08 janeiro, 2018

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Por:
Paulo Expedito Rodarte de Abreu
Regional MINAS GERAIS
E-mail: peralavras@gmail.com









Hoje chove.  Há uma semana tem chovido de forma aguda. Sorriem quem ama a chuva. Descabela-se quem a detesta.

Na roça as águas que descem do alto são motivos de regozijo. Elas tintam de verde o entorno. Fazem crescer os pezinhos de milho nanicos. Engordam a vacada antes de costelas a mostra. Aumentam a produção de leite antes modesta. Em contrapartida alguns problemas são imputados à chuva ao desvario: enxurradas vertiginosas que levam o recente cascalho inserido ao morro agudo por onde sobe o caminhão leiteiro. O barro vermelho, a umidade em excesso desagrada às vacas baldeiras. E o estoico homem do campo, durante a chuvadonha que despenca subitamente não tem como sair de casa e ali fica, olhando pela janela de vidros quebrados toda a desilusão dos meninos da roça, que, na falta de transporte escolar ficam de castigo torcendo para que a chuva pare. Para no dia seguinte voltarem à escola.

Para Seu Zé, caboclo de mãos caludas e tez tostada pelo sol inclemente, a chuva que recomeçou depois de um período intermitente foi a salvação da lavoura. No dia quando o céu se desvestiu de sua roupagem azul, para vestir a roupa cinzenta, ele, de mãos postas ao alto, exclamou bendizendo a situação: “nem tudo está perdido”.

Há coisa de anos e anos a fio tenho tentado inserir cultura onde ela descansa. Publico livros e livros. Não da minha área especifica, a urologia. E sim contando causos, historinhas curtas chamadas de crônicas, outras fantasiosas, romances onde o mistério, o sexo, o suspense, penso que fazem os leitores não se desgrudarem do lido. Até hoje são contados mais de quinze deles. Com o que nasce em dois dias a conta sobe aos dezesseis. Caso fosse editar todas as crônicas escritas, quase impossível nomeá-las todas, são mais de dez mil, considerando-se que meu último livro de crônicas, Mugido de Vaca e Cheiro de Curral tem cento e oitenta e oito, escolhidas entre mais de mil textos, em uma pasta apenas, dividindo-se dez mil por cento e oitenta, quantos livros novos seriam escritos? Façam e refaçam a conta vocês. Pois, escritor contumaz que sou não me dou com números. Entre as palavras, letras, vírgulas e pontos finais sinto-me em casa. Como na casa onde durmo em paz.

De tempos pra aqui tenho feito pesquisa entre as pessoas com quem passo nas minhas caminhadas matutinas e vespertinas.

A elas indago: “vocês têm o costume de ler”? “E de escrever”?

As respostas variam. A maioria esmagadora diz não. Na academia onde passo horas e horas sagradas me exercitando, num dia qualquer, fiz a mesma pergunta a mais ou menos vinte pessoas. De físico apurado, pernas fortes, braços musculosos.

“Qual o seu tipo de leitura predileto”?

Uma linda moçoila respondeu, depois de retirar seu fonezinho de ouvido das duas orelhas: “leio o que me dão. De graça”. À resposta emendei outra: “e se você tivesse de escolher entre comprar uma peça de roupa da moda, e um livro meu, qual deles você compraria”? Ela voltou a inserir o fone de ouvido em altos decibéis na sua cavidade auricular e nem deu resposta.

A enquete, na academia, continuou. A grande parcela dos entrevistados disse não ser das suas predileções a leitura. Um ou outro afirmou que apenas lia livros técnicos. Os demais disseram que nunca leram um livro impresso. Apenas os Ubooks da vida. Mesmo assim os relativos a suas áreas de atuação.

Ontem ia subindo a rua, depois de finda a academia, a fim de fazer uma visitinha ao meu neto, quando me deparei com um rapaz esguio assentado ao meio fio.

Ele lia vorazmente um grosso compêndio. Parei junto a ele para conversar rapidamente.

