12 março, 2017

O HERÓI DO AMAPÁ




Por:
Alfredo Pereira da Costa
Regional PARÁ
E-mail: alfredo38.pereira@hotmail.com
















Francisco Xavier da Veiga Cabral – o Cabralzinho – foi o defensor da nossa fronteira no extremo norte do Amapá, onde ocorreu o episódio da invasão francesa ao comando do capitão-tenente Lunier e repelida pelos liderados de Francisco Xavier da Veiga Cabral.

O município de Amapá está profundamente ligado à formação histórica do Estado do Amapá. Foi na pequena Vila do Espírito Santo do Amapá que no dia 15 de maio de 1895 as tropas francesas, vindas de Caiena, sob o comando do capitão Lunier, desembarcaram da Fragata Bengali para assumir a posse da área compreendida entre os rios Araguari e Oiapoque, chamada de “Território Contestado”. E foi aqui que os brasileiros resistiram vitoriosamente, sob o comando de Francisco Xavier da Veiga Cabral - o Cabralzinho – como era conhecido. Este foi chamado à presença do capitão Lunier e, ao invés de se render à voz de prisão, desarmou o oficial francês, abatendo-o com a própria arma que portava.

Os franceses tentaram vingar a morte de seu comandante, mas encontraram reação por parte de Desidério Antonio Coelho e Epifânio Pedro da Luz e outros bravos patriotas, que embora em número de quatorze (14) travaram a luta. Como a munição era pouca e os invasores numerosos, nossos patriotas se refugiaram na mata, onde já se encontrava Cabralzinho.

Os franceses aproveitaram a ocasião para fazer um massacre dos brasileiros. Trinta e oito (38) brasileiros foram mortos, entre homens, mulheres e crianças. Os franceses incendiaram e saquearam as casas. Os invasores perderam seis (6) soldados e tiveram outros vinte e dois (22) feridos.

Temendo a baixa da maré, os invasores abandonaram a vila, levando seus feridos e dois (2) prisioneiros: João Lopes e Manoel Gomes Branco.

Tal acontecimento, ocorrido em 15 de maio de 1895, trouxe como consequência para o Brasil e França a vontade de conseguirem uma solução definitiva para o problema de suas fronteiras. Os dois países resolveram, de comum acordo, submeter o caso à imparcialidade de um árbitro neutro, sendo escolhido o presidente da Suíça.

Para defender a causa brasileira foi escolhido o diplomata José Maria da Silva Paranhos, também conhecido como Barão do Rio Branco. Este, baseado nos documentos contidos no livro “Do Oiapoque ao Amazonas”, de Joaquim Caetano da Silva, escrito e publicado em Paris, conseguiu brilhante vitória para o Brasil, com a assinatura do “Laudo de Berna” (ou Laudo Suíço), no dia 1º de dezembro de 1900, o qual dava ao Brasil o direito definitivo de posse da área contestada. Assim, com a vitória do laudo suíço a extrema área fronteiriça foi anexada ao Brasil (Estado do Pará, àquela época).

Afinal, quem era Francisco Xavier da Veiga Cabral? Onde nascera? Francisco Xavier da Veiga Cabral – o Cabralzinho – nasceu em 5 de maio de 1861, em Belém,  capital da então Província do Grão Pará. Era filho de Rodrigo da Veiga Cabral e de D. Maria Cândida da Costa Cabral. Casou-se com D. Altamira Valdomira Vinagre da Veiga Cabral. Desse matrimônio nasceram as filhas Valdomira e Altamira. Valdomira casou-se com Oscar Franco. Altamira casou-se com Alcindo Cacela (nome de uma avenida em Belém).

Seus pais não eram pessoas de posses e pode-se presumir uma infância e juventude de algo dificultoso, para o futuro herói do Amapá. Seu pai fora Senador da Câmara de Belém.

Veiga Cabral, ainda na juventude, tornou-se comerciante, sendo que o seu estabelecimento comercial era chamado de “Pacão”, por sinal seu primeiro epíteto. Exerceu, também, as funções de escrivão da Contadoria de Rendas do Estado do Pará e despachante da Alfândega, no governo republicano.

Tornou-se conhecido do povo paraense em 1891, quando tomou parte, em posição destacada, da Revolta de 11 de junho, que tinha por finalidade depor o governador do Pará, que era o então Capitão-tenente Duarte Huet Bacelar Pinto Guedes. Apesar de contar com o corpo de polícia, o movimento foi sufocado em poucas horas, pois não seria de toda estranha a idéia de uma restauração da monarquia no Pará.

