19 novembro, 2017

O MORIBUNDINHO

Por:
Ildeu Baptista de Oliveira
Regional MINAS GERAIS
E-mail Ildeu@globo.com










Logo que me formei, fui trabalhar em Sabará como empregado da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Entre nossas obrigações, atendíamos pelas manhãs no ambulatório da Santa Casa e também aos doentes internados na enfermaria. Logo que assumi, topei com o paciente caquético e encarquilhado que já se encontrava internado há algum tempo. A radiografia de tórax revelou várias infiltrações localizadas nos ápices pulmonares.

Minha suspeita foi de tuberculose pulmonar, mas o paciente não apresentava escarro para a pesquisa do bacilo de Koch. Recém-formado, com a ciência na cabeça cheia de filigranas, decidi submeter o paciente ao lavado brônquico. Fui pessoalmente ao posto de saúde localizado na Alameda Ezequiel Dias para agendar o exame. Na data marcada, acordei cedinho, fui ao hospital e com a ajuda do Irineu, enfermeiro espadaúdo, colocamos o paciente e uma cadeira de rodas no meu fusquinha e rumamos para Belo Horizonte. Estacionei defronte ao posto de saúde e o levamos diretamente à sala de exames na cadeira de rodas. Fomos atendidos por uma enfermeira que nos orientou a colocar o paciente sentado em uma banqueta. Logo a seguir, ela iniciou o procedimento. 

Nesse momento, observei, com pavor, que as pupilas do paciente se dilatavam assombradamente. “Parada cardíaca”, pensei. Imediatamente, afastei a enfermeira e comprimi o tórax do paciente notando aliviado que as pupilas voltavam a se contrair. Foi um grande susto para todos, principalmente para a enfermeira que passou a vociferar e a me xingar: “Seu maluco! Trazer esse moribundo para morrer aqui na minha frente.” Então, voltamos com o paciente para a cadeira de rodas e saímos disparados pelo corredor, com o rabo entre as pernas, sendo seguidos pela enfermeira que não parava de nos insultar. “Seus malucos, irresponsáveis, malditos, sumam daqui. Não me apareçam nunca mais.”

No caminho de volta, fiquei remoendo com meus botões: chega de academicismo, deixa de ser bobo. O que você vai fazer é iniciar o tratamento para tuberculose e danem-se as aulas teóricas e as veleidades diagnósticas. Assim fiz. Em poucos dias já se notava a melhora do quadro clínico. O paciente passou a se alimentar muito bem e a ganhar peso. Entretanto, permanecia acamado em virtude da anquilose dos joelhos. Solicitei ao Agostinho que me desse alguma orientação a respeito. O Agostinho era médico muito competente e fez, para que eu visse, uma manobra que consistia em estender as pernas usando certa força para tentar desencarquilhar o moribundinho. 

Diariamente, os enfermeiros praticavam a manobra, apesar da dor que o paciente apresentava nesses momentos. Aos poucos, a anquilose foi cedendo e o paciente ganhando corpo e disposição, até que começou a deambular, andando pela enfermaria e até ajudando na limpeza e na arrumação das camas. Depois de certo tempo, recebeu alta para continuar o tratamento em nível ambulatorial. Finalmente, dei-o por curado. Às vezes, eu cruzava com ele pelas ruas de Sabará. Sempre ele me fitava com o olhar pingado revelando a gratidão que sentia por mim. 



18 novembro, 2017

A VIDA QUE PASSA

Por:
Socorro Azevedo Veras
Regional MARANHÃO
E-mail socorroazevedoveras@hotmail.com











Giram ponteiros do relógio e um tempo é mudado. 

Não faz marcas nem leva pesos, apenas passa...

Deixa lembranças e experiências somando alegrias e dores que criam evolução na alma, desmancham conceitos e preconceitos na mente, abraçando afinidades reconhecidas entre os processos do querer bem e do apreender o sim e o não.