Foi quando passei os olhos em qual livro ele lia. Era um livro enorme, em inglês. A versão mais nova de um livro de William Shakespeare no original. Hamlet ao rapazola fazia perder a noção de tempo e espaço. Tal era a atenção que o jovem ao livro dispensava.

Parei cerca de dois minutos esticando a prosa. O nome do rapaz era Fernando. Ele me confidenciou que amava literatura, em que idioma fosse escrita. Acabou citando mais de dez línguas.

Deixei-o entregue a sua leitura de Shakespeare. Hamlet o fazia quase parar de respirar.

Ao sair-lhe do campo de visão, estava próximo ao apartamento do Theo, foi que pensei, após quase dezesseis livros publicados, mais de dez mil crônicas escritas, a espera de um dia criar coragem e mandá-las a uma editora qualquer, que nem tudo está perdido. Uma luzinha tênue, quase um vagalumizinho anemiado, me dizia, com sua vozinha piscante: “doutor, não desista da sua arte. 

Mesmo que ela não lhe dê retorno. Não pare nunca de escrever”.



07 janeiro, 2018

ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS

Por:
José Hugo de Lins Pessoa
Regional SÃO PAULO













Na calmaria da tarde de um domingo do mês de setembro, com tempo livre, abri uma gaveta repleta de fotografias antigas. Qual o sentido de rever velhas fotografias? Ali, naquela gaveta, estavam mais de duas centenas de fotos de todas as épocas da minha vida. Fotos do menino que fui, do jovem, do adulto e do avô que sou hoje. Rever fotos antigas é uma aventura arriscada, algumas são recordações alegres, outras tristes. O álbum de fotografias da nossa vida é a crônica da navegação do homem pelos mares do tempo. As sequências de fotos, ano a ano, permitem juntar as duas pontas da vida. Desse modo, acompanhando as fotos dos anos já vividos é possível relembrar o cenário da travessia, com marcas adequadas das entradas e saídas de cena. Os ciclos da vida, as estações da vida, surgem à vista em cada imagem e relembram as tempestades e as bonanças vividas. Cada época “tem suas próprias circunstâncias e sua própria razão”, compreender isso não afasta o homem de todas as ambiências, mas enriquece a história em toda sua autenticidade. O tempo flui. Fluímos no tempo. Como diz o verso de Alexander Pope: “os anos seguem os anos, roubam algo cada dia, por fim roubam-nos de nós próprios”.

Uma das primeiras fotos que encontrei estávamos, jovens, eu e a minha bela amiga Clarice, em uma festa de réveillon do ano de 1961. Colegas de ginásio, compartilhamos juntos um tempo da nossa juventude. Ela era a melhor amiga da Ana Paula, minha namorada. Quando precisamos dela, nunca faltou. Muito inteligente, sempre era fácil concordar com ela. Com a filosofia de Berkeley, costumava dizer: “a vida é fantasia”. E todos os nossos “problemas” de adolescentes acabavam, inclusive a falta de dinheiro para o cinema. Para a nossa geração ir ao cinema era vital, ver os filmes, comentá-los e discuti-los. No verso da foto, à guisa de dedicatória, ela escreveu: “Ao meu futuro médico preferido, um feliz 1962”. Uma alusão ao vestibular que eu prestaria nesse ano.