Mais tarde, Veiga Cabral demonstrou ser amigo dedicado de Lauro Sodré, governador do Pará, ao fundar o jornal denominado “O Patriota”. Entretanto, Cabralzinho passou por muitas vicissitudes, que no final o levariam à morte, pois foi vítima de arma branca de seu assassino, conhecido como “mão-de-seda”. Em consequência desse ferimento veio a falecer em 18 de maio de 1905, com 44 anos de idade.

Com o fracasso da Revolução de 1891, Cabralzinho foi obrigado a deixar a capital paraense, a fim de não ser preso. Nessa sua fuga pelo litoral norte, foi costeando o Oceano Atlântico até chegar aos Estados Unidos da América do Norte. Retornando dessa viagem voluntariamente, se “asila” na antiga Vila do Espírito Santo de Amapá, onde mais tarde torna-se personagem central de um episódio decisivo à final incorporação das terras do “Território Contestado” ao território brasileiro.

Nessa região foram descobertas ricas minas de ouro. A área foi invadida por aventureiros, depois de 1893, entre eles os franceses, que há muito tempo pretendiam a posse dessas terras situadas entre os rios Araguari e Oiapoque.

Em 26 de dezembro de 1894, a população da Vila do Espírito Santo de Amapá resolve proclamar um governo próprio, com a finalidade de coibir a invasão constante do chamado “Território Contestado” pelos governos do Brasil e da França. Foi criado, então, um Triunvirato formado por Desidério Antonio Coelho, Francisco Xavier da Veiga Cabral e o cônego Domingos Naltez.

Cabralzinho, já como presidente desse governo autônomo, mandou prender algumas pessoas que na região das minas estavam perseguindo e maltratando os brasileiros. Entre elas estava o negro Trajano, que embora sendo brasileiro, era o líder dos franceses invasores. O governador de Caiena, sabendo da ação de Cabralzinho, na data de 15 de maio de 1895, manda uma expedição militar se apossar da Vila do Espírito Santo de Amapá e levar preso o presidente do Triunvirato. O valente brasileiro, pequenino no tamanho, mas grande nos seus ideais patrióticos, não permite que o estrangeiro se aposse de seu solo; e, com a rapidez de decisão igual às suas faculdades de execução, Cabralzinho resolveu resistir e, conhecendo a luta de capoeira, abateu o comandante francês Luinier, com uma cabeçada no peito. Ao mesmo tempo, apoderou-se de seu revólver e o descarregou à queima-roupa, com um tiro mortal no oficial francês. Subtraindo-se, num salto para trás, à pressão pela escolta, que estava atônita diante da rapidez dos acontecimentos, Cabralzinho correu para a vila chamando às armas a milícia. Respondeu esta, composta de quatorze (14) homens, dos quais treze brasileiros e um norte-americano.

À vista da superioridade numérica da companhia invasora (120 soldados), armada de fuzil Lebel, e com o fim de evitar que fossem cercados, retirou-se Cabralzinho com sua gente até à orla da floresta, onde se distribuíram todos em atiradores dispersos. A companhia teve que recuar diante dessa guerrilha; e, não sabendo quantos homens se escondiam na floresta, embarcou apressadamente no navio “Bengali”, que a trouxe, e desceu o rio com seus feridos e mortos.

Este acontecimento serviu, mais tarde, para que as autoridades brasileiras e francesas resolvessem, de uma vez por todas, a questão de suas fronteiras, que já vinha perdurando duzentos anos, cuja vitória foi alcançada pelo Brasil em 1º de dezembro de 1900, pela brilhante atuação do diplomata Barão do Rio Branco, integrando definitivamente ao patrimônio do território brasileiro a região situada entre os rios Araguari e Oiapoque.

Em justa homenagem ao seu feito heróico, foi erguida uma estátua de Francisco Xavier da Veiga Cabral – o Cabralzinho – no atual município de Amapá, na praça que também tem o seu nome: “Praça Veiga Cabral”. Em Belém, existe um busto de Francisco Xavier da Veiga Cabral na Praça da Trindade, além da Travessa Veiga Cabral no bairro da Cidade Velha.