Soma o tempo, as ilusões inconsistentes expondo à fragilidade humana cicatrizes equivalentes à profundidade dos golpes necessários à aprendizagem.

Frente a
o espelho, a nudez crua revela a verdade do tempo 
e testa a coragem da aceitação de si. O tique - taque do relógio relembra o nascedouro. Faltará apenas o abraço que ampara para mudança de casca.

Em meio à meditação, um terremoto doce sacode a cama: abraços s beijos repetidos fazem do coração uma caixinha de música e confirmam o ganho maior da vida: netos, sementes que falam e garantem a sua continuidade no tempo infinito.


17 novembro, 2017

BALADA DA FLOR E DO BEIJA-FLOR

Por:
Alitta Guimarães Costa Reis
Regional SÃO PAULO
E-mail: chai.alitta@hotmail.com








A FLOR
Amanhã, amor, imersa em mágoa e pranto,
Serei só, só dor, pulsando em desencanto...!
Sem me olhar, você voará bem depressa.
Uma parte de mim dirá: “Amo tanto...!”
Outra parte exigirá: “Jamais peça!”
Mas depois, amor, mais nada! C’est La vie”!
Tudo passa. Irei desfolhando,  ao sabor
Do vento, minhas pétalas, bem aqui.
E você voando, efêmero e fútil.
O beija‐flor sem a flor é um beijo inútil.
Você partirá, não sentirei rancor.
Das velhas entranhas da terra emergi,
Minhas filhas buscaram sol, noutro polo...
Perfume, cor, vida, morte, previ.
Terminando o ocaso de agonia e dor,
Sentirei visceralmente que vivi
O domínio da paixão, eterna flor...!
Pois perene é o jardim, e eu, amor.

O BEIJA--‐FLOR
Amanhã, amor, no preciso nem dizer,
Não estarei com você como estou hoje.
É, vou esquecer você completamente,
Não permitirei que entre em minha vida,
E que nada reste além da despedida.
Mas hoje, amor, é você quem eu mais quero,
Porque você veste o manto do mistério,
Porque me agrada conquistar você.
Juntos faremos as coisas mais gostosas,
Tudo lhe darei, serei como quiser...!
Mas depois, amor...mais nada! A vida passa,
E eu passarei por você com indiferença,
Num vivo contraste do que hoje eu sou.
Pois é assim que a vida me pertence,
E é assim que as coisas são para mim.
Eu vivo com horror da continuidade,
Não quero laços, apego, intimidade,

Prefiro o faz-de‐conta no amor...!