As imagens oferecem um ponto de referência para a memória. E quando essa memória é do tempo da nossa juventude, antes da maturidade, elas estão impregnadas do anseio adolescente que vivemos por uma compreensão da amizade e do amor. Movido por um impulso nostálgico resolvi telefonar para a Clarice. Tive dificuldades, precisei falar com várias pessoas até conseguir seu novo telefone. Queria saber se ela ia me identificar, depois de algumas décadas. Surpresa, pensou que eu estava ligando porque ela estava doente. Ficou admirada quando contei a história da nossa foto. Conversamos durante trinta minutos. Quando descreveu sua vida tive a impressão que a sua filosofia existencial seguiu a corajosa intuição de Pascal: “quando se ganha, se ganha tudo, e, quando se perde, não se perde nada”. Há algo de misterioso e fascinante na maneira simples como ela fala da sua vida. Para ela o que é realmente importante está sujeito à rotina da existência. Conversar com a Clarice é uma rara oportunidade de um intercâmbio de confiança. Trabalhou em uma empresa multinacional, casou-se com um diplomata que conheceu em uma viagem ao Rio. Ficou viúva aos 53 anos, com dois filhos. Hoje tem 3 netos. Quando perguntou de mim, falei dos projetos realizados e da ampla galeria de projetos sempre transferidos para o futuro; do meu casamento, dos meus filhos e dos meus netos. Expliquei que me sinto um homem feliz, sem mágoas. Finalmente, ela perguntou: “tem notícias da Ana Paula? Nunca compreendi a separação de vocês”. Respondi com sinceridade: eu também não compreendi, pagamos um preço muito alto por essa decisão. Não estávamos suficientes fortes para enfrentar pequenas dificuldades. E, mudando de assunto, comentei que o nosso tempo tinha sido um período fantástico. Ela sorriu, como se lembrasse daquele tempo e disse: “Isso é verdade. O curso da existência é repleto de esperas, planos e preocupações inúteis. A vida não é assim?” Percebi alguma emoção na sua voz. Desejei uma recuperação rápida para sua saúde, escolhi com cuidado as palavras para transmitir otimismo, fiquei de ligar em breve e prometi uma visita. Voltei para a gaveta de fotografias, poderia ficar contemplando durante horas aquelas fotos. Uma foto da Ana Paula, na beleza dos seus dezessete anos, trazia como dedicatória, apenas, Sabor a Mi, o nome de um belo bolero que fala de um amor eterno.

Existe algo forte e profundo no ato de visitar o álbum de fotografias da vida vivida, uma combinação de sentimentalismo e anseio que parece atingir principalmente aos que já passaram da meia idade. A vida não é preenchida todo o tempo por espetáculos de primeira classe. O psicólogo Abraham Maslov descreveu a existência dos “momentos culminantes” da vida, que o homem não esquece. Além de evocarem saudades, fotos antigas podem deixar explícitos os encontros e os desencontros da vida e mostram a força do tempo, as modificações ocorridas durante a nossa travessia. Aquele, de camisa branca, sou eu? Como cresceram rápido os filhos e os netos! O álbum de fotografias mostra que o homem não pode fugir da compreensão da transitoriedade do tempo e precisa viver com intensidade o tempo presente.



06 janeiro, 2018

DO CORONEL AOS CORONÉIS

Por:
Josemar Otaviano de Alvarenga
Regional MINAS GERAIS
E-mail: alvarengajosemar@gmail.com








O coronelismo político acabou no Brasil? Falo do Coronel de Barranco, do Vale do São Francisco. O chefe de bando de jagunços. Bandidos de familiar tradição na foz, Arraial do Cabeço, hoje Sergipe.

Então, Sertão da Bahia, de ir da margem direita do Chico até a nascente e foz do Rio Doce, colonizado com mãos de ferro desde o Segundo Império. Reforçado na república e agonizado em meados do séc. XX, o Coronel de Barranco, chefe de aventureiros em covardes, constituía-se nos três poderes locais. De início, em apoio ao Império. Depois, chefe político de curral eleitoral e votos de cabresto da república. O coronel de batina era o mais temido. São personagens da história colonial.

Essa figura do Brasil Colônia, pelas mãos do atual governo volta ao cenário político, em pleno século XXI. Estrutura mesmos currais eleitorais aos votos de cabrestos, só que, em todo território nacional; extrapolou o Vale do Chico. Manipula medroso e cevado povo miserável, com Bolsa Família, bolsa isso e aquilo e a cidadania vale nada, enquanto no país, nos poderes de regê-lo, a desfaçatez, corrupção e conluio de marginais, constituídos na legalidade e com apoio do primeiro escalão do poder.