Dessa forma, por merecimento, foi resgatada a memória do herói do Amapá.


10 março, 2017

PORTAL DA MENTE

Por:
Paulo Camelo de Andrade Almeida
Regional PERNAMBUCO
E-mail: camelo.paulo@gmail.com












A lágrima nos olhos faz presente
a cada vez que fito a tua face,
o teu sorriso, o teu olhar, e nasce
o choro em mim, uma vez mais, silente.
    
A lágrima, portal da minha mente,
espelha o sentimento sem disfarce
e não consigo te esconder que faz-se
em meu futuro um escuro, tão somente.
    
A lágrima, que teima em me aflorar
os olhos, que marejam se te vejo,
é uma perene fonte, que não cessa,
    
e, quando está distante o teu olhar,
ainda assim é enorme esse desejo,
essa loucura em minha face impressa.




08 março, 2017

O DEFEITO É NOSSO

Por:
Zilda Cormack
Regional RIO DE JANEIRO
In memoriam









É uma graça. Com que desenvoltura desfilam entre as pessoas. Parecem que estão em casa e acho mesmo que sim. Percebe-se facilmente que estão acostumados com “gente”, pois circulam livremente de um lado para outro sem adotar qualquer atitude que demonstre medo. Fico pensando: Como são felizes! Desconhecem essa sensação que agora, mais do que nunca, vem norteando a vida das pessoas que transitam obrigatoriamente pelas ruas de cidade, nas estações de trens, metrôs, lanchas, ônibus, etc: O MEDO. Multidões se deslocam por necessidade quando vão para o trabalho, escolas, compras ou ainda a procura de empregos.

Outros a procura de “trabalhos especiais”. Sim, para uma espécie de “gente” assalto se constitui trabalho e dos mais rendosos, se não nem haveria tanta gente a usar esse recurso para a sua própria sustentação e a da família que lhes aguardam. É uma lástima, mas isso é a nossa realidade.

Voltemos, porém ao meu ponto inicial: São eles mais felizes do que nós que sempre saímos para a luta, apreensivos com as pessoas que nos cercam, se têm jeito de assaltantes ou coisa semelhante, oportunistas ou mesmo para nos solicitarem algo. Tomamos logo um susto na abordagem. Eles não. Estão tão felizes que andam no meio das pessoas sem nada temer. Vez por outra, engrenam um vôo rasante, quase a tocar em nossas cabeças, num alegre bater de asas, juntando-se aos outros que lhes aguardam tranqüilos, pousados nos travessões de madeira que encimam o telhado da estação das lanchas que ligam as cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Alguns deles levam no bico algo que encontram no chão jogado de propósito por algum passageiro que se distrai observando-os mais de perto, enquanto aguarda a chegada da lancha. Naturalmente já viram que eu estou me referendo aos pombos que moram na sala de espera das lanchas que ligam essas duas cidades.

Não sei se eles são portadores de doenças, vírus ou coisa qualquer que possa molestar o ser humano. De uma coisa eu tenho certeza: eles NÃO TÊM MEDO. Sim, esse medo que está escravizando os habitantes de nossa cidade e que infelizmente tem que ser enfrentado diariamente por grande parte da população para o “pão nosso de cada dia”.

Como vocês são felizes meus queridos pombos! Que lição de sabedoria nos transmitem. Eu os veja a caminhar ao meu lado e tão junto às demais pessoas que os cercam nesse exímio espaço de chão, como um desafio a nossa presença, tal a segurança que sentem e a certeza de que nada de mal lhes ocorrerá. Bom dia, amigos. Afinal algum ser vivo consegue andar despreocupadamente entre a multidão, sentindo segurança e alegria por estar vivo e participando da vida.

A lancha aporta e eu me despeço de vocês, me lembrando que amanhã, quem sabe, eu poderei apreciá-los novamente, felizes pombos, nessa liberdade e alegria que deveriam ser parte da natureza humana e que cada vez mais desaparece em virtude do MEDO que está tomando lugar no direito do homem de ir e vir.

Já a caminho da embarcação, lanço o olhar de relance para trás e ainda os vejo voando, parecendo a meus olhos que estão sorrindo da própria alegria e confiança que aprenderam a depositar no homem ou então rindo-se do MEDO que esse mesmo homem tem do outro semelhante que caminha a seu lado.