16 novembro, 2017

PARA QUEM JÁ PASSOU PELO DESGOSTO DE CHORAR A MORTE DE UM CÃO

Por:
Eberth Franco Vêncio
Regional GOIÁS
E-mail: eberthdr@terra.com.br










Era amor. Era uma dor diferente, assim, de média para grande, se é que me entendem. Para todos os efeitos, a dor firme e forte. Não era a perda de um parente, de um amigo, de um colega de trabalho. Era o fim da velha fidelidade canina, uma coisa difícil de explicar, um sentimento de afeto mais legítimo do que o de algumas pessoas que eu cria fossem confiáveis. Já fui mordido por gente inúmeras vezes. Outro dia mesmo, enquanto me fazia uma visita, um cunhado (cunhados sendo cunhados) vociferou que criar animais de estimação é uma babaquice, um completo absurdo, pois, eles, os bichos, aumentam sobremaneira a emissão de carbono para a atmosfera, além de representar um gasto supérfluo às famílias, movimentando um mercado pet de milhões de reais, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Queria que Lola o mordesse na canela, mas, ela não mordia ninguém. Nesse quesito, era mais civilizada do que eu.
Estou de brincadeira. Eu gosto do meu cunhado. Faz mais de 20 anos que estou pegando a irmã dele. Estou só tentando me acalmar, me recompor para continuar escrevendo. Esta é uma curta história de sofrimento, dentre tantas do corolário humano. Há mais tristeza que felicidade, isso é fato. Todo mundo carrega uma desgraça a tiracolo para jogar na roda e impressionar os convivas. Os seres humanos são dramáticos. Não somos como os cachorros. A gente gosta de florear as coisas, de criar comoção, de desfilar os percalços, como se eles fossem exclusivos. As dores são todas iguais, só mudam de endereço.
Acabo de chegar do pet shop. Lá, fui informado pela veterinária responsável pelo estabelecimento que Lola, a cadelinha, personagem assídua das minhas crônicas, tinha morrido.
— Como assim, “morreu?”, eu quis saber, abilolado, aturdido, pois ela aparentava gozar uma saúde de ferro. Era a morte me pegando com as calças nas mãos. Moça, por favor, não chore, eu pedi, com a voz embargada, louco de vontade de chorar junto.
— Ataque cardíaco, ela disse com o rosto ensopado.
— Como assim, “ataque cardíaco?”, eu pensava que isso era uma particularidade dos seres humanos.
Enquanto acariciava Lola morta sobre a bancada, palpei, com minúcias, cada centímetro do seu corpo já enrijecido, para me certificar se havia ou se não havia algum sinal de ferimento, um hematoma, uma fratura, indícios de maus tratos. Isso é horrível, a gente desconfia das pessoas até nessas horas. Lucubrei que ela pudesse ter caído da maca ou ter sido eletrocutada, acidentalmente, durante a secagem do pelo. Sei lá. Quanta bobagem. Há muita criatividade e liberdade de expressão, em matéria de se conspirar. Apesar do sofrimento e da comoção coletiva dentro do pet shop, eu estava sendo eu mesmo, ou seja, aquele homem de sempre: centrado, aparentemente calmo, racional e capcioso, uma verdadeira lástima.
No final das contas, o que mais eu podia fazer senão aceitar, resignar-me frente as explicações fornecidas pela veterinária? Apesar de ser um animal jovem, Lola tinha sofrido um mal súbito, enquanto tomava banho. Um piripaque. Começou a babar, ficou ofegante e… Pimba! Uma arritmia. Um infarto, provavelmente. Quem diria: os cães também enfartavam. Esses bichos só faltavam falar mesmo, pois, enfartar eles já enfartavam. Tava ali a comprovação do fato. Apesar do fatídico e inesperado transtorno que acometeu a minha tarde, paguei a conta e parti. Claro: se eles eram tão inocentes quanto pareciam ser, não fazia o menor sentido que eu não os remunerasse. Era o trabalho deles. Não eram muito bons em dar más notícias, isso não, porém, era o trabalho deles. Aceitaram a grana com olhos inchados e sorrisos de constrangimento.
Consolei a minha companheira da forma que eu dei conta, nunca fui muito bom em acarinhar. Catei os trecos da Lola que estavam esparramados pela casa, guardei-os num depósito para, quem sabe, um dia, perdê-los. Não chorei, mas, fiquei triste, tão triste, que decidi escrever esse texto, uma espécie de tributo, não para Lola, uma cadelinha branca da raça “lhasa apso”, o animal mais feliz, dócil, brincalhão e adorável que conheci na vida, mas, àqueles que, melhor do que eu, entram de sola nos sentimentos, a ponto de amar os animais como se eles fossem alguém da família, às vezes, cometendo os excessos de que falou o meu querido cunhado. São essas as mesmas pessoas sensíveis que amam os amigos, os parentes (inclusive, os cunhados), um emprego, uma planta, um livro, uma banda de rock, um artista famoso do cinema, um desconhecido que pede ajuda.
Lola não era apenas uma cadela. Era o amor latindo dentro de casa, como se a alegria fosse durar para sempre. E todos nos já sabemos que isso, simplesmente, não é possível.


15 novembro, 2017

O LEVANTE DA TRADIÇÃO


Por:
Josyanne Rita de Arruda Franco
Regional SÃO PAULO
Presidente Nacional 2017/2018
E-mail: josyannerita@gmail.com 









                                    
Acordei do outro lado do mundo, um lado que sequer pensara em querer conhecer e que se apresentou a mim de maneira surpreendente, a partir de um convite para representar a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES no XI Congresso da União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos UMEAL, em Macau, na China.