O Brasil é um novo México e vai em mesma ação por décadas, e enquanto lá predominou o PRI, aqui a esquerda festiva do PT e base do governo, fazem do povo manipulado lacaio, de valer pelo voto e impostos que paga, sem retorno nem cidadania.

O modelo gessa progressivo, sem arroubos e tácito, o povo inerme. Visa mantê-lo em mesmas mãos, na tramóia pseudo-democrática em instância de ditadura branca, com o aprovo de pesquisas e votos dos de comer na cuia. Costume dos Coronéis de Barranco, em país que não se moderniza.

Nisso, grassam comida e trocadinhos em disfarce legal sobre o manto da caridade, com apoio religioso. Incutem ignorância através de professores e escolas despreparadas, moldam espíritos submissos em mãos escravas ao trabalho nos latifúndios; agro negócio, funcionalismo público corrupto, bancos e narcotráfico e se garante o poder sob falsa idéia democrática, com votos de cabresto dos currais eleitorais, de manter alta popularidade do presidente.

Fecha a observação a fala do maior defensor do “Coronel Sarney”, dono do miserável latifúndio Maranhão, palco dos menores índices de desenvolvimento social e humano, comparáveis a Namíbia. Lá, até o ar é do Coronel Sarney, de levar seu domínio às terras do Amapá. Coronel de enxertar nove familiares pelos fundilhos do senado, como se fosse casa própria e repetir o clássico do Lula: “Eu não sabia”.

Nas feridas expostas da corrupção e ladroagem no senado, sangrando desde a primeira até a atual presidência Sarney, Lula em bafo de “Sapo Barbudo”, como diria Brizzola, defende o Coronel do Maranhão: “Chega de denuncismo. A imprensa precisa se conter. Não se pode tripudiar sobre um nome como o de José Sarney, pois, ele não é um homem comum ”.

Sarney fora achacado pelo seu atual defensor, tachado de ladrão, corrupto, quadrilheiro, antes do Lula presidente. Mas, está certo o chefe em “Coronel Sapo Barbudo”. Nós, o povo, estamos errados.

Somos iguais perante a lei. Iguais a ladrão, salafrário, quadrilheiro, traficante, corrupto; político do mensalão, sanguessuga, ministro do STF de vender sentença, a base do governo? Embusteiros quaisquer,  independente da natureza, sexo, estado civil, crença, partido ou passado político, esses são iguais a nós escorchados pela vagabundagem e impunidade pública?

Na democracia do Lula existem os mais iguais; os Coronéis de Barranco de vingar por este Brasil afora, obra desse magnífico governo ao retrocesso na história. São semeados a partir do canteiro de impunidades desta baderna moral chamada Brasília, a capital, e do comando da nação, o antro da corrupção nacional.

A Derrama, motivo da Inconfidência Mineira, foi de 20% de impostos, o quinto da produção. Hoje o povo paga quase 40% do PIB, está abandonado quanto a assistência básica prevista na constituinte; Saúde, Escola, Segurança Pública. Grassa a corrupção e a rapinagem do erário e "Eu não sabia, fui traído".

Para o atual governo, tirando a retórica populista, a nação e o povo que se dane...  Tudo sempre acaba em pizza e depois, tem carnaval e futebol. 

Falando nisso, a Copa do Mundo vem aí!...

(texto escrito em 2009)




05 janeiro, 2018

GRÁVIDO DE POEMAS

Por:
João Baptista Alencastro
Regional GOIÁS
E-mail: jbalencastro@uol.com.br









Uma semana gerou infinda emoção
Começaram com três pequenos seres
Cada um com seu caminho e noção
Energia enorme em amperes

Depois um poema rápido e pleno
Quase oito centímetros daqui de fora
Uma bolsa, uma dilatação, e vam’embora
Saudável, nem grande nem pequeno

Aí o desespero de peso
A pressão alta e a emergência
São cento e quarenta orações de gerência
São gestos e atos que me mantém aceso

E uma indução apropriada
Comparando o irmão com este 
A mãe muito mais preparada
E o pai seguindo o leste 

No dia mais árduo quando jantando estou
Nem o telefone atende ou tocou
Correria para quem de longe veio
E em mim depositou todo seu anseio

E durante quatro dias tentei
Durante fatos difíceis quase chorei
Mas perto estava e não desisti 
E no fim o prematuro poema eu vi

Minha vida grávido de poemas e divas 
É assim um turbilhão de eventos
Agradeço as minhas caras amigas –aos quatro ventos- 
Que me ajudam a escrever e trazer essas palavras vivas.