Parabéns para vocês pombos, que caminham livres, sem medo, entre as pessoas na sala de espera da estação das lanchas. Acho mesmo que a observação serve como lição. Quem sabe o defeito é nosso? Será que desaprendemos a arte de confiar no ser humano? Vamos alimentar o desejo de um dia virmos a ser iguais a vocês, livres, libertos do medo, caminhando com as outras pessoas para um mundo melhor, cuja segurança se encontre em cada um para ser repartida por todos.



06 março, 2017

CENTELHA

Por:
Josyanne Rita de Arruda Franco
Regional SÃO PAULO
Presidente Nacional 2017/2018
E-mail: josyannerita@gmail.com
















Há quase dois milhões de anos não precisamos mais aguardar a queda de um raio para provocar incêndio e produzir energia e calor por meio do fogo, aquecendo e alimentando o corpo, garantindo a sobrevivência.

A humanidade detém tal progresso no viver hodierno que a linguagem, a forma de comunicação e tantas outras mudanças oriundas da inteligência e do raciocínio do homem transformaram a vida no planeta, especialmente para alguns povos do planeta.

O desempenho cognitivo, a energia cósmica, as vibrações mentais, espirituais e outras manifestações energéticas têm sido estudadas e parece que são parte do combustível que não deixa consumir o fogo da vida, o impulso da chama do viver.

Pensando sobre isso e para garantir que o registro de nossas atividades literárias possa alcançar além dos redutos da classe médica, a revista CENTELHA fará complemento aos textos publicados no Blog da SOBRAMES.

Como se trata de um projeto mais ampliado que pretende alcançar médicos em todo o Brasil e pacientes em salas de espera de laboratórios de análises clínicas, imagens e hospitais (bem como ambulatórios de especialidades diversas e consultórios), nossa árdua empreitada tem como objetivo alcançar patrocínio, o que sabemos ser um grande desafio.

Ainda assim não esmorecemos, pois importa iniciar o movimento de fazermos conhecer efetivamente a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores- SOBRAMES, levando ao conhecimento da sociedade em geral que médicos escrevem sobre muitas coisas além da medicina, essa arte que cuida, trata e zela de cada paciente que procura cuidados às suas fragilidades e adoecimentos orgânicos, mentais e emocionais.

Temos realizado muitos contatos e enviado correspondências apresentando a SOBRAMES e solicitando parcerias. Houve sinalizações positivas que nos levam a perseverar.

Há muita pesquisa acontecendo, muita novidade na indústria farmacêutica, grande desenvolvimento da tecnologia médica, descobertas, investimento de toda monta para a complexa integração e harmonia humanas.

Todo esse progresso não desconsidera as perspectivas éticas e humanistas do ofício de Hipócrates; a sensibilidade criativa dos profissionais médicos também é parte fundamental na qualidade da assistência e no cuidado para com a vida humana.

Afeiçoado ao estudo e às indagações, o médico vai se inserindo nesse novo mundo altamente desenvolvido, mas ainda carente de boas relações. Façamos parte disso.


Alimentemos, pois, nossa centelha, aquecendo nossos ideais como médicos e escritores. Não esperemos que apenas os fenômenos naturais impulsionem nossa vida: vamos arregaçar as mangas e buscar a resina que iluminará o caminho e difundirá esse fogo que arde dentro de nós e que chamamos de criatividade.

Aqui está a CENTELHA. (clique)


05 março, 2017

JUDAS, O MENSAGEIRO DE JESUS DE NAZARÉ

Por:
Marco Aurélio Baggio
Regional MINAS GERAIS
In memoriam










Os estudo bíblicos se enriqueceram com a tradução do chamado Evangelho segundo Judas. Manuscrito perdido há 1.700 anos, em papiro, na língua copta, foi descoberto no Egito em 1978.

Sabia-se de sua existência, relatada por Irineu de Lyon, em seu livro Contra a heresia, publicado no ano 180 da era comum. Foram recuperados 85% do texto.

Publicado com a chancela da National Geographic Society, o manuscrito esclarece o papel de Judas Iscariotes como sendo o mais arguto e o mais confiável discípulo de Jesus de Nazaré. No documento recém-traduzido, Judas Iscariotes surge como mensageiro, o emissário de Jesus de Nazaré, e não mais como quiseram os evangelistas canônicos, Mateus e João, como o traidor de Jesus.

