que escreveram um livro, mas ele encalhou. Aos desenganados pela medicina. Aos que foram enganados por gente séria, honesta e de muita confiança. Aos que nunca viajaram de avião, mas tiveram a sua vila bombardeada. Aos que disputam migalhas de atenção em campos de refugiados. Aos judiados pelo resto da humanidade.




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