03 janeiro, 2018

O BEM CONTRA O MAL

Por:
Antero Coelho Neto 
Regional CEARÁ



















Sabemos que todas as línguas apresentam, desde os seus inícios,  a palavra “Bem” com o significado  de uma qualidade certa ou desejável e “Mal” como o não desejado e prejudicial.  Já a noção de Bem e Mal no sentido moral ou religioso, significando a “purificação” e “impureza” de nossa vida e corpo, tem sido de uso mais recente com a chamada filosofia pré-socrática,

São duas condições importantes de nossa vida, estudadas e explicadas de diferentes maneiras e razões de muitas seitas e religiões e até de variáveis comportamentos humanos, originando muitas pesquisas científicas sobre os causadores dessas manifestações. 

Já sabemos que algumas emoções da nossa vida originam, em várias células de nosso corpo, do chamado complexo hormonal, a produção de substâncias denominadas neuro-transmissores que apresentam importantes funções responsáveis pelo nosso bem-estar, satisfação de viver e felicidade.

São vários os neuro-transmissores “positivos” de nosso corpo e muitos são os centros de pesquisas do mundo interessados no assunto.(adrenalina, nor-adrenalina, dopa, dopamina, serotonina, melatonina, acetil-colina, encefalina, endorfina, etc.).  Muitos deles transformam-se em Serotonina que, por esta razão,  é chamada por muitos de “substância do bem-estar” e que podemos dizer “do bem do corpo”.

Estudando as diferentes emoções conhecidas do corpo humano, causadoras de uma melhor qualidade de vida e maior longevidade e ampliando o modelo usado por Juan Hitzig (Alfabeto emocional), identificamos as mais importantes e que denominamos de “positivas”: 1.Amor; 2. sexo; 3. sabor; 4. sono; 5. alegria; 6. liberdade; 7. serenidade; 8. amizade. 

Por outro lado, destacamos que também são várias as emoções que provocam a elaboração das substâncias que causam a destruição de células importantes do organismo. São os chamados radicais ácidos e oxidantes e que podem ser representados pelo que denomino de “Radical”    que funciona para o “Mal de nosso corpo”.

As emoções responsáveis pela elaboração desse destruidor celular são,  a nosso ver: 1. Raiva; 2. rancor; 3. pessimismo;  4. ressentimento; 5. tristeza;

6. negativismo. E como resultado podemos ter um estado de depressão ou de estresse que são responsáveis pela diminuição de muitos anos de nossas vidas.

Assim sendo, amigos do Bem, temos de procurar ao máximo buscar as emoções que causam Serotonina e evitar as que provocam Radical.

E se assim fazemos estamos lutando pelo nosso Bem , de nossa família e da comunidade em geral.

Recomendo então, neste início de ano, para todos os leitores, um plano de qualidade e longevidade de vida, baseado nesse modelo simples e fácil de ser aplicado e que chamamos de “Muita Serotonina e Pouco Radical” .




24 dezembro, 2017

NOITE FELIZ

Por:
Gilmar Mereb Chueire Calixto
Regional PARANÁ














Da. Maria costurando suas fantasias e fantasmas

Um chamado para atendimento domiciliar às 22hs., no dia 24 de dezembro; suspirei fundo pensando em não ir, mas no íntimo sabia que poderia ser um pai, uma mãe de alguém desesperado, em uma noite branca.

Entrei no apartamento 33, limpo e discretamente decorado natalino, cheiro de baunilha e  pinho no ar; entrei na penumbra, desejei um feliz natal.