Ao escrever Jesus de Nazaré: esplendor no Ocidente (Belo Horizonte: Editora Compos, 2002), já havia interrogado: Jesus de Nazaré deixou-se prender pelo sumo sacerdote do templo, ou entregou-se a ele, utilizando, conscientemente, os serviços de seu amado discípulo – Judas Iscariotes? Hoje há dúvidas quanto ao valor da participação de Judas e da sua intenção: teria ele traído Jesus? Teria vendido informação sobre o local onde estava o Mestre, por trinta dinheiros? No entanto, Jesus era uma figura pública, sobejamente conhecido de todos, que freqüentava as ruas e os pátios do Templo. Judas entregou Jesus à revelia deste ou, como cada vez parece mais provável, foi o seu mensageiro junto aos sacerdotes, marcando a hora e o lugar de sua apresentação diante do sumo sacerdote, tal qual o Mestre queria?

O Evangelho segundo Judas vem corroborar a suspeita de que Judas foi o dileto emissário de Jesus.

Durante três anos, Jesus de Nazaré realizou 31 milagres e dezenas de portentos na Samaria. Judeu conhecedor das escrituras, Jesus – um homem bom, excelso – julgou chegada a hora de fazê-las cumprir. Internalizou em si a missão do tão profetizado Mashiah – o Ungido, o Esperado, o Messias do povo judeu.

Por quatro vezes, Jesus de Nazaré profetizou seu destino aos seus apóstolos. Está em Mateus 12:40; em Mateus 16:21; também em Mateus 17:22:23. Em Mateus 20:17:19, encontra-se: Eis que estamos subindo a Jerusalém, e o filho do homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos escribas: eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios para ser injuriado, flagelado, crucificado. Mas, ao terceiro dia ressuscitará.

O Evangelho segundo Judas vem fazer uma documental desleitura daquilo que os evangelistas canônicos deturparam, denegrindo assim Judas. Essa visão sombria se estendeu para todo o povo judeu: Judas=judeu.

Os evangelhos canônicos foram escritos 40 a 60 anos após o desaparecimento de Jesus, por homens que não o conheceram pessoalmente: Marcos, Mateus, Lucas, João, o evangelista (não confundir com João Batista nem com o apóstolo João).

Saulo, judeu nascido em Tarso, tornou-se São Paulo. Criou a primeira cristologia. Nada do que o homem Jesus foi e viveu interessou a Paulo. Provavelmente, toda a construção teológica – a cristologia erigida nas 13 epístolas de São Paulo – não teria a aprovação de Jesus de Nazaré.

George Bernard Shaw é definitivo sobre o gênio de São Paulo: Nada que ele fez Jesus teria feito, e nada que ele diz Jesus teria dito. (Bloom, Harold. Gênio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 167).

A espantosa necessidade que 90% da humanidade têm de acreditar em deuses sempre gera ferozes disputas de primazia e de preponderância. No seu nascedouro – séculos I, II, III e IV da era comum –, os cristianismos disputavam corações, dotações e mentes. A partir do ano 312, com Constantino, prevaleceu o cristianismo de Paulo e dos Pais da Igreja. Hoje, no mundo, há cerca de 1,5 bilhão de cristãos, disseminados em mais de mil seitas e sob diversas denominações. O tronco principal do cristianismo é a Igreja Católica Apostólica Romana.

O Evangelho de Judas deverá melhorar a história e a imagem desse colaborador de Jesus de Nazaré, deixando Judas e os judeus de serem escarmentados, respectivamente, como traidor e algozes. Dentre os doze apóstolos, Judas Iscariotes foi o mais corajoso e o mais lúcido ajudante de Jesus, em seu intento de fazer cumprir as profecias hebraicas.

É provável que esse documento venha corrigir e alimpar inconsistências e dúvidas a respeito dos acontecimentos no Horto das Oliveiras.

Ganhamos todos, cristãos ou seculares, com o aparecimento dessa nova versão da verdade histórica. Chega de malhar Judas!