Uma oportunidade singular que conquistou de imediato meu pensamento. A partir de então, esforços foram concentrados para a empreitada, levando na alma e no coração cada sobramista que confiou na dedicação e no trabalho executados com alegria durante 26 anos como membro da Regional SP, presidindo-a por duas gestões consecutivas até chegar à honrada função de presidir a SOBRAMES.
      
Enquanto penso nos caminhos que me levaram ao oriente, ouço a música suave que percorreu os caminhos que eu também percorri e que continua registrada em minha memória neste despertar do terceiro dia em Hong Kong. Um alarido cheio de viço nas conversas que atropelava transeuntes (onde turistas afoitos deslumbrados buscam o melhor ângulo para fotografar a beleza ofuscante da cidade) deixava passar o doce som da flauta de bambu e da cítara, que se instalaram como lembrança recorrente em meus ouvidos.
      
Rapidamente concluí que deveria deixar de lado as fotografias para viver cada momento que se apresentava aos meus sentidos na grande cidade, pois tudo era demasiadamente encantador e merecia ser fotografado, mas eu não conseguiria registrar as imagens de tudo e perderia as sensações que aqueles belíssimos dias ensolarados poderiam oferecer cintilando templos com suas majestosas escadarias e pontiagudos arranha-céus espelhados e jovens.
      
Descansei das lentes da câmera para aproveitar o enlevo da brisa soprando entre alamedas coloridas de pequenas flores, enfeitando o percurso cotidiano de todos os que passam apressados ou praticam o Lian Gong em parques e praças, como se o tempo também se movimentasse devagar, debalde o trânsito intenso e veloz das largas avenidas.
      
Há um mistério quase fantástico nas pessoas e nas grandiosas construções e edifícios. Sinto-me pequena criança extasiada com um mundo mágico, cheio de cores fortes e vibrantes que remetem à riqueza e opulência de imperadores e símbolos tradicionais da cultura chinesa. Quase inacreditável olhar ao redor e ver letreiros luminosos escritos em vermelho e dourado, cintilantes como os meus sonhos da última noite, onde a emoção tornou-me submissa ao seu comando e pude adormecer agradecendo aos céus por estar vivendo um pouco de tanta beleza.
      
Acostumada aos diferentes jeitos e ao comportamento cultural da nossa gente brasileira, um povo resiliente, criativo e cheio de valor que sempre tenta se adaptar ao que se oferece como realidade, encontrei-me invadida por tradições milenares robustas e presentes em todos os cantos de uma cidade espetacular, que só me pareceu possível de ser bem administrada em sua exuberância e grandeza graças à disciplina e à tradição encontradas em todos os lugares por onde passei.
      
Movimentos suaves, olhares inquietos e doces, gentilezas surpreendentes e uma etiqueta genuína, polida e cheia de respeito, fazem parte das relações interpessoais aqui nesse lado do mundo.
      
Descobertas que têm sido marcantes e vão se inscrevendo como inesquecíveis. Nos próximos dias, Macau acolherá os congressistas. Certamente será um desdobramento da experiência sensorial que se descortinou magnífica assim que meu relógio deu um salto de quase doze horas para me apresentar um maravilhoso mundo novo.
      
Tudo me faz crer que muitos outros sobramistas aqui deveriam estar a viver o fantástico experimento de estar no lado oriental do nosso mundo, irmanados com Médicos Escritores de língua lusófona.
      
Que Macau traga consigo grandes e felizes acontecimentos para a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES, fazendo valer cada minuto da difícil adaptação de fuso horário, que faz sentir vontade de almoçar quando é uma hora da manhã e de dormir às treze da tarde, mas também traz a sensação de que tudo será precioso no lado do sol nascente.
     
Sigamos!