Uma idosa vestida de preto com a cuidadora, portadora de doença de Alzheimer;
um mundo desconhecido à ambas. Uma estranha com uma estranha. Com um olhar
seco, onde esperava ver uma lágrima e não encontrei‐a.

Interrompeu o silêncio, uma ligação de Miami, dos filhos ao Caribe, "Nouveau Sea
Cruise", dizendo à técnica que acendesse os castiçais, ligasse o som em o
Tannenbaum e a envolvesse em seu chalé violáceo preferido e dissesse que mandavam um beijão.

Olhei seus olhos; foi uma mirada no vazio e vi dor e gratidão, onde segurei suas
mãos que apertou- me espasmodicamente, dizendo sem parar ecolálica: “a
camisa foi costurada” , “a camisa foi costurada”, “a camisa foi costurada” ...
numa repetição ritmada e irritante, mãos no ar, cozendo sem parar, em
movimentos infindáveis.

Compreendi que havia sido chamado para acompanha-las na noite manjedoura,
onde a luz do poste ao longe através da janela semiaberta era a estrela guia
descorada. Bateu o cuco 12 vezes. Foi servido uma fatia de bolo marrom e branco, preferido dos filhos, e um espumante barato, frio.

Vislumbrei o meu futuro, o de milhares de seres sós, em mesas natalinas enfeitadas
com esmero; senti a solidão humana em meio a 7 bilhões no planeta. Vi com nitidez
a limitação da arte e da ética da ciência médica, refletida na sordidez desumana.

Na cena exposta, eu a vi costurando nossas vidas, em movimentos ritmados e
infindáveis, sem mesmo uma peça tosca e rota nas mãos. Fechei a porta, respirei
enfim aliviado o frescor da noite e vi uma coruja no poste de concreto em frente.

As luzes brilhantes e coloridas da rua refletida nos vitraux. Senti no corpo e na
alma o peso da vida e da finitude, da realidade cinzenta. Ao entrecruzar
com o primeiro passante desconhecido, desejei-lhe do íntimo um Feliz
Natal!

P.S. Já antevia que ao chegar atrasado à ceia familiar, seria submetido aos olhares
críticos de todos, exceto da minha amada, um olhar fugidio, cúmplice e incondicional de amor, onde eu procuraria abrigo.

Retardei o passo ao andar nas irregulares calçadas curitibanas, rumo ao carro
estacionado e cantarolei "Noite Feliz", sozinho, na noite colorida, que eu sabia
agora ser cinza.



07 dezembro, 2017

SUB-MISSÃO

Por:
Sérgio Gemignani
Regional SÃO PAULO











Submissão, submeter-se, obedecer sem nenhuma reação não é próprio da espécie humana.

Mecanismos são disparados para conter essa ação sobre o seu eu, seu ego, sua alma, que podem ter diferentes graus de temporalidade e intensidade, bem como de sentido (para si ou para fora).

Pessoas espontâneas e as crianças, de um modo geral, tem uma resposta pronta, imediata, quase impulsiva, que faz o agente que impõe a submissão retroceder, ou aumentar a pressão. A energia gasta e liberada pode ser intensa, mas é descarregada e não gera perdas posteriores.

Pessoas mais controladas podem usar parte da energia dessa reação de modo contínuo, tentando assimilar a condição imposta, ou racionalizar saídas para evita-las como alternativas e/ou enfrentamentos dialogais, ou com base em argumentos lógicos que a protejam dessa imposição.

Quanto à intensidade da reação existem limites imponderáveis, quando se observam reações catastróficas, visíveis na história da humanidade recheada de guerras, batalhas e contendas, que ceifaram muitas vidas. A intensidade voltada para si também pode ser destrutiva e pior que a morte. É a anulação de sua própria individualidade. Esse tipo de indivíduo em nada se parece externamente com os famosos “zumbis”, mas internamente não poderiam ser mais semelhantes. Perderam-se os parâmetros de individualidade. Socializou-se demais, passou a ser parte de uma massa disforme de entes que são conduzidos passivamente para um destino não escolhido e de alternativas apagadas. Segue por uma estrada sem paisagem. Um estado de estupor, vigil; um paradoxo da vida, apesar da morte; um estado de decomposição dos elementos que estruturam a alma.