ANDANÇAS DO PAJEÚ

Autor: José Arlindo Gomes de Sá
Editora: Coqueiro - PE - 2012 - 140 páginas (14,0 x 21,0)
Sinopse: José Arlindo conseguiu descrever com muita beleza e admirável fidelidade, o Sertão do rio Pajeú e do riacho do Navio. Descreve não somente o ambiente físico e sim também seus habitantes, do reino humano e dos bichos que sobrevivem nesse pedaço que hoje se chama Sertão de Itaparica. O autor confirma, nesta obra, a sua temática profundamente ligada à terra e percorre esse rincão com  um olhar lírico, romântico e pleno de saudades, crítica social e espírito humanístico. A sensibilidade contida nos inspirados versos e na narrativa cuidadosa de suas crônicas e contos, faz de Andanças do Pajeú uma obra indispensável, que está em nossa ESTANTEAquisições e informações por e-mail: zearlindogomes@gmail.com

03 março, 2017

O CORVO DE LONDONVILLE

Por:
Sebastião Diógenes Pinheiro
Regional CEARA
E-mail: sediogenes@yahoo.com










 Good morning! – cumprimentou-me o corvo que havia dias seguia-me as caminhadas matinais, voando de árvore em árvore, no bosque de Loudonville.

 – Good morning! – respondi com surpresa, mesmo sabendo que os corvos são inteligentes e costumam imitar a voz humana. Como a pronúncia denunciava a minha origem estrangeira, o pássaro mostrou-se interessado.

 – Where are you from?

 – Brasil – respondi com a esperança de alguma referência à minha pátria, ao Pelé, pelo menos.

 – Portugal, Brasil, Moçambique… que beleza a língua de Camões! 

 – Ué! Falas português?

 – Falo e tenho leitura de todas as línguas que traduziram o maldito poema de Alan Poe. Abono, contudo, as traduções de Fernando Pessoa e Machado de Assis, foram meus mestres do belo idioma originário do Lácio.

 – Maldito?! Como podes repudiar um poema famoso que te imortalizou? Uma verdadeira obra prima, patrimônio cultural da humanidade!

 – Obra prima, sim, não nego,  para os amantes da literatura. Para a minha ave pessoa saldou a eterna associação com o mistério, com a abominável  morte. Uma tristeza para a raça, sem acrescentar os infortúnios sofridos desde a época da Europa medieval, já tão crescida.  Éramos considerados pelos franceses os representantes do mal, as almas de padres e freiras perversos, e, para desonra maior, o diabo, pelos os alemães.

 – Compreendo a tua razão de vítima, mas o poema é uma obra imortal,  uma glória que deves a Poe. Valem as compensações da vida.

 – Desculpa a minha zanga! Mas não me conformo com a sacanagem que a humanidade tem feito com a minha biografia, a compreensão humana não pesou as minhas virtudes – grasnou a ave do admirável “nevermore” dilatando a garganta.

 – Que sacanagem a ti fez a humanidade?

 – Parece que não lês a Bíblia? Vejo que ignoras as minhas ações em favor da vida desde o tempo do dilúvio – retrucou o inteligente pássaro desapontado.

 – Falas de Noé?

 – Sim, sim, aquele ingrato! Quando cessou o dilúvio, ordenou-me fazer um inventário se havia terra firme. Lancei-me da Barca duas vezes à procura do matinho. Voei muito, muito além da ordem prescrita, sobrevoei longas distâncias. Pra teu governo, cheguei a   bater asas na região que viria ser o Ceará,  onde nasceria o grande romancista de José de Alencar.

 – Desculpa-me, mas o catecismo nos tem relatado apenas a história da  pomba, a venturosa Columbidae que Noé enviara para a delicada missão, e que retornou com o raminho de oliveira no bico. Sucesso que dura até hoje. Assim seja!

 – Percebes, agora? Todos os créditos para a alva pomba, e uma grande injustiça com a negra espécie da Corvidae família. Eu que procedi as primeiras rondas diluvianas, um verdadeiro voo no escuro, mesmo em claro dia, nem uma nota de louvor no Gênesis!

 – Por que não protestaste junto a Noé?

– Claro que fui ter com ele. Mas o velho estava bêbado na cobertura da Arca. Relatei o fato para o Cão, seu filho, o risco de o pai cair nas águas. Cão subiu apavorado e flagrou o pai com as partes secretas à mostra. Quando acordou da embriaguês e viu-se em tal estado, Noé  ficou irado com o filho, e cheio de razão,  amaldiçoou o neto Canaã,  o caçula de Cão, coitado, que nada tinha a ver com o peixe – e ironizando -, animal que da Arca não carecera. Senti-me vingado, embora pesaroso com a sorte de Canaã.

 – Tornaste uma ave melhor com a vingança?