                                       

14 novembro, 2017

A LIBERDADE

Por:
Marco Aurélio Baggio
Regional MINAS GERAIS
In memoriam
















"A liberdade é o bem maior sobre a face da terra" 

 Liberdade é o sentimento de que o sujeito é agente ativo de suas prerrogativas. Ele sente que tem poder de agir e de se conduzir segundo seu desejo, seu bom senso, de acordo com seu alvedrio.

A pessoa livre é aquela que avalia suas circunstâncias, leva em conta suas determinações, ultrapassa sua inércia, escolhe, implementa seu ato criativo, avança na expressão de seu valor como ator no cenário deste mundo.

A liberdade é uma aspiração, um alento sutil que se asperge por sobre a pessoa, dando-lhe a deliciosa sensação ilusória de que possui um poder de arbítrio livre de condicionantes. Esse estado de espírito é precioso. Ele implementa no sujeito a confiança de que ele é agente ativo de facção do que for preciso para superar suas necessidades. Nesse sentido, Hegel define a liberdade como “a consciência, por parte do sujeito, de sua necessidade”. Evidentemente, com o objetivo de vir a superá-la.
     
Liberdade implica a prerrogativa do sujeito de se orientar rumo à tomada de decisão, seguida pela atitude definitória que comanda o curso de sua ação, no qual ele comete um feito – o ato livre –, que é uma verdadeira obra de arte pessoal. O requisito antecessor para assim agir é o sujeito estar apetrechado de informações que lhe proporcionam amplo conhecimento de causa.
     
Sabe-se que a responsabilidade moral de nossa conduta se funda no livre-arbítrio. Mas o que é livre-arbítrio? Fundamentalmente, é uma noção que libera Deus – Javé, o Deus dos cristãos – da responsabilidade de ter-nos criado – se é que nos criou mesmo – tão frágeis, falhos, faltos, desamparados, desesperados e indecentes.
     
Dotados de uma natureza vacilante de animais sujeitos a todo tipo de necessidades e de adoecimentos e, pior ainda, estando condenados a viver renegando a verruma da consciência de nossa própria morte, ainda assim, temos de nos responsabilizar moralmente  pelas decisões e pelos rumos que impomos a nossa vida.

A concepção de que somos dotados por nosso Senhor de “livre-arbítrio” parece uma brincadeira.
     
Seres de fome, de sexo, de inveja, de cobiça, irascíveis e querelantes, ávidos de dinheiro e de garantia, somos – divinamente – convidados a negar nossa natureza e, angelicalmente, empreender escolhas virtuosas e benignas, para a maior glória de nosso ousado Senhor.
     
Livre-arbítrio? Com uma natureza natural que não nos dá a mínima confiança, em um Universo frio e opaco, vagando em um mundo de escassez e de disputas, temos o “livre-arbítrio” de escolher legumes na feira. Tão-só.
     
Nossa liberdade de escolha é apenas a de nos “espremer para limonadas”. Entre tantos limites e contingenciamentos, estamos compelidos a ir adiante, mesmo que seja por colominhantes caminhos, por sendas ocultas até uma distante estação escolhida de pouso qualquer.
     Ainda assim, a ilusão de que dispomos de livre-arbítrio ajuda a lidar com os condicionamentos da vida.
     Estamos condenados a exercer nossa pequena franja de liberdade ao sabor do bambalango dos fatores operantes endógenos e externos, extraindo-lhes, sagazmente, uma resultante que nos projeta para além deles. Temos de escapar espertamente da lei da natureza: ela cria coisas novas, destruindo as coisas já estabelecidas. Para viver e ir adiante, o homem usa sua parca liberdade, superando necessidades, contradições, empecilhos e impasses, escapando para o campo ainda devoluto do novo e do airoso.
    
É nessa nova posição que ele aufere as benesses dos ares finos de sua liberdade. Liberdade esta que é poder escapar das peias e dos predadores, sentindo-se inteiro e gostoso, a salvo, no desfrute de sua completude, posto em segurança. Este é um momento transitório em que pessoa usufrui do sentimento de liberdade pura. Estuante.
     