Por outro lado, há a pressão: algo ou alguém que se impõe. De onde vem essa força e como ela se constitui? Na maioria das vezes ela é concreta, sensível e avassaladora, mas há outros tipos, muitas vezes abstrata, disforme, impessoal, indetectável. Essa, talvez, seja a maior dificuldade de se escapar de suas garras. Muitas ocasiões, ou circunstâncias, foram propícias para sua construção, como uma quimera, um quebra-cabeça, que ao final se mostra assustador, ou determinante de uma posição de esquiva, ou simplesmente de aceitação conformista.

Para uma solução terapêutica invocamos a razão - nem sempre acessível de imediato, muitas vezes nebulosa, obnubilada, submersa, intocável à luz meridiana. Precisa de ajuda, uma outra razão externa, para o apoio contínuo e sistemático. Eliminando as aparas, cicatrizando feridas, fortalecendo energias intraduzíveis para a massa corpórea vigente, assim atua a razão. Medicação bem dosada. Ou pode intoxicar!  Será necessário cuidado, pois em excesso torna-se forte aliada da pressão, que era só externa, e transformar a solução, a cura, em uma ilha inabitável de si mesmo. Incomunicável, alheio, indiferente: um outro lado da mesma moeda. Que apesar de moeda, não tem valor nenhum!     



04 dezembro, 2017

A CURA

Por:
Márcio Ribeiro Leite
Regional BAHIA
Email: dr.biboleite@yahoo.com.br








Hoje, com mais de trinta anos de exercício da medicina, quanto menos parecer médico, melhor. Não porque não ame e respeite a minha profissão, mas porque já não tenho a mesma ideia do que significa o binômio saúde/doença, e, principalmente, não vejo mais o ser humano, o ente aflito que me procura, do mesmo modo. 

Estou cada vez mais distante da ideia ordinária e tradicional de como um médico deve ser. Estou também cada vez mais longe de interpretar a enfermidade como algo simplesmente ruim. Agora sou capaz de entender a enfermidade como um regime reeducador para um sistema que ultrapassou limites. Uma via de cura, afinal. 

A organização primordial está na alma humana, o corpo apenas responde por afinidade. Na grande maioria das situações, são os conflitos anímicos que determinam as patologias. O papel do corpo é quase sempre coadjuvante. Dá trabalho chegar até aí, encarar o desconhecido que a psique (alma) representa, mas de que outra maneira pretendemos "curar" alguém? 

A "cura" do corpo, apenas, não é duradoura. A doença cede aqui, reaparece ali, muda de nome e endereço, mas permanece. Pior, se aprofunda. A medicina do futuro, que já vislumbro em meus estudos e projeções - quântica, se chamaria? - precisará ir fundo na alma humana, entender sua linguagem. Foi encontrando a minha própria alma que descobri a alma do outro.

Em tempos atuais, com tanta pressa e imediatismo, nos satisfazemos, enfermos e curadores, com uma prática meia boca.



02 dezembro, 2017

REPOUSO

Por:
Vera Lúcia Teixeira
Regional SÃO PAULO






Ao por do Sol eu te encontro
Junto as folhas da árvore verde
Os pingos da chuva eu recolho
Nas tuas mãos eu os entrego
 Pra sanar atua sede.

Contra a força dos ventos o tempo eu vigio
E sopro uma leve brisa pra te refrescar
E diante da ameaça de um relâmpago
Eu me transmuto em para-raios
Mas não o deixo te machucar.

E preparo o céu pro teu sono
Armo um arco-íris pra repousar
Apago a luz de cada estrela
E cubro com um véu 0 brilho da lua
E me deito toda nua
Pra o teu sono velar...



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