 – Claro que não! Vingança não traz felicidade a ninguém, seria uma espécie de  sentimento falso, em estado de empréstimo. Felicidade é coisa autóctone do coração.

 – Eitaman!

 – O que significa a palavra “eitaman”? Nem Machado nem Pessoa ma ensinaram – justificava-se o desafeto de Noé.

 – É gíria! Que os teus ex mestres não saibam. Voltemos, pois, ao Poe. Tiveste alguma participação na morte misteriosa do poeta? – perguntei com cautela, receio de processo.

 – Não, mas o vi agonizando no banco da praça. Apesar do que dizem a meu respeito, não tive natureza para assistir ao seu termo até o fim. Também não abri o bico para não facilitar as investigações policiais sobre a morte do Edgard. E como sabes, o mistério tem rendido livros e filmes.

 – Para encerrarmos a boa conversa, gostaria de saber qual é a tua relação com Deus.

 – Excelente! Sou-lhe eternamente agradecido pela confiança depositada à minha penosa pessoa, polêmica para os ignorantes, porém, justificada por Ele. Estão na Bíblia as minhas virtudes em favor da vida. Deus é o fiador.

 – A que sucesso te referes?

 – Não sabes? Levei pão e carne para alimentar o profeta Elias no deserto, onde refugiara-se para se livrar da perseguição de Jezabel, a perversa mulher de Acabe, rei de Israel. Foi uma tarefa confiada por Deus, podes conferir em Reis.

 – Muito obrigado pelas sábias informações! E desculpa-me a falta de melhor instrução.

 – Leia a Bíblia, Machado e Pessoa, tendes tudo para melhorar. Se chegares a compreender Camões, te consagrarás nas letras. E para terminar, retorno ao princípio, saudando-te com o nativo idioma de John Steinbeck: “take care”!




REUNIÃO GONÇALVINA EM SÃO LUÍS

Em clima harmonioso, regado a boa conversa, risos, alegrias, música e muitas poesias a Sobrames-MA realizou sua primeira reunião "Gonçalvina" do ano. O encontro aconteceu no restaurante italiano Casa Rossini, em São Luís, no dia 23 de fevereiro, marcando assim o início das atividades literárias da regional maranhense em 2017. 






01 março, 2017

MACHISTA

Por:
Luiz Gondim de Araújo Lins
Regional RIO DE JANEIRO















Filho de um rico fazendeiro do interior habituara-se, desde cedo, a presenciar a ascendência do pai e a submissão da mãe. Assim, possuía pela herança e também pela convivência social, a firme convicção da superioridade do homem sobre a mulher.
Além do mais, fora o único filho e suas três irmãs sempre exerceram papel secundário naquela família.

Ele cresceu e se desenvolveu esnobando as mulheres, usando frases de efeito, que não eram suas, mas que ele adotara e incorporara ao seu vocabulário, tais como: “uma mulher é como um charuto: é preciso acendê-lo várias vezes” ou então: “se você tem medo da solidão, não se case”.

Mas o fato é que ele se casou com uma jovem da cidade, muito bonita e também muito pobre. Ele possuía dinheiro a rodo, mas tinha um defeito: uma perna mais fina, sequela de paralisia infantil, não tomara vacina, pois o pai não autorizara por achar uma bobagem. Coisas da vida, os contrastes se buscam: o rico e a pobre, a bela e o feio.

Desde que se conheceram ele impôs e ela aceitou seu acendrado machismo, inclusive com dois pensamentos emoldurados, um no quarto do casal e outro na sala de visitas, com os seguintes dizeres: ”as mulheres são como a sopa, não se deve deixá-las esfriar” e “o amor é um esforço que o homem faz para se contentar com apenas uma mulher!”.

Ele decidia sobre tudo dentro de casa, só ele falava alto, nem conta bancária a mulher possuía.

Numa das reuniões que deu em sua bela mansão, para a qual só convidara amigos machistas, já tocado pelo álcool, proferiu um pequeno discurso, arrematando com as seguintes palavras: “Não há nada no mundo pior que uma mulher, a não ser uma outra mulher”. Os aplausos foram delirantes em meio aos gritos e urros dos amigos; sua pobre esposa só fez baixar a cabeça.

Após mais algumas doses de whisky, deu a última mensagem daquela noite: “as mulheres são mais castas nas orelhas do que no resto do corpo”. Sucesso retumbante! Foi carregado em triunfo e lhe foi concedido o título, por unanimidade, de “O REI DOS MACHOS”.