Vivemos em um mundo em que a grande imprensa tem o eficiente poder de expressão para difundir uma propaganda mistificadora que transforma o sujeito livre em um leitor, em um espectador ou em um consumidor. A mídia tende a nos tornar, a todos, sujeitos menores, coadjuvantes ou figurantes do processo econômico, social e político.

“– Você não pode perder... Você vai ver o... É uma oportunidade imperdível... Estamos promovendo especialmente para você...” E lá  vem  enganação: “– Abra mão de sua liberdade de escolha daquilo que o sustenta e daquilo que o constitui. Abdique de sua autonomia e mergulhe no festim de nossas ofertas e de nossos espetáculos sem fim. Aliene-se e sinta-se pertencente à grei de nossos associados. Afinal, vivemos para diverti-lo. Deixe de ser um você minúsculo e passe a pertencer ao clube das coisas e dos seres fantásticos e espetaculares. Será divertido e bastante alienante.”
     
Em prazo médio, a mídia não sustenta pessoa nenhuma. A diversão em moto-contínuo tem o discreto charme de afastar o indivíduo de seus próprios cuidados.
     
Trata-se de uma proposta difusa de dispersão do sujeito de seus interesses, impedindo que esse se empenhe na construção daquilo que lhe falta: no estabelecimento de sua consistência como pessoa que se sustenta, do modo que lhe convém. A mídia e a publicidade não cuidam de seus interesses básicos. Ao contrário, estão a serviço de outros, grandes, que precisam de sua anuência e de sua pecúnia para se manterem lá, nos largos espaços do poder constritor de sua liberdade pessoal.
     
É necessário e justo acautelar o cidadão para só ceder parcela de sua liberdade, desde que obtenha um intercâmbio valioso. A rigor, troca-se liberdade por coisas que são convenientes e sustentadoras.

Entre as patologias sociais do uso da liberdade está a difusão de falsas crenças, a divulgação de superstições, de ignorâncias e de pseudociências. Obscurantismos, fanatismos, fundamentalismos também se utilizam da permissividade do Ocidente para incitar ódios e a acirrar ânimos. A propagação das condutas ilegais e a exposição permanente da população a atos de perversidade gratuita, bem como a divulgação de crimes hediondos, guerras, matanças, decapitações mostrada ao vivo pela televisão são exposições a que estão sujeitas as pessoas e que as maltratam e as estupidificam.

Sabe-se o poder de contaminação que tem sobre a população imatura e propensa ao mal a expressão pela mídia de atitudes eivadas de maldade e de irracionalidade. Delinquentes, personalidades mal-conformadas, pessoas impulsivas, agressivas, ávidas de um momento de publicidade tendem a conduzir-se segundo os maus exemplos a que ficam expostas.
Se a brutalidade e o escândalo que a mídia exibe tem, em princípio, o nobre propósito de informar e de esclarecer o público, funcionando a má notícia como um adversativo que coíbe a má conduta para a maioria da população, uma pequena parcela desta tem, na exibição detalhada desses atos condenáveis, exemplo e estímulo para fazer igual ou pior. Imagens degradantes instruem sujeitos com iguais propensões.

Não há dúvida de que é preciso coibir e combater acirradamente o mal, onde quer que apareça, esbatendo todas as suas formas de manifestação.

Por fim, é bom lembrar que a liberdade traz, em si, uma volúpia de controle. Livre, leve, solto, o cidadão, muitas vezes, busca restabelecer a relação de subordinação ao outro, para sentir-se seguro. A liberdade, quase sempre, faz o sujeito sentir-se largado, em queda livre, no vácuo da vertigem de não saber o que fazer de si.