A esposa passou a noite em claro, remoendo-se de ódio, seu limite fora atingido e ultrapassado, sentiu-se tomada por um novo, irresistível e temível sentimento: o ressentimento. Ele pulsou em suas veias, revolveu as entranhas, conturbou o cérebro. Amadureceu sua vingança e a pôs em prática: teve relações sexuais com diversos homens que estiveram em sua casa naquela maldita noite. A cada um deles ela dizia e repetia: “certas mulheres amam tanto seus maridos que, para não os gastar, elas usam os de suas amigas”.

Certa noite, ao chegar em casa, o machista estranhou o silêncio reinante, chamou pela mulher, gritou, nenhuma resposta. Em cima da mesa da sala de jantar achou um bilhete com uma letra que logo reconheceu. Assim dizia:

“Você é uma droga como homem e o mesmo não pode dizer de mim, pergunte aos seus amigos. Vocês não são de nada, não passam de pobres objetos descartáveis.

Assinado A VINGADORA.


28 fevereiro, 2017

AS FOGUEIRAS AINDA ARDEM

Por:
José Medeiros
Regional ALAGOAS
In memoriam













Muitas comemorações em torno da fogueira, alegria, muita cachaça e outras águas mais ou menos ardentes; de repente, num ímpeto irresistível, ela – uma bela jovem – jogou na fogueira pistolões, busca-pés e bombas que trazia nas mãos. Labaredas gigantescas surgiram da fogueira e atingiram seu rosto, braços e tórax. Dores lancinantes, gritos agudos. Foi levada às pressas ao Hospital de Pronto Socorro com graves queimaduras; sua vida corria perigo.

Fui procurado pela família da paciente, pois ela havia sido minha cliente em tempos passados. Insistia em ver-me. Impressionei-me com o aspecto das lesões. A família desejava saber se era necessária sua transferência para outro hospital. Desaconselhei a remoção; tudo o que se podia fazer estava sendo feito. Lembrei-me de sua vaidade e beleza. Formara-se em Psicologia, mas não exercia a profissão; tornou-se gerente de uma grande empresa. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas vinha alterando seu comportamento. Agora, no leito do hospital, culpava-se pelo acidente provocado, preocupada com as conseqüências de seu gesto de irresponsável arrebatamento.

Dúvidas assaltavam seu espírito. Seria esse o seu destino? Estaria escrito que esse acidente faria parte da história de sua vida? Os conselhos da família tinham sido em vão. Embriagara-se no prazer de viver em toda a plenitude, sem limites; largara deveres religiosos e familiares. Julgava-se elegante, saudável e bem remunerada; o resto pouco lhe importava. Naquele momento, estava acometida por um estranho medo, medo e remorso. Quase destruíra sua vida num ato inconseqüente. Havia estado cega pelo orgulho, imersa num período no qual predominara uma fogueira de vaidades.

Procurei acalmá-la. Perguntei onde estavam a coragem que sempre demonstrara, o poder de reação, a vontade de vencer obstáculos e transtornos da existência. O que lhe acontecera poderia servir de incentivo para recomeço de uma nova vida. Afirmei que há sempre um momento de verdade na trajetória de cada um de nós. Ela me respondeu que sentia a alma esvair-se do corpo. Perdera a vontade de viver.

Foi bem longo o período de sua recuperação. Depois da alta do hospital conseguiu, na empresa, transferência para Recife. Perdi-a de vista. Vez por outra, seus familiares davam-me notícias dela. Estava bem, fizera plásticas e tratamentos especializados. Na  força espiritual, encontrara meios de vencer os sofrimentos.      

Anos se passaram. Reencontro-a e quase não a reconheço. Estava sorridente, autoconfiante e vestida no fino da moda. Cicatrizes, entretanto, eram visíveis. Explicou-me, que além do emprego, dedicava-se a uma obra social: cuidava de pessoas que apresentavam extensas cicatrizes de queimaduras e de jovens que se perdiam no alcoolismo precoce, nas drogas e na violência.

Estava feliz. Fizera de sua vida um ato de compromisso com pessoas sofridas, a quem já faltavam esperanças de futuro. Enfim, tentava apagar fogueiras que ainda ardiam em corpos e almas de seus semelhantes.


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