Explica-se assim o porquê de milhões de pessoas livres se lançarem, espontaneamente, em redes de captura do sujeito. O fumo, a droga, o jogo, o sexo, a comida, o vício, a compulsão, as quadrilhas e as seitas religiosas são excelentes dispositivos que restringem, violenta e definitivamente, a liberdade das pessoas, desviando suas trajetórias de vida, de maneira inapelável, para um rótulo: viciado, obeso, bêbado, drogado, fanático, crente, bandido. 
O excesso de liberdade, muitas vezes, desvirtua e perverte os homens. Vivemos em uma sociedade que nos granjeia o supremo bem: a liberdade. No entanto, o Ocidente é lasso e permite que psicopatas abusem de sua liberdade gerando, pelo excesso, uma ensandecida patologia da liberdade.

A liberdade não pode dar vezo a que o individuo descometa em suas prerrogativas como sujeito e nem exorbite seus desejos, atropelando o direito dos demais.

Assim a liberdade de cada cidadão deve ser escoltada pela justiça, fazendo vigorar a boa ordem dos vários componentes da vida social.

Toda liberdade excessiva tem que ser severamente coibida. Só assim os finozinhos ares da liberdade podem ser aspirados em plenitude por cada um de nós.  

   

13 novembro, 2017

LIÇÃO DE DELFINO


Por:
João Baptista Alencastro
Regional GOIÁS
E-mail: jbalencastro@uol.com.br








Após apresentar entusiasticamente cada um dos meus colegas e chegar ao professor Delfino, estou exultante. Trinta anos se passaram e ali está ele, ministrando novamente a aula da saudade para a nossa turma de Medicina. Começa comparando a infância e a velhice e nem notamos que somos mais velhos agora formados, do que ele quando nos ministrou a última aula. Ele tem oitenta anos, nós por volta de cinquenta e cinco.
Utiliza o plural majestático e lembro-me do meu amado Maranhão, terra da minha mãe. Ali inicia a lição de filosofia, onde cita Platão e Sócrates e os une – apesar dos cinquenta anos entre os filósofos – dizendo: “Muita informação deturpa a lição.” Nos recheia com citações em latim. Permeia tanto a semântica como a etimologia. Seu cabedal de conhecimentos é vasto, vastíssimo.
Olhando a plateia vejo todos embevecidos, com o gestual do velho mestre. Suas mãos em círculos, hora de braços cruzados. E sempre utilizando pensamentos encadeados e cita a primeira estrofe de Camões terceiro e quinto versos. “Por mares nunca dantes navegados” , “Mais do que prometia a força humana”. E quando quer reforçar algo que julga importante, diz: “– Cai na prova.”
Percebe-se claramente que a aula é de Poesia e Filosofia, se der tempo; um pouco de Histologia. Pois a vida não se interrompe, ela prossegue. E ninguém morre, apenas “voltou para casa”. São palavras dele, não minhas. Na verdade ele não está ensinando e sim insinuando.
Sua trajetória compara os tempos onde antes o que era aula, agora é encontro. O que era aluno, aprendiz. Professor virou tutor ou preceptor, e sala de aula é estação. Quadro negro é tablet. E somando tudo tem a PBL (aprendizado baseado em problema) que ele subverte deliciosamente e cria o DBL (aprendizado baseado em Delfino). Num só momento vem Platão “Só aprendemos o que sabemos quando dormimos.” E depois Rui Barbosa em “Oração aos Moços”. E fecha com Apologia de Sócrates que é um discurso de Platão.
Inundados que estamos de tanto saber, não percebemos que o discurso de Delfino é linear, quiçá rotatório. Ele vai e volta. Um madrugador intermitente, como diria Rui Barbosa. E agora cita seu método de ensino, onde só da presença do aluno ele dá nota dois. E exemplifica uma aluna que tirou zero pela caligrafia. Introduz-nos Reuven Feuerstein, um psicopedagogo e nos prova que as ideias estão aí. Basta usá-las. E que a habilidade se adquire. Nos incentiva a estudar mais, ler mais que possível aprender sempre.
Nesse momento estou totalmente tomado por sua verve e ela vai e declama Augusto dos Anjos, autor de livro único. Ao fazê-lo, estica as vogais. Coloca as mãos na cintura. Salta para o seu aluno mais velho do que ele, e também cita – en passant – um paciente com Síndrome de Down, formado em Matemática. Circula novamente e cita a biografia de Einstein “Eu não sou mais inteligente do que os outros, a diferença é que eu fico mais tempo no problema.”
Sabe que não precisa usar o data show, ele é o show! Perpassa por Confúcio e os Analectos, no capítulo sete onde fala sobre a transmissão, não invenção, do aprendizado. Shu Er, um dos primeiros textos que li quando aprendi mandarim. Disseca ainda mais o cérebro de Einstein e o trabalho de Marion Diamond, professora de Anatomia. E num salto faz várias citações sobre a saudades, “O posto amargo do infelizes.”
E finalmente fala sobre histologia, sua matéria curricular. Desenha, explica, tudo sobre a glia. Nos mostra como e o que comer. Ilustra a barreira hemato-encefálica. Ali percebemos que ele não consegue, ou melhor, não deseja terminar a aula. São mais de cento e vinte minutos de fala ininterrupta. Cita Pascal – meu matemático predileto – e junta com Guerra Junqueira “Um grão de trigo abriga uma alma infinita”. E diz que tudo está no átomo, até Cristo.
Vai desde a Cidadela de Saint Exupéry, um tratado publicado pós mortem. Até o Inferno de Dante: bene escolta chi la nota. E eu como devoto aluno, gravo tudo em minha memória. Agora faz digressões sobre a acetilcolina. Estou embasbacado.
A surrealidade toma conta de todos e não queremos que ele pare de falar, mas precisamos disso. Delfino entra então nos meandros de Gibran Khalil Gibran e fala sobre o trabalho. Os vários tipos de trabalho, a ver: por obrigação, que é o imediato e remunerado. Depois a ação, que é o que modifica o ambiente. E por último o serviço, que transforma o homem.
E sabemos que ele trabalha todos os dias, no mesmo local, ouvimos um pouco mais de sua longa e profícua biografia e ele diz então sobre o trabalho por equívoco, teoria de Thoreau, em Walden. “Fui para os bosques viver de livre vontade. Para sugar todo o tutano da vida…Para aniquilar tudo o que não era vida. E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!”
E ali está nosso mestre que sempre trabalhou, aprendeu sozinho se conhecendo mais e mais, teve onze filhos naturais e nós: seus alunos e filhos medicinais.


12 novembro, 2017

CIRANDA

Por:
Mário Luna Filho
Regional MARANHÃO
Email: mlunafilho@bol.com.br




Obliquamente,
cai a tarde.
O sol
brinca
de esconde-esconde,
acordando em mim
uma lúdica
ciranda,
enfeitando de arco-íris
os meus olhos.

... e a criança
que estava aqui?





11 novembro, 2017

MADRUGADA INSONE

Por:
Fernando Barroso Duarte
Regional CEARÁ













Durmo no vácuo da noite
Viajo campinas desconhecidas
Me cubro, agasalho meus pensamentos no que deveria ser
calada da madrugada
Mas o vento uiva, ricocheteia,
reverbera, diz que está lá fora e
que não consegue dormir

Assim estamos nós
Minha alma pega carona neste vento
acelerado madrugada a dentro
Me viro, respiro, adormeço e acordo
Sinto tal qual um canal, em que sonhos,
temores, incertezas, viajam velozes e
incontroláveis no turbilhão da madrugada

Que noite!
Que vácuo de vento!
Quem sou eu?
Porque estou a correr tanto neste canal de vento?
que uiva loucamente e pede so um pouco de silêncio para repousar
seus sonhos

E vento sonha?
ou só gente pode?
Cachorro também não?
Sei não

Acho que eu só queria dormir até despertar e nem ouvir lá fora.
Pouco me importa a direção da ventania
Não devia ventar à noite.


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